Atalhos

Retrato de Jacques Lacan a carvão, metade do rosto dissolvida num campo de dígitos binários
Jacques Lacan · 1901–1981
Lacan
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Ler Lacan com outras ferramentas

O CyberLacan é um projeto de estudo da obra de Jacques Lacan. A aposta é que a tecnologia pode tornar visível o que, no papel, fica parado.

Três frentes

Corpus
Os seminários lidos lição por lição, com as datas reais das sessões. A data é a “chave de leitura”: é ela que diz quando um conceito aparece e o que ele significava naquele momento do ensino.
Instrumentos
Figuras manipuláveis, construídas com a ajuda da tecnologia. Não substituem a leitura: dão a ela algo em que se apoiar.
Pesquisa
Ferramentas para localizar: onde cada conceito aparece, como um termo muda de sentido de uma década a outra, o que separa um seminário de outro.

O que o projeto não é

Não é uma introdução que dispense os textos, nem um intérprete autorizado. Cada afirmação remete a uma lição datada, e o caminho de volta às transcrições fica sempre aberto: é por ele que tudo aqui pode ser conferido, discutido e corrigido.

A tecnologia entra como meio facilitador. Contar ocorrências, cruzar datas, expor algumas das formalizações de Lacan de maneira a propor a compreensão por outra via. Aqui, a tecnologia devolve o material para ler melhor, nunca a leitura pronta.

Em andamento

Os seminários entram aos poucos, revistos um a um contra as transcrições (Staferla), e novos instrumentos estão em construção. Se você quiser participar, veja como colaborar.

colabore

Um trabalho que se faz com outros

O CyberLacan está em construção, e ganha com quem lê Lacan de perto. Se você estuda, pesquisa, ensina ou pratica a partir da teoria lacaniana, sua leitura pode tornar este trabalho mais preciso.

Formas de colaborar

Contato

caua.turin@gmail.com
I · três instrumentos

A letra e a fala

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem”, tomado ao pé da letra. O sentido que só chega depois, as palavras que se ligam pelo som, o corte que faz de uma frase uma outra.

É o Lacan dos anos 1950: Saussure e Jakobson relidos com Freud — a metáfora, a metonímia, o ponto de basta, a escansão da sessão.

INSTRUMENTO 01 · VERBO: BASTEAR

O ponto de basta

Você não sabe o sentido das primeiras palavras de uma frase até que a frase termine. E quando termina, o sentido não avança: ele volta.

Point de capiton é literalmente o ponto do estofador: o botão que atravessa o estofamento e prende o tecido à estrutura, impedindo que ele deslize. Lacan escolhe essa imagem porque ela tem três propriedades exatas: o ponto é pontual (não é uma costura contínua), ele prende duas camadas heterogêneas (o significante e o significado, que não se correspondem termo a termo), e sem ele o tecido continua deslizando.

A demonstração abaixo tem quatro tempos. Vale segui-los na ordem.

1A cadeia corre

As palavras se sucedem. Cada uma abre possibilidades e nenhuma fecha nada. É a metonímia: deslizamento puro.

2Os sentidos flutuam

Sob a barra, vários significados candidatos coexistem para cada palavra já dita. Nenhum está fixado. Repare que eles se movem.

3A frase termina

O último termo faz a cadeia parar. Este é o ponto de basta — e ele é uma posição, não uma palavra especial.

4O vetor retroage

Uma onda corre da direita para a esquerda, contra o sentido da leitura, e fixa cada palavra anterior. Só agora elas significam.

Como usar
1Avance a frase palavra por palavra e observe o campo de baixo: vários sentidos flutuam ao mesmo tempo.
2Quando a cadeia parar, escolha um dos três finais. Um vetor vai correr para trás.
3Depois abra “comparar os três finais”: a coluna da esquerda nunca mudou.
01A frase que só se lê ao contrárioverbo: bastear

O que a tabela de comparação mostra

Ao abrir a comparação, o usuário vê a mesma coluna de palavras recebendo três colunas de sentido inteiramente diferentes. As palavras não mudaram. Nenhuma letra foi alterada à esquerda. O que mudou foi apenas o ponto onde a cadeia parou — e isso reescreveu tudo o que veio antes.

É a razão pela qual a interpretação analítica não acrescenta informação. Ela intervém na pontuação. Um analista que interrompe a sessão num ponto determinado não está sendo rude nem econômico: está operando sobre o único lugar onde o sentido se decide.

ONDE SE ERRA O ponto de basta não é “a palavra-chave do texto” nem “a ideia central”. É uma função. Um discurso pode ter muitos pontos de basta, poucos, ou — na psicose — nenhum funcionando. Marque a caixa foracluir o ponto de basta: a frase termina e nada colapsa. Os sentidos continuam deslizando indefinidamente. É a introdução visual mais eficiente que existe para a foraclusão, e custa uma flag.
Onde isto está no corpus
S3 6 jun. 1956 — o termo aparece · S5 construção do grafo · S6 a interpretação e o desejo

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

INSTRUMENTO 02 · VERBO: ESCUTAR

A rede de palavras

O inconsciente não se organiza por sentido. Ele se organiza por significantes. Este campo é feito das palavras de uma sessão — e mostra o que muda quando se escuta o som, e não a história.

Saussure chamava o significante de imagem acústica. Lacan leva isso a sério: se o significante é acústico, as ligações que contam no inconsciente são ligações de som. É por isso que um lapso funciona, que um chiste funciona, que um sintoma pode se mover quando se escuta que “a gente” é também “agente”.

O CASO Homem, quarenta e três anos, contador. Cresceu em Sorocaba; o pai, Osvaldo, consertava relógios numa banca perto da estação e morreu há sete anos, na oficina, perto das sete da noite. A mãe, Dalva, continua lá; a irmã, Neusa, quase não fala com ele. Mora em São Paulo, é casado com Célia e tem uma filha, Alice, que vai fazer nove anos. Procurou análise por um aperto no peito que vem sempre por volta das sete — e por chegar atrasado em tudo.
O que se lê abaixo é uma sessão inteira, de uma quinta-feira. O caso é composto: não é de ninguém. Foi composto para ser plausível, que é o que aqui importa.

Cada ponto do campo é uma palavra que ele disse. As quatro estrelas maiores são os significantes que voltam — relógio, aperto, Sorocaba e atraso —, os S₁ desta fala: não foram escolhidos por serem importantes, mas porque cada um arrasta um pedaço inteiro da fala atrás de si.

E no centro está a palavra que faz, nesta fala, o trabalho do Nome-do-Pai. Não é Osvaldo. O Nome-do-Pai não é o nome de pai nenhum: é o significante que diz a que se refere o desejo da mãe, e que por isso dá ao resto um sentido estável. Aqui, ele está numa frase da mãe, repetida a vida inteira — “teu pai é que sabe a hora”. É hora que amarra o relógio do pai, o prato posto às sete e quinze, o aperto das sete e o atraso: a lei, nesta casa, tinha hora.

Como usar
1Toque numa palavra: abre o que ele disse com ela e o que ela encontra pelo som. Arraste para andar; pince ou use a roda para aproximar.
2Passe para relato e suba a ancoragem do S₁: veja a fala se estreitar em torno dos quatro significantes — e leia, embaixo, como ele passa a falar.
3Abra os atos falhos. Depois, foraclua o Nome-do-Pai e veja a mesma fala funcionar como numa psicose.
02Campo significante — ligações por somverbo: escutar
Toque em qualquer palavra do campo. Cada uma abre o que ele disse com ela — e o que ela encontra pelo som.

Por que o som e não o sentido

Um exemplo vale o argumento inteiro. Um analisante diz: “eu não sei o que fazer da minha vida”. Pela via do sentido, é uma queixa sobre escolha profissional, e a resposta seria um conselho. Pela via do som, “não sei” e “não sê” são a mesma cadeia acústica — e a frase passa a dizer não seja, uma interdição de existir que talvez ele nunca tenha escutado que dizia.

O analista não escolheu esse sentido: ele apenas não escolheu nenhum. Deixou a cadeia acústica aberta. É por isso que a escuta analítica se chama “atenção flutuante”: flutuar é justamente não fixar o sentido cedo demais.

Nesta sessão, o som faz encontros que a história não faz:

o que soa juntoo que isso escreve na fala dele
hora · ora · agora · embora · senhoraA palavra que amarra a fala inteira volta dentro de outras. A vendedora do sonho diz “ora, moço, agora é tarde”; a irmã o acusa de ter ido embora; e ele chama a analista de senhora — sem conseguir dizer você.
conserto · concertoA mesma palavra no ouvido. O ofício do pai e a única vez em que o viu sair para ouvir alguma coisa: um concerto na praça, de pé, atrás de todo mundo. Ele mesmo repara: “é a mesma palavra”. Não é um ato falho — não houve troca na fala, porque as duas soam igual —, é um equívoco: o som é um só, e o sentido se divide.
sinto · cinto“Cinto muito”, escrito à irmã no enterro. Na fala, ninguém ouviria a diferença; só a letra a escreve — e escreve o cinto que o pai tirava devagar e punha na mesa, sem nunca bater. Também aqui não é um ato falho de fala: é o equívoco que a escrita deixa ver.
Brás · atrásEle desce uma estação antes do Brás e vem a pé. “Brás, atrás. Eu fico atrás” — e o pai ficou atrás de todo mundo no concerto.
aperto · aberto · perto · acerto · consertoO sintoma rima com a porta que estava aberta no dia da morte, com a banca perto da estação e com a frase do pai: “isso não tem conserto, tem acerto”.
acordo · acordoEle acorda às sete sem despertador, e cumpre o acordo de ficar calado na frente da filha. Uma palavra, dois lugares.
Dalva · alvaO nome da mãe é a hora em que ela levanta, antes de clarear — “aquela hora alva”.
Sorocaba · acaba“Sorocaba é assim: tudo acaba cedo.” E no fim da sessão: “a hora acabou, né?”

O que a ancoragem faz

Um S₁ é um significante que representa o sujeito: ele se reconhece ali, e é ali que volta. Quando esse puxão é fraco, a fala anda — uma palavra leva a outra pelo som, e o próprio falante se surpreende com o que disse. Quando é forte, a fala gira: tudo o que ele diz volta ao aperto, às sete, ao relógio, ao atraso. É a alienação do sujeito aos significantes que o representam, e é o retrato do sofrimento neurótico: repetir, sem saber o quê.

O que a foraclusão faz

Foracluir não é apagar uma palavra: hora continua soando dentro de agora, embora, senhora — no modo som, nada muda. O que se perde é a amarração. Sem o significante que dava ao desejo da mãe um nome, os S₁ deixam de se organizar em torno de um ponto, e a significação se solta. O esquema mostra, de forma didática, o que Lacan descreve no Seminário 3:

  • A significação pessoal. Palavras comuns passam a se dirigir a ele, com uma certeza que não pede prova: o relógio do painel “mudou pra mim”.
  • O retorno no real. O que não foi simbolizado volta de fora, como voz: as frases do pai e da mãe — “quem chega depois encontra fechado”, “olha a hora” — já não são lembradas, são ouvidas.
  • As frases interrompidas, que a voz completa, e o neologismo: uma palavra nova, de sentido inabalável, que só ele entende — aqui, desponteirar.
  • Um Outro que goza dele: “eles”, que adiantam os relógios e sabem onde ele está.

E o passo seguinte, que Freud já via em Schreber: o delírio não é a doença, é tentativa de cura. Lacan o chama metáfora delirante: uma significação nova, construída pelo próprio sujeito, que volta a dar um ponto de amarração à fala. O botão aparece depois da foraclusão.

ADVERTÊNCIAEste é um esquema didático. Ninguém “passa” de uma estrutura a outra por um clique: a foraclusão é uma condição lógica de origem, não um acontecimento. O que o botão mostra é a diferença entre dois funcionamentos da mesma fala.
Onde isto está no corpus

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

INSTRUMENTO 03 · VERBO: CORTAR

O corte

Em Lacan, o corte é o ato. Não é uma operação auxiliar sobre a figura: a interpretação é um corte, a sessão é um corte, a travessia da fantasia é um corte.

Aqui, o que um corte faz ao discurso de quem fala. O que importa num corte não é onde ele passa, mas o que resta depois dele — e se algo, ali, se abriu.

A sessão como corte

A escansão — o corte da sessão — não é um recurso de agenda nem uma rispidez. Ela é a única operação que age sobre o ponto onde o sentido se decide: a pontuação. Uma frase interrompida em lugares diferentes não é a mesma frase abreviada; é outra frase.

Arraste a tesoura. Corte em qualquer ponto e veja o que fica isolado — e o que isso abre.

Como usar
1Escolha uma fala e toque entre duas palavras para escandir ali.
2A maior parte dos cortes não abre nada — e ver isso acontecer também é a lição.
3Recole a fala e experimente outro ponto: compare o que cada corte isola.
03A fita de falaverbo: escandir
toque num dos pontos entre as palavras para cortar ali
Escolha uma fala e toque num dos intervalos. Nem todo corte produz alguma coisa — e é justamente isso que se aprende.
DUAS PRECISÕES QUE O MÓDULO PRECISA CARREGAR (a) O corte não “revela um sentido oculto”. Ele suspende o fechamento do sentido. O que aparece não é uma verdade escondida atrás da frase: é uma outra cadeia possível, que estava ali sem que ninguém a tivesse escolhido.
(b) Cortar em qualquer lugar não funciona. A maior parte dos cortes fecha o sentido em vez de abri-lo — e a interface deve deixar isso acontecer, porque um instrumento que sempre produz efeito ensina o contrário do que se quer.
Onde isto está no corpus

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

II · dois instrumentos

As estruturas e os laços

Da letra à estrutura. O que acontece com um único significante — o Nome-do-Pai — decide três destinos; e um mesmo jogo de quatro lugares produz quatro maneiras de fazer laço social.

Do Seminário 3 (1955–56), em que a foraclusão ganha estatuto de conceito, ao Seminário 17 (1969–70), em que os quatro discursos são escritos.

INSTRUMENTO 04 · VERBO: DECIDIR

Três respostas à castração

Três destinos possíveis para uma mesma operação — e a estrutura é o nome do destino que coube a cada um.

A operação é a metáfora paterna. Antes de qualquer pai de carne e osso, a criança se depara com um enigma: o que a mãe deseja, quando não está voltada para ela? Um significante vem responder a esse enigma e dar-lhe uma direção — Lacan o chama Nome-do-Pai. Quando ele opera, o desejo da mãe ganha um nome, e o mundo ganha um sentido comum, partilhável.

Freud já havia isolado três mecanismos, com três palavras alemãs diferentes. Lacan mostra que eles não são graus de uma mesma coisa: são três operações lógicas distintas, e a pergunta que as separa é uma só — o que foi feito com esse significante, e com a castração que ele inscreve?

Como usar
1Escolha um dos três destinos do significante.
2As consequências entram uma a uma: elas não se escolhem, deduzem-se da operação.
3Compare as três lado a lado, e depois jogue a partida de escuta.
04Escolha um destinoverbo: decidir
Escolha o que acontece com o significante. As consequências não são escolhidas: elas se deduzem.

A regra prática que sai daí

Três diferenças bastam para orientar a escuta, e nenhuma delas depende de sintoma, comportamento ou queixa. Todas dependem da posição do sujeito na fala:

Uma partida de escuta

Oito falas. A pergunta não é “o que essa pessoa tem”, e sim que posição essa frase ocupa. A resposta quase nunca está no conteúdo — está na modalidade: dúvida, certeza, ou um saber afirmado sobre o gozo.

PROVAOnde está a diferença?verbo: escutar
Leia a fala e escolha. O retorno explica o critério, não a resposta.
ADVERTÊNCIA NECESSÁRIA Isto é material de estudo, não um instrumento de diagnóstico. Estrutura não se lê numa frase isolada: em psicanálise, o diagnóstico se estabelece na transferência, ao longo do tempo, e não por lista de sinais.

(a) Perversão, como estrutura clínica, não é sinônimo de prática sexual, de crime nem de fantasia. Confundir os dois é um erro grosseiro, e com consequências.
(b) Psicose não é ausência de razão nem perigo. Muitas psicoses nunca se desencadeiam, e o delírio, quando vem, é um trabalho de reconstrução.
(c) A foraclusão é lógica, não cronológica: não quer dizer que “faltou o pai em casa”. O que conta, diz Lacan em 1958, não é tanto como a mãe se arranja com a pessoa do pai, mas o caso que ela faz da palavra dele — o lugar que reserva ao Nome-do-Pai na promoção da lei.
Onde isto está no corpus

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

INSTRUMENTO 05 · VERBO: GIRAR

Os quatro discursos

Um discurso, aqui, não é um jeito de falar: é um laço social — uma maneira de dois lugares se relacionarem. Há quatro, e eles se obtêm uns dos outros por rotação.

A estrutura tem quatro lugares fixos e quatro termos que giram. Os lugares não mudam nunca; os termos ocupam cada um deles, um quarto de volta por vez. Isso significa que ninguém “escolhe” um discurso: ocupa-se um lugar, e o lugar produz seus efeitos.

AGENTEquem fala

Ocupa a posição de semblante. Comanda o laço — e não sabe da verdade que o sustenta.

OUTROa quem se fala

É posto a trabalhar. O que se pede dele é sempre da ordem do impossível.

VERDADEsob a barra

Sustenta o agente e permanece oculta para ele. Só se pode meio-dizer.

PRODUÇÃOo resto

O que sai do trabalho — e que não retorna à verdade. Essa impossibilidade de retorno é a impotência do discurso.

Como usar
1Gire um quarto de volta, ou toque direto no nome de um discurso.
2Levante a barra da verdade — e repare que o agente não sabe do que está embaixo.
3Tente arrastar a ficha da produção para a verdade. Ela bate e volta.
05Discurso do mestreverbo: girar
IMPOSSÍVEL IMPOTÊNCIA AGENTE OUTRO VERDADE PRODUÇÃO

A mesma cena, quatro vezes

O exercício mais eficiente que existe para este módulo: uma única situação, reencenada nos quatro laços. O conteúdo é quase o mesmo; o que muda é quem ocupa o lugar de agente — e isso muda tudo.

CENAverbo: reencenar
ONDE SE ERRA (a) Discursos não são tipos de pessoa nem estilos de comunicação: são posições que se ocupa e se troca — muitas vezes dentro da mesma conversa.
(b) O discurso da histérica não é “o discurso das histéricas”: é o que faz o saber avançar, e Lacan chega a associá-lo ao movimento da ciência.
(c) O discurso do analista não é “o melhor”. É o que opera com o objeto a no lugar de agente — e seu impossível é psicanalisar.
Onde isto está no corpus

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

III · três instrumentos

As superfícies e o nó

Quando a palavra não basta para escrever a estrutura, Lacan passa a desenhá-la: uma fita com um lado só, uma garrafa sem dentro, três anéis que só se sustentam juntos.

Estão na ordem em que entram no ensino. A banda de Möbius aparece no Seminário 9 (1962) e atravessa os anos seguintes; a garrafa de Klein, que é feita de duas bandas, vem logo depois; o nó borromeano entra em 1972 e ocupa o fim da obra.

INSTRUMENTO 06 · VERBO: ORIENTAR

Um lado só

Uma fita que dá meia-volta antes de ser colada tem um lado só e uma borda só. Não é um efeito de perspectiva: é uma propriedade que um ser sem espessura, preso à superfície, pode verificar sozinho — e que Lacan usa para escrever o sujeito dividido.

Lacan a fabrica diante do auditório, em março de 1965: “pegar uma fita e fazer com que ela dê, antes de colá-la a si mesma, não uma volta completa, mas meia-volta: 180°”. Para dizer o que ela tem de especial, ele empresta de Poincaré um ser infinitamente plano, que vive na superfície e não vê nada de fora. Visto de fora, nada distingue a fita de um cinto. Mas esse ser pode descobrir, por uma propriedade intrínseca, onde está: se ele marca, num certo sentido, as letras do seu horizonte — a, b, c, d, e — e caminha sem encontrar borda nenhuma, ao voltar pela primeira vez ao mesmo ponto encontra a orientação oposta. “A palavra se lerá de modo palindrômico, no sentido exatamente inverso.”

Lacan sublinha que essa inversão é “de uma forma totalmente diferente, e muito mais radical, que a da relação especular” — e que, no seu ensino, ela vem progressivamente tomar o lugar dela. O espelho inverte uma imagem diante de outra. A banda inverte o próprio sujeito, sem que ele tenha saído do lugar.

Como usar
1Arraste para girar, use a roda ou dois dedos para aproximar. Ponha o ser plano para andar e acompanhe, no canto, o que ele lê.
2Use pintar um lado: na banda, a tinta chega ao avesso sem passar pela borda. Depois troque para a cinta comum e repita.
3Siga a borda: na banda ela só fecha depois de duas voltas. Na cinta, há duas bordas, e uma nunca é alcançada.
06A banda de Möbiusverbo: orientar
o que o ser plano lê a b c d e do lado em que partiu
Ponha o ser plano para andar. Ele leva consigo a palavra a b c d e, escrita no sentido em que partiu.

O que o palco calcula

As agulhas que ficam para trás do ser plano são a normal da superfície — a direção que, a cada ponto, aponta para “um dos lados”. Ela é levada passo a passo, sem saltos. Na cinta, depois de uma volta, a agulha chega como partiu. Na banda, chega invertida: o mesmo ponto, o outro lado, e nenhuma borda atravessada. É isso, e só isso, que se chama não orientável. Por isso a borda dá duas voltas antes de fechar, e por isso a tinta, que nunca transborda, acaba cobrindo tudo.

Saber e verdade, numa face só

Em “A ciência e a verdade” (1965), Lacan resume o ano anterior: formulou a “divisão experimentada do sujeito como divisão entre o saber e a verdade, acompanhando-a de um modelo topológico, a banda de Moebius, que leva a entender que não é de uma distinção originária que deve provir a divisão em que esses dois termos se vêm juntar”.

O palco mostra a frase. Em cada ponto há dois lados, e pode-se chamar um de saber e o outro de verdade. Mas não há uma região do saber e outra da verdade, separadas desde sempre por um muro: passa-se de um ao outro sem atravessar nada, apenas continuando. A divisão é real e é local; não é uma partição do espaço. É o que Lacan chama, no mesmo texto, a exclusão interna do sujeito a seu objeto — e cujo “signo gerador”, diz ele, é o oito interior.

Em “O aturdito” (1972), a mesma estrutura serve à ambivalência: o amor-ódio é “a face única da banda de Moebius”. Não são dois sentimentos em dois lugares; é uma face só, que de um lado se lê amor e, continuando, ódio.

ONDE SE ERRA (a) A banda não diz que “os opostos são iguais”. Em cada ponto há, sim, dois lados distintos; o que não existe é uma separação global entre eles.
(b) A propriedade não depende de olhar a fita de fora, em três dimensões: o ser plano a descobre por dentro. É isso que interessa a Lacan — uma estrutura que se verifica sem metalinguagem.
(c) Diferente da garrafa de Klein — o próximo instrumento, feita de duas bandas —, a banda tem borda — uma só. E a borda não é um detalhe: cortada pelo meio, a banda não se divide em duas, vira uma fita só, com frente e verso. Lacan dirá que ela “não é outra coisa senão esse corte”.
(d) Lacan avisa que a fita de papel “é só a imagem”: o que conta é a estrutura. As larguras, as cores e a forma no espaço são livres; a meia-volta não.
Onde isto está no corpus
S12 10 mar. 1965 — o ser plano e a palavra invertida · S9 13 jun. 1962 — uma superfície “gauche”, não superponível à sua imagem · Escritos “A ciência e a verdade” (1965) · Outros escritos “O aturdito” (1972)

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

INSTRUMENTO 07 · VERBO: PERCORRER

A garrafa de Klein

Um objeto de vidro que qualquer sopradora sabe fazer, e que não existe. O gargalo atravessa a parede do bojo — e esse atravessamento não é um defeito da peça: é o preço de ela caber em três dimensões.

Como usar
1Comece pelo controle “colar”: antes da garrafa há um quadrado e quatro setas.
2Arraste para girar, use a roda ou dois dedos para aproximar. Toque nos números para as anotações.
3Ligue o campo de normais e acompanhe o laço até o fim: a seta volta invertida.
07Ato I — o quadrado e as setasverbo: percorrer
ANOTAÇÕES: arraste = rotação · roda = zoom · teclado ← → ↑ ↓ + −um dedo gira · dois dedos aproximam
Mova o controle “colar”: o quadrado se enrola em cilindro, e o cilindro tenta fechar-se — e não pode.

Os seis fatos, na ordem em que devem ser entendidos

  1. Ela não tem borda. Diferente da banda de Möbius, é uma superfície fechada: não há contorno pelo qual se possa cair fora dela.
  2. Ela não tem interior. Uma esfera divide o espaço em dentro e fora. A garrafa de Klein é fechada e não separa o espaço. Não existe “o volume da garrafa”. O que você despejar dentro está fora.
  3. A autointerseção é uma mentira necessária de ℝ³. Em quatro dimensões ela é perfeitamente lisa e não se toca. O gargalo que entra pela parede é artefato da nossa dimensão — e é isso que o slider w demonstra.
  4. Ela não é orientável. Percorra-a e volte com a referência invertida. Ligue o campo de normais e veja as setas girarem ao longo do caminho.
  5. Ela são duas bandas de Möbius coladas pela borda. Corte-a corretamente e obtém duas Möbius, uma destra e uma sinistra. E a colagem inversa não pode ser feita em ℝ³ — de novo o fato 3.
  6. Ela é um quadrado com uma regra de colagem. Um par de lados colado direto; o outro par colado com inversão. Toda a estranheza está nessa única inversão: P(u+2π, v) = P(u, π−v).

O que Lacan faz com isto

Aqui é preciso ser preciso, porque este é um dos pontos em que a divulgação mais deforma. Lacan não usa a garrafa de Klein para dizer que “tudo é relativo” nem que “o dentro é o fora” num sentido vago. Ele a usa para escrever uma estrutura de vizinhança específica, e o que ela escreve tem três nomes.

1 · A extimidade

O termo é de Lacan, forjado no Seminário 7 e retomado depois: extimité. Ele nomeia o que é ao mesmo tempo o mais íntimo e radicalmente exterior. Das Ding, o objeto a, o gozo — nenhum desses se aloja num interior psíquico, e nenhum está simplesmente fora.

Ora, essa é exatamente a propriedade da garrafa. Não que ela confunda dentro e fora: ela demonstra que a distinção global não se sustenta, ainda que localmente ela seja perfeitamente clara. Em qualquer ponto da superfície você sabe de que lado está. É só quando você percorre que descobre que os dois lados eram um. É essa combinação — clareza local, impossibilidade global — que faz dela uma escrita da extimidade e não uma metáfora de fusão.

2 · O Outro que não tem exterior

O grande Outro é o lugar de onde se fala. E ele tem uma propriedade incômoda: não há posição fora dele de onde se pudesse examiná-lo. Não se pode sair da linguagem para verificar a linguagem; não há metalinguagem. O sujeito está no Outro, e o Outro está no sujeito, e não há um terceiro lugar.

Uma esfera não escreve isso — ela sempre deixa um lado de fora. A garrafa escreve. É por isso que Lacan a convoca sobretudo nos Seminários 12 a 14, no momento em que trabalha a relação do sujeito com o campo do Outro, a alienação e a separação.

3 · O circuito da demanda

Você fala ao Outro e recebe do Outro sua própria mensagem em forma invertida. Essa frase, do grafo do desejo, é topológica antes de ser psicológica: a demanda que sai é a demanda que retorna, sem que haja dois trajetos. Na garrafa, o gargalo que parece sair do bojo é o mesmo que reentra nele. Não há emissor e receptor: há um percurso único que se fecha atravessando-se.

LEITURA — E O LIMITE DELA Lacan não demonstra nada com a garrafa: ele escreve com ela. A diferença é decisiva e precisa estar no módulo. Seu uso é heurístico, varia de momento a momento na obra, e há comentadores que consideram o recurso topológico dessa fase menos rigoroso que o dos nós, a partir de 1972.

Marque também que o slider w desta página usa uma construção didática — uma quarta coordenada que separa as duas folhas na região de autointerseção — e não a imersão canônica de livro-texto. Honestidade acima de pirotecnia: um site que assinala as próprias simplificações ganha a autoridade que perde em espetáculo.
ONDE SE ERRA (a) Não é “um objeto que contém a si mesmo”, nem o infinito, nem o eterno retorno.
(b) O enunciado correto não é “dentro é fora”, e sim: a superfície não separa o espaço.
(c) A garrafa não “existe só em quatro dimensões” no sentido de ser fantasmagórica — ela é um objeto matemático perfeitamente definido; o que não cabe em ℝ³ é o seu mergulho sem autointerseção.
(d) Não a use como logotipo: virou clichê de divulgação. O oito interior e o nó de quatro são mais interessantes e menos batidos.
Onde isto está no corpus
S12 dez. 1964 – jan. 1965 — a garrafa · S13 a topologia do objeto · S9 toro e cross-cap

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

INSTRUMENTO 08 · VERBO: ATAR

R · S · I — por que um nó, e por que borromeano

Real, Simbólico e Imaginário não são “três dimensões da experiência”. São três consistências — e a tese está inteira na maneira como elas se prendem umas às outras.

Lacan apresenta o nó em fevereiro de 1972, no Seminário 19, a partir do brasão de uma família italiana, os Borromeu: três anéis entrelaçados de tal modo que nenhum par está preso, e no entanto os três não se separam. Basta cortar qualquer um para que os outros dois se soltem.

É isso que ele procurava. Se os registros estivessem ligados em corrente, dois deles se sustentariam sem o terceiro. No nó borromeano, não: não há dois que façam par sozinhos. Só há consistência a três.

Como usar
1Toque em qualquer uma das sete regiões do nó — os três anéis, as três zonas em que dois se cruzam, e o centro.
2Cada zona é definida também pelo anel do qual está fora: é daí que vem a sua propriedade.
3Corte um anel e veja os outros dois caírem soltos. Depois, mostre onde Lacan situa inibição, sintoma e angústia.
08O nó borromeanoverbo: atar
As sete regiões do nó têm nome, e nenhum deles é decorativo. Toque numa delas.

Por que cada campo está onde está

A posição de cada campo não é arbitrária: ela se deduz por exclusão. Cada zona reúne dois registros e fica fora do terceiro — e é o registro ausente que explica a sua propriedade. É a disposição que Lacan apresenta em “A Terceira” (Roma, 1974) e no Seminário 22 (17 dez. 1974).

sentidoSimbólico + Imaginário · fora do Real

O sentido nasce quando uma palavra encontra uma imagem: é o campo do “entendi”. E ele não toca o real — por isso compreender não basta para mudar nada. A interpretação analítica não visa dar mais sentido; visa o equívoco, que mexe no significante.

gozo fálico · JΦReal + Simbólico · fora do Imaginário

O gozo que passa pela linguagem: permitido e limitado por ela. Fora do imaginário, ele não faz imagem de par, de complemento: é o gozo de cada um, que Lacan chama “fora do corpo” e, em Encore, gozo “do idiota” — não por tolice, mas porque não é relacional.

gozo do Outro · JȺReal + Imaginário · fora do Simbólico

O gozo que seria do corpo do Outro. Fora do simbólico, não passa pela palavra: não se diz. Lacan o escreve com o A barrado porque o Outro, como parceiro completo, não existe — este é um lugar que o nó desenha justamente como fora do dizer.

objeto aReal + Simbólico + Imaginário

No centro, onde os três se apertam. O a não é um quarto registro: é o que se produz nesse aperto — causa do desejo, mais-de-gozar, sempre perdido. Ele só existe porque os três estão atados.

ONDE SE ERRA (a) O nó não é uma metáfora de interdependência ou de “equilíbrio”. É a escrita de uma consistência que não se reduz a relações entre dois.
(b) Os três anéis são iguais: nenhum é mais fundamental, nenhum é o “verdadeiro”.
(c) Um desenho de três círculos em que dois deles se enlaçam está errado: em corrente, cortar um não solta os outros. No nó borromeano, cada par está apenas sobreposto — um passa por cima do outro nos dois cruzamentos.
(d) As cores são convenção deste site, não propriedade dos registros.
(e) O nó não é do último ano de Lacan: entra em 9 de fevereiro de 1972 (Seminário 19) e é retomado em Encore (15 maio 1973), antes de ocupar os seminários seguintes.

O quarto elo

Até aqui, três anéis — e o nó se sustenta a três. Em 1975, Lacan dá um passo além. Ele lê Freud como se, nele, Real, Simbólico e Imaginário estivessem soltos: apenas sobrepostos, “à deriva”. Para atá-los, Freud precisou de um quarto anel. Esse quarto é o que Freud chamou de “realidade psíquica” — o complexo de Édipo — e o que Lacan chama Nome-do-Pai (S22, 14 jan. 1975; 11 fev. 1975).

No esquema abaixo, os três registros estão só empilhados, sem nó entre eles; é o quarto que faz dos quatro um nó. Percorra as três situações na ordem.

NÓ1 · O Nome-do-Pai amarraverbo: amarrar

Toque num anel para cortá-lo.

Repare: nenhum par de anéis está preso. Real, Simbólico e Imaginário estão apenas sobrepostos — é o quarto que faz dos quatro um nó.

O passo 3 é o que muda tudo. Se o Nome-do-Pai é um quarto anel, ele não é o único possível: outra invenção pode fazer o mesmo trabalho. Lacan chama esse quarto de sinthoma — grafia antiga de “sintoma” — e o constrói sobre Joyce, em quem reconhece uma “Verwerfung de fato”, uma demissão do pai (S23, 10 fev. 1976). O que segura o nó de Joyce é a sua escrita, o seu querer “fazer-se um nome”: um ego que corrige o ponto em que o nó falhava (17 fev. e 11 maio 1976).

Daí a frase em que tudo isso se condensa: do Nome-do-Pai, pode-se prescindir, com a condição de servir-se dele (S23, 13 abr. 1976). Não é mais o pai como garantia, mas o pai como uma solução entre outras — e cada sujeito, à sua maneira, precisa de alguma.

Onde isto está no corpus
S19 9 fev. 1972 — o nó entra · S20 15 maio 1973 — retomado · S22 dez. 1974 — os campos e inibição, sintoma, angústia · S22 jan.–fev. 1975 — o quarto anel · S23 1975–76 — o sinthoma

Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.

Retrato de Lacan pensando, com a mão no queixo, metade do rosto em dígitos binários
Os seminários

O corpus

Os seminários, lição por lição — com as datas reais, as sessões que faltam e os expositores que não eram Lacan.

Cada ficha apresenta o argumento do ano, o que se encontra ali e, lição por lição, os assuntos de cada sessão: para quem já leu, reconhecer onde está cada coisa; para quem ainda não leu, saber por onde entrar. Os seminários entram aqui aos poucos — os demais estão em estudo.

MÉTODO E ADVERTÊNCIAS

O corpus, suas lacunas e como citá-lo

Três coisas precisam estar claras antes de qualquer leitura: o que são estas transcrições, onde elas têm buracos, e por que a data importa mais que o capítulo.

1. O que é este corpus e o que ele não é

A base de trabalho são as transcrições de trabalho dos seminários, montadas a partir de estenotipias e de gravações. São documentos preciosos, e são a coisa mais próxima do que foi efetivamente dito na sala. Mas três coisas mudam a maneira de citá-las:

Primeiro: transcrição não é edição. Para vários destes seminários existe uma versão estabelecida por Jacques-Alain Miller e publicada pelo Seuil, que reorganiza o material, corta repetições, resolve frases inacabadas e — decisivamente — divide o texto em capítulos com títulos que não são de Lacan. Quem cita “o capítulo ‘A esquize do olho e do olhar’” cita uma decisão editorial de 1973, não uma lição de 1964. As transcrições de trabalho preservam a divisão real: uma sessão semanal, uma data. Por isso a data é aqui a unidade: é a única que corresponde a um fato.

Segundo: há lacunas, e elas estão marcadas. No Seminário 1 lê-se, na abertura de 18 de novembro de 1953: “Pas de sténotypie disponible pour les séances de Novembre et Décembre 1953” — a primeira lição que temos é uma reconstituição, e há um buraco de quase dois meses até 13 de janeiro de 1954. No Seminário 2, as sessões de 24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 trazem a marca STÉNOTYPIE MANQUANTE. As fichas registram essas lacunas.

Terceiro: nem toda lição é de Lacan. Nos primeiros anos, o seminário funcionava como um seminário de verdade, com exposições de alunos seguidas de discussão. Nas lições de 1954 expõem Mannoni, Anzieu, Hyppolite, Marie-Cécile Gélinier, Rosine Lefort, Leclaire, Perrier, Granoff, Beirnaert; no Seminário 2, quatro sessões seguidas são de Valabrega (2, 9 e 16 de fevereiro e 2 de março de 1955); no Seminário 7, expõem Lefèvre-Pontalis, Kaufmann e Hubert; no Seminário 20, Récanati ocupa a sessão de 12 de dezembro de 1972. Atribuir a Lacan o que foi dito por Anzieu é um erro comum, e evitável.

2. A regra de ouro da datação

Um conceito lacaniano quase nunca significa em 1972 o que significava em 1955. O erro mais frequente das leituras introdutórias é tratar o vocabulário como fixo. Quatro exemplos que é preciso manter separados:

termo 1953–1957 1960–1964 1968–1975
a o outro imaginário, o semelhante (esquema L) objeto causa do desejo, resto da separação mais-de-gozar, produto do discurso
o Outro lugar da fala verdadeira, garantia barrado, inconsistente: S(Ⱥ) não existe como parceiro; “não há Outro do Outro”
gozo quase ausente do vocabulário o que está além do princípio do prazer, ligado a das Ding conceito central, plural: fálico, do Outro, mais-de-gozar
o pai função simbólica que ordena pai da horda, exceção lógica um nome entre outros; um sintoma; substituível pelo sinthoma

Por isso as referências deste site trazem sempre a data em que o conceito aparece na forma discutida.

3. As datas que reorganizam a leitura

Lidos em conjunto, os seminários permitem datar com precisão de semana os momentos em que o ensino muda de terreno. Cada uma destas datas corrige uma ideia corrente:

formalização onde ela realmente está o que isso corrige
Mais-de-gozar Nasce em 13 de novembro de 1968, na abertura do Seminário 16. Não vem de O avesso da psicanálise: vem do ano anterior, e é o que torna os discursos possíveis.
“Não há relação sexual” Primeira formulação: 12 de março de 1969 (S16). Volta em …ou pior, em Encore e nos seminários seguintes. Antecede Encore em quatro anos.
Nó borromeano Entra em 9 de fevereiro de 1972 (S19), com o brasão dos Borromeu. É retomado em Encore (8 e 15 de maio de 1973) e passa a ocupar os seminários seguintes. A virada dos nós tem data. Ela não atravessa a obra: ocupa os últimos anos.
Garrafa de Klein Seminário 12, de dezembro de 1964 a fevereiro de 1965. Não é um objeto do último Lacan: é de 1964–65.
Cross-cap Seminário 9 (março a junho de 1962) e Seminário 13 (1966). Idem: pertence ao meio da obra.
Consistência / ex-sistência / furo Seminário 22, R.S.I. (1974–75). O trio é a construção específica desse ano, e não um vocabulário geral.
Parlêtre Nos seminários, a partir de 17 de dezembro de 1974 (S22). O termo é tardio.
Nominação As três nominações estão quase todas na última lição do Seminário 22, 13 de maio de 1975. Não estão espalhadas: estão numa aula só.
Sinthoma A grafia aparece na abertura do Seminário 23, 18 de novembro de 1975. O conceito é do S23. O quarto elo, porém, já existe no S22 sob o nome de sintoma.
Joyce Citado de passagem desde 1955; ganha lugar em 12 de maio de 1971 (S18) e se torna o objeto do Seminário 23 (1975–76). A entrada é gradual.
Une-bévue Seminário 24 (1976–77). É um conceito de um ano só.
Trança Seminário 21, e uma lição inteira do Seminário 24: 18 de janeiro de 1977. É a escrita do nó no tempo.
Soury e Thomé A partir de março de 1975 (S22), e sobretudo no Seminário 25. O último seminário é, em boa parte, trabalho matemático a três.

4. Como ler o que se segue

Cada ficha traz: o argumento do ano; o que se encontra ali, com as datas em que cada assunto está; e as lições, uma a uma — o movimento de cada sessão, os assuntos tratados e os autores citados.

As notas por lição indicam o que domina a sessão, não o seu conteúdo integral: uma lição de Lacan raramente trata de uma coisa só, e muitas vezes abre um assunto que só se fecha semanas depois. Quando a sessão é de um expositor convidado, isso está marcado.

OS SEMINÁRIOS

Seminário por seminário, lição por lição

Uma ficha por seminário. Dentro de cada uma: o argumento do ano, o que se encontra ali, e as lições uma a uma.

S1Les écrits techniques de FreudOs escritos técnicos de Freud 1953–1954 · 23 lições

Ficha. Primeira lição em 18 de novembro de 1953, no Hospital Sainte-Anne, cerca de dois meses depois do Discurso de Roma. Uma lacuna importante: não há estenotipia para novembro e dezembro de 1953 — as transcrições saltam de 18 de novembro para 13 de janeiro de 1954. Seminário fortemente coral: expõem Mannoni (20 jan.), Anzieu (20 e 27 jan.), Jean Hyppolite (10 fev.), Marie-Cécile Gélinier (17 fev.), Rosine Lefort (10 mar.), Leclaire (17, 24 e 31 mar.), Perrier (7 abr.), Granoff (26 maio e 16 jun.), Beirnaert (23 jun.).

A pergunta. Por que a técnica psicanalítica degenerou? Para Lacan, os analistas depois de Freud abandonaram a escuta da fala em favor de uma psicologia das relações entre pessoas, e só um retorno aos textos pode devolver à prática o seu fundamento. O seminário é, literalmente, um curso de leitura.

O argumento

O primeiro seminário público de Lacan é, antes de tudo, um curso de (re)leitura. Ele começa em novembro de 1953, cerca de dois meses depois do Discurso de Roma, e toma por objeto os artigos que Freud escreveu sobre a maneira de conduzir uma análise — os chamados escritos técnicos. A aposta do ano é que a técnica dos analistas da época se perdeu porque trocou a escuta da fala por uma psicologia do eu, e que só a volta aos textos de Freud pode devolver à prática o seu fundamento.

O ano tem três tempos. No primeiro, depois de um trimestre do qual não restou estenotipia, o seminário muda de regime em 13 de janeiro de 1954: "fini de rire!" — acabou a brincadeira —, diz Lacan, e os participantes passam a expor. O tema é a resistência, que deixa de ser vista como uma má vontade do paciente e passa a ser lida no próprio discurso. Em 10 de fevereiro, Jean Hyppolite comenta o pequeno texto de Freud sobre a negação, Die Verneinung — uma sessão que terá consequências para todo o ensino posterior.

O segundo tempo é o do imaginário. Passa pelo caso de Dick, um menino tratado por Melanie Klein; pela construção do esquema óptico do buquê invertido; pelo caso Robert, apresentado por Rosine Lefort; e por uma leitura minuciosa do texto de Freud sobre o narcisismo, conduzida por Serge Leclaire. É aqui que se separam o eu ideal, imagem com que o sujeito se identifica, e o ideal do eu, que vem da palavra e da lei.

O terceiro tempo discute a teoria de Michael Balint, para quem a análise seria uma relação a dois a ser corrigida, e termina com o diálogo De Magistro, de Santo Agostinho, apresentado pelo padre Louis Beirnaert: o que se pode ensinar por meio de palavras? Na última sessão, Lacan dá ao analista a posição de uma douta ignorância.

O que se encontra aqui

A resistência no discurso
Não como oposição do paciente, mas como a inflexão que a fala sofre ao se aproximar do que não pode ser dito. De 20 de janeiro a 3 de fevereiro de 1954.
A Verneinung
O comentário de Jean Hyppolite em 10 de fevereiro de 1954 — publicado depois como apêndice dos Escritos. A negação que, ao negar, revela.
Fala vazia e fala plena
A distinção que atravessa o ano; ver 17 de março e 16 de junho de 1954.
O esquema óptico
O buquê invertido, montado diante do auditório em 24 de fevereiro de 1954 e retomado em 31 de março, 7 de abril, 5 e 12 de maio.
Eu ideal e ideal do eu
Idealich e Ichideal separados em 31 de março de 1954: um é imagem, o outro é marca simbólica.
O caso Dick
Melanie Klein lida em detalhe, em grande parte em inglês, em 17 de fevereiro de 1954.
O caso Robert, "o lobo!"
Apresentado por Rosine Lefort em 10 de março de 1954.
O Fort-Da
O jogo do carretel do neto de Freud, retomado em 5 de maio de 1954: a palavra presentifica a ausência.
Dora
Revisitada em 12 de maio de 1954: o que teria acontecido se Freud tivesse nomeado o desejo dela?
As três paixões e a douta ignorância
Amor, ódio e ignorância, e a posição do analista, na última sessão, 7 de julho de 1954.
Onde falta o texto
Novembro e dezembro de 1953 não têm estenotipia: a primeira sessão do corpus é uma reconstituição a partir de notas.

Lição por lição 23 sessões

  1. 118 nov. 1953
    Por que estudar os textos

    Abertura do ensino. Não há estenotipia: o que temos é um resumo feito a partir de notas, curto e telegráfico. Lacan diz como pretende ensinar.

    • Um ensino que não entrega respostas prontas: como o mestre zen, ele só responde quando o aluno está prestes a encontrar a resposta
    • Contra o costume de reduzir Freud a palavras gastas, como "inconsciente" e "supereu"
    • Com a interpretação dos sonhos, Freud reintroduz o sentido numa ciência que só queria saber de forças físicas
    • A imagem do bom cozinheiro, tirada do Fedro de Platão: cortar o animal pelas articulações, e não pelo osso
    • Lavoisier, que trouxe ao mesmo tempo um conceito errado (o flogisto) e um certo (o oxigênio)
    • A contratransferência como reconhecimento de que, numa análise, se é dois — por estrutura

    Platão (Fedro), Lavoisier, Brücke, Helmholtz, Jung, Jones

  2. 213 jan. 1954
    "Fini de rire!": o seminário muda de regime

    Lacan reabre o ano anunciando que deixará de falar sozinho: cada participante assumirá uma parte do trabalho. E apresenta o conjunto de textos que vão ler.

    • O que são os "escritos técnicos" de Freud, e por que esse rótulo não lhes dá unidade
    • Um texto tardio que fala de técnica melhor que muitos outros: Análise terminável e interminável (1937)
    • A análise como reconstituição da história do sujeito — mais reescrever essa história do que lembrar um passado factual
    • Construções em análise (1937) como apoio dessa leitura
    • Já aqui: o analista faz intervir o próprio eu na análise, sem perceber

    Freud, Anna Freud

  3. 320 jan. 1954
    A resistência, primeiras abordagens

    Primeira sessão a várias vozes. Octave Mannoni apresenta a noção de resistência nos textos de Freud; Didier Anzieu começa pelos Estudos sobre a histeria.

    • A resistência começa confundida com o recalque, e só aos poucos ganha lugar próprio
    • Como Freud chegou a ela: Charcot, Breuer, a hipnose — e a descoberta de que se obtinham os mesmos resultados sem hipnose
    • A técnica da "pressão": insistir, dar garantias, pôr a mão na testa do paciente
    • O material psíquico organizado em camadas em torno de um núcleo patogênico, como pastas num arquivo
    • A pergunta que fica: a resistência é do paciente, como pessoa, ou é outra coisa?

    Octave Mannoni, Didier Anzieu, Charcot, Breuer, Ampère

  4. 427 jan. 1954
    O núcleo patogênico e as metáforas da máquina

    Anzieu termina sua exposição e a discussão se abre: com que imagens — físicas, mecânicas — Freud pensa a resistência? E o que isso diz da própria análise?

    • As três maneiras de arranjar o material em torno do núcleo: em linha, em círculos concêntricos e em ziguezague
    • As forças de atração e repulsão, o demônio de Maxwell, a figura de Ampère
    • A cocaína: Freud viu nela um analgésico e deixou passar o seu uso como anestésico
    • Freud que, na juventude, se identificava a Masséna e a Aníbal — e a acusação de autoritarismo, que Lacan e Hyppolite discutem
    • A conclusão de Lacan: a resistência é a inflexão que o discurso sofre à medida que se aproxima do núcleo

    Didier Anzieu, Jean Hyppolite, Octave Mannoni, Hartmann, Charcot

  5. 53 fev. 1954
    Onde nasce a transferência

    Lacan lê, frase a frase e em alemão, A dinâmica da transferência (1912): a transferência aparece no ponto exato em que a fala emperra.

    • Quando o discurso se aproxima do essencial, o paciente se interrompe e se volta para a presença do analista
    • A comparação de Freud com uma batalha em torno de uma pequena igreja: o valor do lugar disputado pode ser só tático
    • O que o sujeito não chegou a formular "é como se não existisse" — e, no entanto, está em algum lugar
    • Uma passagem da Interpretação dos sonhos lida no mesmo sentido

    Freud (A dinâmica da transferência, A interpretação dos sonhos)

  6. 610 fev. 1954
    Hyppolite comenta A negação

    O filósofo Jean Hyppolite lê o curto texto de Freud sobre a negação — quando o paciente diz "não é a minha mãe", e, dizendo, revela. Lacan o publicará como apêndice dos Escritos.

    • Lacan abre: o sentido das palavras não vem do eu; a criança não aprende a língua palavra por palavra
    • Denegação, e não simples negação: a negação como maneira de deixar vir à tona o recalcado sem aceitá-lo
    • A Aufhebung alemã — suprimir e, ao mesmo tempo, conservar
    • A afirmação primordial (Bejahung) e a expulsão: a origem do juízo nas pulsões
    • O epigrama de São Cristóvão, que carregava Cristo, que carregava o mundo
    • O exemplo de Ernst Kris: o paciente que se acreditava plagiário

    Jean Hyppolite, Freud (Die Verneinung, 1925), Bernheim, Merleau-Ponty, Ernst Kris

  7. 717 fev. 1954
    O caso Dick

    Marie-Cécile Gélinier apresenta um artigo de Melanie Klein: Dick, um menino de quatro anos que quase não fala, não brinca e parece não sentir angústia. Boa parte da sessão é lida em inglês.

    • Antes, um caso de Anna Freud: a paciente que se defendia dos afetos pela ironia
    • Dick: indiferente às pessoas e aos objetos, interessado apenas em trens, portas e maçanetas
    • O modo como Melanie Klein lhe fala, nomeando de saída o que ela supõe que ele fantasia: "o trem é o Dick, a estação é a mamãe"
    • E o efeito disso: o menino começa a se interessar pelas coisas e pelas palavras
    • As dúvidas de Gélinier sobre a coerência do texto, que Lacan retomará na sessão seguinte

    Marie-Cécile Gélinier, Melanie Klein (A importância da formação do símbolo, 1930), Anna Freud

  8. 824 fev. 1954
    O imaginário: o buquê invertido

    Lacan responde às dúvidas da semana anterior desenhando, diante do auditório, uma experiência de física: o buquê de flores que aparece dentro de um vaso por efeito de um espelho côncavo.

    • Interpretar e "achar que se compreende" são coisas opostas
    • A imagem do aparelho psíquico como aparelho óptico, já em Freud
    • Imagens reais e imagens virtuais: o que o espelho côncavo faz com um buquê escondido
    • A criança que antecipa no espelho a unidade de um corpo que ela ainda não domina
    • Releitura de Dick: o símbolo estava lá, mas a palavra não chegava a fazer apelo

    Henri Bouasse, Melanie Klein, Freud (A interpretação dos sonhos)

  9. 910 mar. 1954
    O caso Robert: "o lobo!"

    Rosine Lefort apresenta o tratamento de Robert, um menino gravemente negligenciado nos primeiros meses de vida, que gritava "o lobo!". Lacan e os presentes discutem o caso.

    • Uma história de fome, internações e trocas de instituição
    • O grito "o lobo!" e a criança que bate na própria imagem refletida no vidro
    • O pote, o leite, a água: as cenas em que ele joga com o que entra e o que sai do corpo
    • As transformações ao longo do tratamento — e a gravidez da analista, que o menino atravessa
    • A discussão: é psicose? Lacan sugere que o caso mostra a palavra reduzida ao seu ponto mínimo

    Rosine Lefort, Dr. Lang, Schreber (citação de Freud)

  10. 1017 mar. 1954
    Por que ler o texto sobre o narcisismo

    Sessão de estenotipia incompleta. Lacan explica por que, depois da resistência e da transferência, é preciso passar pelo narcisismo — e Serge Leclaire começa a apresentar o texto de Freud.

    • Visar a fala plena por um caminho que parece o contrário: a regra de dizer tudo, sem escolher
    • As teorias da transferência como projeção imaginária, e o impasse a que levam
    • A discordância dos analistas sobre o que, afinal, cura — com Fenichel como guia
    • O retraimento da libido na psicose, e a diferença entre Freud e Jung

    Serge Leclaire, Fenichel, Strachey, Jung, Janet

  11. 1124 mar. 1954
    Introdução ao narcisismo, linha a linha

    A sessão mais longa do ano. Leclaire lê o texto de Freud, em boa parte no original alemão; Lacan e Mannoni intervêm.

    • O problema de partida: como explicar a psicose com a teoria da libido? A resposta de Jung e a de Freud
    • A libido do eu e a libido dos objetos, e o que acontece quando ela se retira do mundo
    • O indivíduo e a espécie: a referência a Weismann
    • A hipocondria, a vida amorosa, a escolha de objeto
    • "Sua Majestade, o bebê": o que os pais projetam na criança

    Serge Leclaire, Octave Mannoni, Jung, Weismann, Abraham

  12. 1231 mar. 1954
    Eu ideal e ideal do eu

    Mannoni abre com Valéry; Leclaire termina a leitura de Freud; e Lacan volta ao espelho para estabelecer a distinção que dá nome à sessão.

    • Os Fragmentos do Narciso, de Paul Valéry, lidos por Mannoni como pequena teoria do narcisismo
    • A dor de dente de Wilhelm Busch e os versos de Heine: quando a libido se volta para o eu
    • O peixe que dança em ziguezague diante da imagem da fêmea: a imagem que desencadeia o comportamento
    • Eu ideal (Idealich), a imagem; ideal do eu (Ichideal), a posição simbólica de onde o sujeito se vê
    • O amor à primeira vista: Werther, ao ver Lotte cuidando de uma criança

    Octave Mannoni, Serge Leclaire, Jean Hyppolite, Paul Valéry, Wilhelm Busch, Heine, Goethe

  13. 137 abr. 1954
    O analista no lugar da imagem virtual

    François Perrier expõe sobre a regressão no sonho; Jean Hyppolite põe à prova o esquema óptico. Uma boa parte da sessão é leitura do alemão de Freud.

    • As colunas do Panteão, que não se contam na imagem mental (Alain)
    • A objeção de Hyppolite sobre o olho que olha no espelho, que Lacan aceita e desenvolve
    • O ser humano nasce prematuro, e por isso depende da imagem do outro
    • "Meu pai", "meu filho": o que as palavras fazem existir entre duas pessoas
    • O sonho, a alucinação e a prova de realidade, no Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos

    François Perrier, Jean Hyppolite, Alain, Freud

  14. 145 maio 1954
    O espelho e o carretel

    Início do terceiro trimestre. Lacan conta que pretendia começar Schreber e o adia; volta ao estádio do espelho e ao jogo do carretel do neto de Freud, o Fort-Da.

    • Por que Schreber fica para depois: o livro é raro, e Lacan mandou microfilmá-lo
    • O eu se forma numa imagem: o "transitivismo" da criança que diz "ele me bateu" quando foi ela quem bateu
    • Baltasar Gracián, que Lacan põe acima de Nietzsche e de La Rochefoucauld
    • O Fort-Da: ao jogar o carretel e trazê-lo de volta, a criança passa a dominar a ausência pela palavra
    • Com o símbolo, a ausência se torna presente, e a presença carrega a ausência

    Schreber (adiado), Gesell, Gracián, Freud (Além do princípio do prazer)

  15. 1512 maio 1954
    O desejo do outro, os elefantes e Dora

    Uma pergunta de Robert Pujol abre a sessão: "o desejo do outro" é o desejo que está no outro, ou o meu desejo por ele? Lacan responde e volta ao caso Dora.

    • A palavra "elefante" faz entrar os elefantes no mundo humano antes de qualquer caçador
    • A rivalidade imaginária: Darwin, a luta pela vida — e o comentário de Hyppolite e Mannoni
    • O enamoramento (Verliebtheit) como efeito da imagem
    • Dora: se Freud lhe tivesse dito que amava a Sra. K, ela teria se apaixonado de fato — e isso seria só o primeiro passo

    Robert Pujol, Jean Hyppolite, Octave Mannoni, Darwin, Dora

  16. 1619 maio 1954
    A marca do trauma e o lugar da lei

    Lacan comenta a "interpretação mutativa" de Strachey e volta ao Homem dos Lobos para pensar como um acontecimento só ganha sentido depois.

    • A interpretação "mutativa" de James Strachey, apresentada e criticada
    • O Homem dos Lobos: a cena vista aos um ano e meio, que só faz efeito anos mais tarde, retroativamente
    • A Prägung: a marca, como a cunhagem de uma moeda
    • Existe recalque bem-sucedido? A pergunta de Mannoni e a resposta de Hyppolite, com Heidegger
    • "Onde estava o isso, o eu deve advir": como entender a frase
    • O supereu e a lei: um paciente que desconhecia a lei corânica da cultura de sua família

    James Strachey, o Homem dos Lobos, Konrad Lorenz, Octave Mannoni, Jean Hyppolite, Heidegger, Anna Freud

  17. 1726 maio 1954
    Granoff apresenta Balint

    Wladimir Granoff expõe o livro de Michael Balint, Primary Love and Psycho-Analytic Technique. O princípio de leitura é: entender a técnica de um analista pela teoria que ele formula.

    • A ideia de uma psicologia "a dois corpos" (two bodies' psychology), e o que Lacan objeta a ela
    • O "amor primário" do bebê pela mãe, e o "amor genital" como suposto ponto de chegada da análise
    • Alice Balint e o autoerotismo
    • O "recalque bem-sucedido" e a pergunta: é lícito querer mudar o caráter de alguém?
    • O artigo de Balint sobre a "transferência das emoções" (1933)

    Wladimir Granoff, Michael Balint, Alice Balint

  18. 182 jun. 1954
    A relação de objeto e o olhar

    Continuação de Balint. Lacan mostra o impasse de pensar a relação humana como dois objetos que se satisfazem um ao outro — e recorre à descrição do olhar e da vergonha.

    • Se o objeto satisfaz plenamente a necessidade, o desejo nem chega a aparecer
    • O amor como satisfação recíproca de duas pessoas que se completam — o "extremo heroico" de Alice Balint
    • O olhar do outro e a vergonha, na descrição de Sartre
    • A perversão como exploração de uma possibilidade humana, e a palavra dada como pacto
    • De novo os elefantes: o símbolo deixa entrar o que a porta não deixaria

    Michael e Alice Balint, Sartre, Melanie Klein

  19. 199 jun. 1954
    O impasse da relação a dois

    Lacan leva adiante a crítica: fazer da relação imaginária o centro da análise conduz a um beco sem saída, e a perversão mostra por quê.

    • A perversão: ver e ser visto, fazer do outro uma coisa ou fazer-se coisa
    • A dialética do senhor e do escravo, contra a ideia de uma psicologia a dois
    • A teoria dos jogos: o que estrutura a situação é o que não está lá
    • Palavras que valem por uma frase inteira, e a origem da linguagem
    • A palavra pode mentir — e é por poder introduzir o que não é que ela introduz o que é
    • Angelus Silesius e o Peregrino querubínico

    Michael Balint, Hegel, Sartre, Proust, Angelus Silesius

  20. 2016 jun. 1954
    Granoff sobre as emoções; os companheiros de Ulisses

    Granoff traz dois artigos americanos sobre as emoções e o sonho. Lacan os retoma para separar o grunhido da palavra.

    • Isham e Bennitt: as emoções entendidas como respostas a estímulos
    • O símbolo segundo Jones, e um verso de Valéry
    • Os companheiros de Ulisses transformados em porcos: o que nos chega deles não é o grunhido, é a queixa
    • A transferência segundo Nunberg — e um caso em que a análise repetia uma cena de confidências da infância
    • A fala vazia, que o Discurso de Roma havia nomeado

    Wladimir Granoff, Isham, Bennitt, Jones, Nunberg, Valéry, Homero

  21. 2123 jun. 1954
    Beirnaert apresenta o De Magistro de Santo Agostinho

    O padre Louis Beirnaert lê o diálogo de Agostinho com seu filho Adeodato: pode-se ensinar alguma coisa por meio de sinais? A pergunta é também a do analista.

    • Sinal, palavra, nome: por que não são a mesma coisa
    • "Não creio que queiramos ensinar alguma coisa quando ninguém está ali para aprender"
    • Mannoni lembra um jogo de mímica: e os gestos? Também são linguagem
    • A conclusão de Agostinho: as palavras não transmitem o saber — quem ensina é o "mestre interior"

    Louis Beirnaert, Santo Agostinho (De Magistro), Adeodato, Octave Mannoni

  22. 2230 jun. 1954
    Verdade, erro e o sonho

    Continuação de Agostinho, agora pelo lado do engano. Depois, a passagem para a Interpretação dos sonhos.

    • O erro só se define em relação à verdade — e é na contradição do discurso que eles se separam
    • No lapso e no ato falho, a verdade alcança o erro "por trás"
    • O desejo recalcado como o que espera para se revelar
    • A condensação, demonstrada no sonho da monografia botânica de Freud

    Santo Agostinho, Freud (A interpretação dos sonhos)

  23. 237 jul. 1954
    As três paixões e a douta ignorância

    Última sessão, conduzida por perguntas dos presentes. Lacan fala do amor, do ódio e da ignorância, e da posição que convém ao analista.

    • A pergunta de Mme Aubry sobre o amor, o ódio e as junções entre imaginário, simbólico e real
    • As três paixões do ser: o amor, o ódio e a ignorância
    • Enamoramento (Verliebtheit) não é amor: sem a dimensão da palavra, há fascinação, mas não amor
    • O analista deve ocupar a posição de uma douta ignorância — "não sábia, mas formal", e por isso, para o sujeito, formadora
    • O "ilusório": é bem real que o paciente esteja ali, falando das suas brigas com o dono da mercearia
    • Dora e o Homem dos Ratos, uma última vez

    Mme Aubry, Octave Mannoni, Serge Leclaire, Dora (e, em nota do transcritor, Nicolau de Cusa, autor da docta ignorantia)

Armadilhas. (a) "Fala plena" não significa fala sincera ou autêntica no sentido moral — significa fala que empenha o sujeito e reordena sua história. (b) O modelo óptico não é uma metáfora do psiquismo: é um dispositivo cuja geometria se pode calcular, e o ponto é justamente que a imagem só se forma de certas posições. (c) A crítica da psicologia do ego é polêmica de escola, e é preciso saber contra quem Lacan escreve para não ler suas afirmações como teses gerais.

Antes / depois. Antes: o Discurso de Roma (1953). Depois: o Seminário 2, que é sua continuação direta, e "Variantes do tratamento-padrão" (1955).

S2Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyseO eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise 1954–1955 · 25 lições

Ficha. Três lacunas nas transcrições: 24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 (STÉNOTYPIE MANQUANTE). A de 26 de abril é justamente a lição sobre A carta roubada, que se conhece pelo texto que Lacan publicou em 1956. Quatro sessões seguidas trazem exposições de Valabrega (2, 9 e 16 de fevereiro e 2 de março de 1955); Anzieu expõe em 26 de janeiro. A lição de 22 de junho de 1955 é uma conferência: “Psicanálise e cibernética, ou da natureza da linguagem”.

A pergunta. O que é o eu, se ele não é o sujeito? O seminário demole a identificação entre eu e sujeito e instala, no lugar, a ordem simbólica como aquilo que determina o sujeito à sua revelia.

O argumento

Se o primeiro seminário perguntava o que é a fala, o segundo pergunta quem fala. E a resposta desmonta uma das evidências mais resistentes da psicologia: o eu não é o sujeito. A descoberta de Freud, diz Lacan na primeira lição, tem o mesmo sentido de descentramento que a de Copérnico — e o poeta já o dissera: Je est un autre, "eu é um outro" (Rimbaud).

O ano percorre três caminhos que parecem não ter relação entre si. O primeiro é a máquina: em que somos parentes de uma máquina? Uma câmera que filma uma montanha e seu reflexo num lago registra tudo — e não há nela sombra de um eu. O segundo é Freud lido linha a linha: o Projeto de 1895, o capítulo VII da Interpretação dos sonhos e o sonho da injeção de Irma, examinado em duas lições. O terceiro é a ordem simbólica como coisa autônoma: as estruturas de parentesco de Lévi-Strauss, o jogo de par ou ímpar, e a ideia de que o acaso, uma vez escrito em símbolos, passa a ter leis.

Esses caminhos se encontram em duas peças que ficaram célebres: o esquema L, que mostra como a relação imaginária entre o eu e o outro atravessa e interrompe a fala que vai do sujeito ao Outro; e o seminário sobre "A carta roubada", de Edgar Allan Poe, em que é a carta que define a posição de quem a possui.

O ano termina com uma conferência sobre psicanálise e cibernética e com uma pergunta feita a sério — por que os planetas não falam? A resposta conduz à leitura da pulsão de morte como insistência de uma ordem simbólica.

O que se encontra aqui

O eu não é o sujeito
A tese do ano, enunciada na abertura, 17 de novembro de 1954.
Lévi-Strauss
As Estruturas elementares do parentesco e o fim da oposição natureza/cultura, em 1º de dezembro de 1954.
A câmera e o lago
Não há eu numa máquina que registra: 8 de dezembro de 1954.
Hegel e Freud
Com Jean Hyppolite, em 12 de janeiro de 1955: o saber absoluto e o que Freud traz de novo.
O Projeto de 1895
Exposto por Anzieu em 26 de janeiro e continuado por Valabrega em 2 e 9 de fevereiro de 1955.
O sonho de Irma
Lido em 9 e 16 de março de 1955: a garganta, a fórmula da trimetilamina, o eu que se decompõe.
Par ou ímpar
O jogo proposto ao auditório em 30 de março de 1955, com o matemático Jacques Riguet.
A carta roubada
26 de abril de 1955 — lição sem estenotipia, conhecida pelo texto publicado em 1956; é lá que estão as cadeias α β γ δ.
Édipo em Colono
A fala de Édipo no fim da vida, em 11 e 18 de maio de 1955.
Por que os planetas não falam
Pergunta lançada em 18 de maio e respondida em 25 de maio de 1955.
O esquema L
Construído a partir do "muro da linguagem", em 1º de junho de 1955.
O "Nome do Pai"
Uma das primeiras aparições da expressão, a propósito do Homem dos Lobos, em 8 de junho de 1955.
Onde falta o texto
24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 não têm estenotipia.

Lição por lição 25 sessões

  1. 117 nov. 1954
    O eu não é o sujeito

    Abertura do ano. Lacan apresenta a tese que vai desdobrar até junho: a descoberta de Freud descentra o sujeito em relação ao eu.

    • O descentramento freudiano comparado ao de Copérnico
    • "Eu é um outro": os poetas dizem a verdade sem saber o que dizem
    • La Rochefoucauld e o amor-próprio — e o que há de realmente novo em Freud
    • Os diálogos de Platão, Protágoras e Mênon: o que é a virtude, e se ela se ensina
    • A crítica do "ego autônomo" dos psicanalistas americanos

    Rimbaud, La Rochefoucauld, Platão (Protágoras, Mênon), Copérnico

  2. 224 nov. 1954
    Sem estenotipia

    As transcrições trazem apenas a indicação STÉNOTYPIE MANQUANTE. Para esta lição, só existe a versão estabelecida por Jacques-Alain Miller e publicada em 1978.

    • Lacuna registrada nas próprias transcrições
  3. 31 dez. 1954
    Lévi-Strauss e a ordem simbólica

    Lacan comenta a reunião da véspera e faz uma leitura de As estruturas elementares do parentesco: a ordem simbólica forma um universo do qual não se pode sair.

    • O Édipo e o tabu do incesto pensados a partir das trocas
    • Estamos dentro da ordem simbólica, e tão dentro que não podemos sair dela
    • Depois de Lévi-Strauss, a oposição entre natureza e cultura deixa de ser simples
    • O "homem-máquina" dos materialistas do século XVIII
    • O debate com Jean Hyppolite: o que quer dizer "universo simbólico"? E a presença na ausência

    Lévi-Strauss, Jean Hyppolite, Didier Anzieu, Octave Mannoni, Durandin, Perrier

  4. 48 dez. 1954
    A câmera, o lago e a consciência

    Uma das lições mais claras do seminário sobre o que é a consciência. Lacan imagina uma câmera que filma uma montanha e seu reflexo num lago para mostrar que registrar não é ser um eu.

    • Abre com um dístico de Angelus Silesius: o que fazia Deus antes de criar o mundo?
    • As resistências ao ensino estão justamente no eu — a "soma dos preconceitos"
    • O romance familiar: a criança que imagina ter outra família
    • Se ninguém estiver lá, a câmera registra a montanha e o reflexo no lago — e não há nela sombra de um eu
    • Máquinas que se regulam sozinhas, e o que nelas parece desejo

    Angelus Silesius, Descartes

  5. 515 dez. 1954
    O princípio do prazer e o terceiro polo

    Lacan retoma a exposição da véspera, de Serge Leclaire, e avisa contra o risco de substituir uma idolatria do sujeito por outra.

    • A imagem das máquinas que dançam juntas, e a "Grande Voz" do legislador que as ordena
    • O sistema da consciência, curiosamente fora da dinâmica do aparelho psíquico
    • Fechner e o princípio de inércia
    • O princípio de realidade como princípio do prazer adiado — e o que escapa aos dois
    • A compulsão à repetição como insistência

    Serge Leclaire, Fechner, Fliess, Descartes

  6. 612 jan. 1955
    De Hegel a Freud

    Depois da conferência de Jean Hyppolite na véspera, um confronto: o que há de novo em Freud quando posto ao lado de Hegel?

    • A compulsão à repetição (Wiederholungszwang) e as duas tendências que nela se misturam
    • O saber absoluto de Hegel, e por que a consciência nunca chega a ele
    • A pergunta que vem da véspera: a psicanálise é um humanismo?
    • Freud médico: o corpo abordado como máquina, e os seres vivos como sistemas que se regulam

    Hegel (Fenomenologia do espírito), Jean Hyppolite, Lefèvre-Pontalis, Descartes

  7. 719 jan. 1955
    Merleau-Ponty e o além do princípio do prazer

    Lacan comenta a conferência de Merleau-Ponty da véspera e volta ao impasse do Além do princípio do prazer.

    • Contra a ideia de uma vida que progride sempre para formas mais perfeitas
    • A entropia, e o princípio do prazer que só se completaria na dissolução
    • Julius Robert Mayer e a conservação da energia
    • O que a análise descobre não avança por adaptação, mas por saltos
    • A memória das máquinas de calcular

    Merleau-Ponty, Julius Robert Mayer, Jean Hyppolite

  8. 826 jan. 1955
    O Projeto de 1895

    Didier Anzieu apresenta o Projeto de uma psicologia, o manuscrito em que Freud tentou descrever o aparelho psíquico como um sistema de neurônios. Valabrega e Perrier discutem.

    • A relação de objeto e os fenômenos psicossomáticos: a linha de partilha do narcisismo
    • O aparelho de neurônios: quantidades de energia que circulam e se acumulam
    • A dor como irrupção de uma quantidade grande demais
    • O eu aparece pela primeira vez neste manuscrito

    Didier Anzieu, Jean-Paul Valabrega, François Perrier, Freud (Projeto), Breuer

  9. 92 fev. 1955
    Percepção, memória, realidade

    Jean-Paul Valabrega continua o Projeto. Lacan discute como o aparelho distingue uma percepção de uma lembrança.

    • A advertência de Lefèvre-Pontalis: não fazer do "estádio do espelho" uma palavra mágica
    • Melanie Klein, Anna Freud e Jones
    • O que é um estímulo — e por que falar de "informação" é prematuro
    • O sinal de realidade: como o sistema sabe que algo está mesmo lá
    • O mundo do caranguejo não é o do coelho: cada espécie tem o seu

    Jean-Paul Valabrega, Lefèvre-Pontalis, Melanie Klein, Anna Freud, Jones

  10. 109 fev. 1955
    Do Projeto ao sonho

    Lacan enuncia um método de leitura: criticar uma obra pelos princípios que ela mesma dá. Passa-se do esquema de 1895 ao da Interpretação dos sonhos.

    • A entropia, e as tentativas de medir a "energia psíquica"
    • A linguagem não está na máquina — mas também não basta dizer que foi o homem que a pôs ali
    • O sonho de Irma e o caráter alucinatório do desejo
    • A carta a Fliess em que Freud reconhece os limites da própria análise

    Jean-Paul Valabrega, Bernfeld, Feitelberg, Fliess

  11. 1116 fev. 1955
    Censura e esquecimento dos sonhos

    Entrada no capítulo VII da Interpretação dos sonhos, com Valabrega. O ponto de partida: por que esquecemos os sonhos?

    • Todo obstáculo à interpretação vem da resistência
    • A censura é uma intenção: a história de quem descobre que dizer "o rei da Inglaterra é um imbecil" é proibido
    • A censura e o supereu
    • O "lugar psíquico" do sonho, ideia que vem de Fechner
    • Ivan Karamázov e o "tudo é permitido"

    Jean-Paul Valabrega, Fechner, Dostoiévski

  12. 122 mar. 1955
    O aparelho psíquico e a regressão

    Continuação da leitura dos esquemas de Freud, "textos que se leem sempre depressa demais".

    • O objeto que se busca nunca é reencontrado: é sempre um objeto novo
    • A instância que critica e a instância criticada
    • Por que Freud precisou admitir que a excitação pode andar "para trás" no aparelho

    Jean-Paul Valabrega, Fechner

  13. 139 mar. 1955
    O sonho da injeção de Irma

    Lacan faz uma nova leitura do sonho inaugural da psicanálise, o primeiro que Freud interpreta por inteiro.

    • O sonho contado: Irma, a garganta, Otto, o Dr. M., a injeção
    • A visão do fundo da garganta como encontro com algo de horrível
    • As mulheres por trás de Irma, e a leitura de Erikson
    • O inspetor Bräsig, personagem de Fritz Reuter
    • A fórmula da trimetilamina, que aparece em letras grossas: uma palavra que vem de fora, como resposta

    Freud (o sonho de Irma), Fliess, Erik Erikson, Fritz Reuter

  14. 1416 mar. 1955
    O eu decomposto

    Antes, um debate sobre a conferência de Marcel Griaule sobre os Dogon, povo do Sudão francês. Depois, a segunda parte do sonho de Irma.

    • Os Dogon e o que deles se conhece por um informante
    • No sonho, o eu se decompõe nos personagens que nele aparecem
    • O homem se percebe como desejo diante de uma unidade que ele vê fora de si
    • O ponto de angústia, e o "eu" que se apaga na fórmula química

    Marcel Griaule, os Dogon, Erik Erikson

  15. 1523 mar. 1955
    Sem estenotipia

    Segunda lacuna do ano: só a indicação STÉNOTYPIE MANQUANTE e a remissão à edição de 1978.

    • Lacuna registrada nas próprias transcrições
  16. 1630 mar. 1955
    Par ou ímpar

    Lição curta, perto das férias. Lacan faz o auditório jogar par ou ímpar e anotar as sequências, com o matemático Jacques Riguet.

    • Os limites da intersubjetividade a dois: adivinhar o que o outro vai pensar
    • O raciocínio em três tempos do jogador "inteligente"
    • Não há acaso naquilo que fazemos com a intenção de produzir acaso
    • Mannoni objeta; Lacan responde
    • Folhas distribuídas: cada um escreve sua sequência de pares e ímpares

    Jacques Riguet, Octave Mannoni, David, Poe

  17. 1726 abr. 1955
    O seminário sobre "A carta roubada"

    Lição sem estenotipia, conhecida pelo texto que Lacan publicou em 1956. É a leitura do conto de Edgar Allan Poe que abrirá os Escritos.

    • O conto: a carta da rainha, roubada pelo ministro e recuperada pelo detetive Dupin
    • Duas cenas com três olhares: quem não vê, quem vê que o outro não vê, e quem vê tudo
    • A carta define a posição de quem a tem
    • O jogo de par ou ímpar, e as cadeias de símbolos α β γ δ
    • O verso de Crébillon deixado por Dupin na carta falsa

    Edgar Allan Poe, Baudelaire, Crébillon

  18. 1811 maio 1955
    O sonho e o devaneio

    Uma exposição de Durandin abre a discussão. Lacan prepara o encontro entre a repetição e a insistência da fala.

    • A repetição como inércia: o retorno ao inorgânico
    • A resistência não deve ser buscada em outro lugar senão em nós mesmos
    • A diferença entre o sonho e o devaneio
    • Édipo em Colono: a fala de Édipo no fim da vida
    • As objeções de Pontalis sobre a realidade

    Durandin, Lefèvre-Pontalis, Colette Audry, Sófocles

  19. 1918 maio 1955
    A insistência da fala e a pulsão de morte

    Lacan articula o que chama de insistência significante com o que Freud chama de pulsão de morte.

    • A libido como modo de falar do desejo, e o preço dessa maneira de falar
    • O engano no animal: na sexualidade, é fácil enganar um animal com uma imagem
    • Édipo em Colono: o destino de Tebas depende de uma fala que não souberam ouvir
    • Edgar Allan Poe e o caso do Sr. Valdemar, entre a vida e a morte
    • A pergunta que fica: por que os planetas não falam?

    Sófocles, Aristóteles, Edgar Allan Poe, Octave Mannoni

  20. 2025 maio 1955
    Por que os planetas não falam

    Lacan responde à pergunta da semana anterior. A resposta serve para isolar o que faz do humano outra coisa que um astro.

    • Os planetas não falam: estão sempre no mesmo lugar — e é desse "mesmo lugar" que nasce a ciência
    • A síndrome de Cotard, o delírio de negação
    • O eu é uma construção imaginária, e é isso que ele tem de bom
    • A paciente angustiada com a ideia de que o analista saiba o que ela tem na mala
    • O analista como um espelho que não reflete o próprio eu

    Parmênides, Koyré, Cotard

  21. 211 jun. 1955
    O muro da linguagem

    Construção do esquema que ficará conhecido como esquema L. Lacan avisa: todo esquema é uma metáfora.

    • A fala vai em linha reta, mas bate no "muro da linguagem"
    • O eu e o outro em espelho interrompem a fala entre o sujeito e o Outro
    • A teoria de Fairbairn: o ego central, o ego libidinal, o "sabotador interno"
    • O escravo do Mênon e a geometria de Euclides

    Fairbairn, Platão (Mênon), Euclides

  22. 228 jun. 1955
    Anfitrião: o sósia e o pacto

    Molière e Plauto, com a história de Sósia, que encontra alguém igual a ele, servem para mostrar o que o pacto simbólico faz com a relação imaginária.

    • O pai simbólico — "o que eu chamo o Nome do Pai" —, o pai imaginário e o pai real
    • A mulher como objeto de troca no pacto do casamento, e o que diz Proudhon
    • Sósia diante do seu duplo: o eu encontra sempre o próprio reflexo
    • Um caso de neurose obsessiva
    • A inveja do pênis é simbólica, e não natural

    Molière e Plauto (Anfitrião), Proudhon, o Homem dos Lobos

  23. 2315 jun. 1955
    O que é uma mensagem

    Lacan faz o auditório falar para saber onde cada um está. Segue-se o problema dos três prisioneiros com discos nas costas.

    • As respostas de Colette Audry, Riguet, Leclaire, Marchant, Mannoni e outros
    • A mensagem pode ser levada por um mensageiro que não sabe o que ela diz
    • "No princípio era o Verbo"
    • Os três prisioneiros: cada um só vê os discos dos outros dois, e precisa concluir sobre si

    Colette Audry, Jacques Riguet, Serge Leclaire, Marchant, Octave Mannoni, Lefèvre-Pontalis

  24. 2422 jun. 1955
    Psicanálise e cibernética, ou da natureza da linguagem

    Conferência pública, aberta a um público mais amplo que o do seminário.

    • O resultado do jogo de par ou ímpar feito em março
    • Ciências exatas e ciências "conjecturais"
    • O relógio, a natureza e o tempo: o que é encontrar algo no mesmo lugar
    • A porta aberta ou fechada, e a lógica binária, de 0 e 1
    • O sentido, e o risco de reduzir a análise aos temas imaginários

    Pascal, Huyghens, Norbert Wiener, Borel

  25. 2529 jun. 1955
    A palavra e a resistência do analista

    Última lição. Começa por uma discussão sobre o "Verbo" do Evangelho de São João e termina numa das frases mais conhecidas do ano.

    • Davar: o que o hebraico diz quando diz "palavra"
    • Bultmann e a falta do conceito grego de logos na tradição bíblica
    • Discussão com Valabrega, Mannoni e Beirnaert sobre o símbolo e o imaginário
    • "A única resistência verdadeira na análise é a resistência do analista"

    São João, Bultmann, Jean-Paul Valabrega, Octave Mannoni, Louis Beirnaert, Jacques Riguet

Armadilhas. (a) O a do esquema L é o eu, imaginário — não é ainda o objeto a, que só aparecerá com esse valor em 1962–63. É a confusão mais comum entre leitores. (b) "A máquina" não é uma tese materialista sobre o cérebro: é uma demonstração de que a ordem simbólica funciona sem sujeito. (c) O comentário de Poe é uma demonstração sobre lugares, não uma interpretação literária.

Antes / depois. Antes: S1. Depois: o Seminário sobre "A carta roubada" nos Écrits (redigido em 1956, colocado por Lacan na abertura do volume, contra a cronologia — decisão editorial que é ela mesma uma tese).

S3Les psychosesAs psicoses 1955–1956 · 25 lições

Ficha. 25 sessões, sem lacunas assinaladas, todas de Lacan. Um dos seminários mais bem construídos e mais legíveis, com um fio contínuo: as Memórias de Schreber.

A pergunta. O que é a psicose, se não é um déficit? A resposta constrói um mecanismo próprio, irredutível ao recalque, e uma clínica fundada na estrutura da linguagem e não na psicopatologia descritiva.

O argumento

Vinte e cinco lições, sem lacuna e sem expositor convidado: é o seminário mais contínuo dos primeiros anos. O objeto é um livro — as Memórias de um doente dos nervos, que o juiz alemão Daniel Paul Schreber escreveu sobre a própria loucura — e a tese é que a psicose não é um déficit. Ela tem uma estrutura, e essa estrutura é de linguagem.

O ano começa pela história da noção de paranoia e pela crítica de um critério muito difundido na psiquiatria: o de que o delírio seria aquilo que "não se compreende". Lacan propõe o contrário: partir dos fenômenos, e os fenômenos da psicose são fenômenos de linguagem — vozes, palavras de sentido estranho, frases que se interrompem.

O meio do ano constrói o mecanismo. Em 11 de janeiro de 1956, retomando o texto de Freud sobre a negação, Lacan formula que, antes de qualquer simbolização, pode acontecer que uma parte dela simplesmente não se faça: é a Verwerfung, que se traduzirá por foraclusão. Em 15 de fevereiro, ele a distingue do recalque (Verdrängung) pelo lugar em que cada um acontece.

O terceiro trimestre é linguístico. Passa pelas duas formas de afasia, pela oposição entre metáfora e metonímia, por um verso de Victor Hugo e pelas rimas estranhas que Schreber ouve dos "pássaros do céu". Em 6 de junho aparece, com esse nome, o ponto de basta — o ponto em que um significante prende o sentido —, demonstrado sobre o primeiro verso de Athalie, de Racine.

O ano termina com um longo exercício de gramática sobre uma frase — "tu és aquele que me seguirás" — que leva a uma conclusão: o que falta na psicose falta no lugar do pai, e ser pai, diferentemente de procriar, não tem significante que lhe corresponda.

O que se encontra aqui

Contra o critério da compreensão
A crítica a Jaspers, na abertura, 16 de novembro de 1955.
"Porca!"
A paciente que ouve um insulto no corredor: 7 de dezembro de 1955.
O dialeto corso
Um caso em que outra língua fazia as vezes do recalque: 14 de dezembro de 1955.
"A coisa freudiana"
Lacan lê o discurso que fez em Viena: 21 de dezembro de 1955.
A foraclusão
A Verwerfung é formulada em 11 de janeiro de 1956 e distinguida do recalque em 15 de fevereiro de 1956; a tradução “forclusion” só é adotada na última lição, 4 de julho de 1956.
"Sou homem ou sou mulher?"
A pergunta histérica, com o caso do condutor de bonde de Budapeste: 14 e 21 de março de 1956.
Metáfora e metonímia
Com as duas formas de afasia e o verso de Victor Hugo: 2 e 9 de maio de 1956.
Os "pássaros do céu" de Schreber
As rimas que eles repetem — Santiago / Karthago, Chinesentum / Jesum Christum: 9 de maio de 1956.
O ponto de basta
Primeira aparição do termo, em 6 de junho de 1956, sobre o verso de Athalie.
"Tu és aquele que me seguirás"
O exercício gramatical de 13, 20 e 27 de junho de 1956.
A grande estrada
A imagem do significante que organiza o campo, em 20 de junho de 1956.
O que é ser pai
A questão da procriação, de 20 de junho a 4 de julho de 1956.

Lição por lição 25 sessões

  1. 116 nov. 1955
    O que é a paranoia

    Abertura do ano. Freud quase nada disse sobre o tratamento das psicoses; é preciso, então, começar pela doutrina — e por uma crítica.

    • Os analistas se ocupam mais da esquizofrenia; é da paranoia, porém, que se pode aprender mais
    • Por muito tempo, "paranoia" foi o nome de quase toda loucura
    • Clérambault, que viu coisas que ninguém tinha visto
    • A crítica de Jaspers: a ideia de que o delírio é o que não se compreende
    • O exemplo do carro vermelho que, para o paciente, "quer dizer" alguma coisa

    Clérambault, Jaspers, Schreber (anunciado)

  2. 223 nov. 1955
    O sentido oposto das palavras primitivas

    Lacan percorre a história da noção de paranoia e lê, em alemão, um texto de Freud sobre palavras antigas que diziam ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário.

    • O "momento fecundo": no começo do delírio há sempre uma ruptura
    • Por que a palavra comum, "loucura", continua sendo a mais justa
    • Freud e o linguista Karl Abel: no egípcio antigo, uma palavra podia significar algo e o seu oposto
    • Como a estrutura do próprio texto do delírio permite classificar a paranoia de outro modo

    Karl Abel, Freud (O sentido antitético das palavras primitivas), Kraepelin, Flechsig, Benveniste

  3. 330 nov. 1955
    A homossexualidade não explica nada

    Crítica da explicação corrente do caso Schreber pela homossexualidade, e primeira aproximação do que a psicose faz com a linguagem.

    • A homossexualidade como explicação: o que se diz dela é vago e contraditório
    • O "galopiner" de uma paciente: uma palavra vinda de outro mundo, que só ela entende
    • Mensagens que chegam com atraso e se repetem como eco
    • O conhecimento paranoico, nascido da rivalidade e do ciúme no espelho
    • A diferença entre o sujeito que fala, o pequeno outro e o grande Outro

    Clérambault, Schreber, Benveniste

  4. 47 dez. 1955
    Neurose e psicose em Freud — "Porca!"

    Lacan lê, no original alemão, os dois artigos de 1924 em que Freud compara a perda da realidade na neurose e na psicose. E apresenta um caso.

    • Por que a relação com a realidade é tão diferente nos dois casos
    • O que significa, exatamente, recalcar
    • A paciente que ouve "porca!" no corredor — depois de ela mesma ter dito "venho do açougueiro"
    • O ponto não é que ela se sinta hostilizada: é que a palavra foi ouvida, vinda de fora

    Freud (Neurose e psicose e A perda da realidade na neurose e na psicose, 1924)

  5. 514 dez. 1955
    O dialeto corso e o mundo de Schreber

    Um caso apresentado na véspera: um rapaz para quem, em casa, só existia a língua corsa. Depois, a entrada na leitura das Memórias.

    • O rapaz criado em Paris, filho único, para quem tudo o que acontecia em casa se dizia em outra língua
    • O que, em outro sujeito, seria recalcado, nele era sustentado por um segundo idioma
    • Primeiros capítulos de Schreber, lidos em ordem
    • Os sonhos de castigo
    • A relação "diagonal" do delírio, diferente da relação entre duas pessoas que se falam

    Schreber (Memórias), Katan

  6. 621 dez. 1955
    "A coisa freudiana"

    Lição curta. Notando a dificuldade do auditório com a leitura de Schreber, Lacan muda de método e lê o discurso que pronunciou em Viena.

    • O erro de método reconhecido: será preciso escolher o que ler
    • O discurso de Viena, que se tornará "A coisa freudiana", nos Escritos
    • A "curiosa aventura" do púlpito que cedeu no meio da conferência
    • Dalí, que dias antes contara na Sorbonne a metamorfose de A rendeira, de Vermeer, em chifres de rinoceronte
    • A psicanálise nos Estados Unidos e o seu desvio
    • O sentido de um retorno a Freud

    Salvador Dalí, Vermeer

  7. 711 jan. 1956
    Afirmar ou foracluir

    A lição em que o mecanismo da psicose é formulado. Lacan volta ao texto sobre a negação, comentado por Hyppolite dois anos antes.

    • A certeza delirante, e por que ela não é a do sujeito comum
    • O "assassinato de alma" de que Schreber se diz vítima
    • Desconfiar de explicações por mecanismos comuns, como a projeção
    • Antes de toda simbolização, pode acontecer que algo não seja simbolizado
    • Na origem, ou Bejahung — a afirmação — ou Verwerfung — a recusa, a foraclusão

    Freud (A negação), Jean Hyppolite, Kris, Schreber

  8. 818 jan. 1956
    As almas e os duplos

    Da estrutura ao detalhe do delírio: as "almas", a posição feminina diante de Deus, e um desvio pelo comportamento animal.

    • O que Schreber não podia suportar: uma posição feminina diante do pai
    • Quando o parceiro é Deus, a castração deixa de importar — é a lógica do delírio de grandeza
    • Dora, por contraste
    • O peixe que, sem saber se ataca, faz os gestos do acasalamento
    • As almas que são todas de mortos; Flechsig, o médico, também
    • A identidade fragmentada: ele é outro e é o mesmo

    Schreber, Flechsig, Dora, Lorenz, Lagache

  9. 925 jan. 1956
    A economia do caso

    Para nós, o caso Schreber é o texto de Schreber. Lacan propõe estudar como o delírio evolui.

    • Freud explica pela passagem ao narcisismo, e ninguém tira as consequências
    • Katan e a noção de defesa
    • As internações: Coswig, depois Pirna
    • Os raios divinos e as almas
    • Grande parte do que se diz no dia a dia é discurso de ficção

    Schreber, Katan, Flechsig, Cícero, Benveniste

  10. 101 fev. 1956
    O não-sentido e a perfídia de Deus

    A relação de Schreber com Deus e o fenômeno do não-sentido, com um desvio pela história da língua francesa.

    • "A palavra me falta", expressão nascida nos salões das Précieuses
    • O discurso sem sentido (Unsinn) com que Schreber tem de se haver
    • Cuidado com as comparações apressadas — com Plotino, por exemplo
    • A expressão "traumatismo craniano" que lhe vem sozinha, isolada
    • O amor de Deus por Schreber, e a "perfídia divina"

    Schreber, Saint-Amant, Plotino, Flechsig, Kraepelin

  11. 118 fev. 1956
    A alucinação e a frase interrompida

    Contra a definição da alucinação como "percepção sem objeto": Lacan desloca a questão para a estrutura da fala.

    • Deus sabe qual número sairá na loteria? O futuro e a liberdade
    • O neurótico também testemunha do inconsciente, mas é preciso decifrar o seu testemunho
    • Mártir, em grego, quer dizer testemunha
    • As frases que se interrompem na escuta de Schreber, e o que as completa
    • O grito é puro significante; o pedido de socorro tem sentido

    Schreber

  12. 1215 fev. 1956
    Estrutura e economia da psicose

    Lição de balanço. Por que analisar o fenômeno não é fazer fenomenologia, e por que a memória é o que há a explicar.

    • Estudar não só a estrutura, mas a economia das psicoses
    • Os fenômenos de linguagem como a fonte mais rica de ensino
    • Quem fala nas vozes? O outro imaginário, o duplo?
    • Foraclusão e recalque: dois lugares diferentes
    • O polvo de laboratório com eletrodos: o que ele faz com eles

    Freud (A negação), Jean Hyppolite, Fliess, Schreber

  13. 1314 mar. 1956
    O condutor de bonde: "sou homem ou mulher?"

    Uma observação clínica antiga, de Budapeste, serve para isolar a pergunta que está no fundo da histeria.

    • O que se chama "pré-verbal" não é anterior à linguagem
    • O caso relatado por Joseph Hasler: um condutor de bonde com uma dor estranha nas costelas
    • Tudo no caso se ordena em torno de uma pergunta: sou homem ou sou mulher? — e: posso gerar?
    • Por que, para a mulher histérica, identificar-se ao pai é mais simples que para o homem

    Joseph Hasler, Schreber, Dora, Françoise Dolto

  14. 1421 mar. 1956
    O que não tem significante

    A dissimetria do complexo de Édipo entre meninos e meninas leva ao ponto em que falta um significante.

    • Freud sempre insistiu que o Édipo não é igual para os dois sexos
    • O falo como símbolo sem correspondente feminino
    • A questão da procriação, posta a cada sexo de outro modo
    • A couvade: o costume em que o pai "dá à luz" junto com a mãe
    • O recalque como queda de algo na passagem de uma inscrição a outra

    Dora, Freud (A dissolução do complexo de Édipo, Sobre a sexualidade feminina)

  15. 1511 abr. 1956
    Ninguém na natureza usa o significante para significar

    Volta das férias, com uma epígrafe de Cícero. Lacan enuncia o que separa a física da linguagem.

    • Cícero: o cuidado da natureza em permitir o uso da fala
    • A noção de estrutura já é efeito do significante
    • Na natureza, ninguém usa um significante para significar
    • Como distinguir os sintomas de antes da psicose dos de uma neurose?
    • A fórmula do sonho de Irma, de novo: é do significante que se trata

    Cícero, Schreber, Freud (o sonho de Irma), Katan

  16. 1618 abr. 1956
    Significante e significado na psicose

    Lacan usa trechos de Schreber para mostrar por que é preciso separar significante e significado.

    • Schreber, "excepcionalmente dotado" para observar o que lhe acontece
    • Por que a explicação pela homossexualidade é aceita sem crítica
    • Os mesmos mecanismos convocados para psicose e neurose: é aí que está o problema
    • Nas psicoses, a resposta parece vir antes da pergunta
    • O homem moderno apoia-se em poucos pontos: num banco de três pés, não pode faltar nenhum

    Schreber, Katan

  17. 1725 abr. 1956
    Os nervos, os raios e a língua de Deus

    Leitura do texto alemão de Schreber sobre a relação com Deus, com o comentário colado ao original.

    • A "volúpia de alma" e os pensamentos formulados em palavras
    • O recuo dos raios: dores e crises de gritos
    • O testemunho do psicótico sobre a sua relação com a linguagem deve ser levado a sério
    • Os "homens feitos às pressas", figuras que lhe parecem irreais
    • Os nervos que falam

    Schreber, Silberer, Katan

  18. 182 maio 1956
    Similaridade e contiguidade

    Começa uma série sobre a linguagem. Uma frase de Freud a Fliess serve de epígrafe: "eles amam o seu delírio como a si mesmos".

    • No discurso do delírio não se encontra nada parecido com uma metáfora
    • "Sa gerbe n'était point avare ni haineuse", de Victor Hugo: um feixe de trigo não pode ser avaro — e, no entanto, o verso funciona
    • A similaridade e a contiguidade: substituir uma palavra por outra, ou encadear palavras
    • As duas formas de afasia: perder uma ou outra dessas capacidades
    • Moisés e o monoteísmo, anunciado

    Victor Hugo ("Booz endormi"), Freud (carta a Fliess, Moisés e o monoteísmo)

  19. 199 maio 1956
    Metáfora, metonímia e os pássaros do céu

    A lição central sobre metáfora e metonímia, construída sobre as afasias e sobre as rimas que Schreber ouve.

    • Significante e significado não são o velho par "ideia e palavra"
    • A metáfora como transporte de sentido, vista em funcionamento
    • A substituição só é possível porque as palavras ocupam posições
    • A fórmula: "a metonímia é uma metáfora pobre"
    • Os "pássaros do céu" de Schreber e suas rimas: Santiago ou Karthago, Chinesentum ou Jesum Christum, Ahriman ou Ackermann
    • Pura equivalência de sons, sem relação de sentido

    Schreber, Pichon e Damourette

  20. 2031 maio 1956
    O psicótico habitado pela linguagem

    Freud e os hieróglifos, Clérambault e o automatismo mental: a linguagem vista de fora.

    • Freud compara os sonhos aos hieróglifos egípcios
    • Os analistas, ignorantes do método de um filólogo
    • Os "fenômenos elementares" e o automatismo mental de Clérambault
    • O psicótico é habitado pela linguagem: ela lhe chega de fora
    • Os pronomes que se declinam e os que não se declinam

    Clérambault, Schreber, Freud

  21. 216 jun. 1956
    O ponto de basta

    A lição em que o termo aparece. A demonstração é feita sobre o primeiro verso de Athalie, de Racine, palavra por palavra.

    • "Oui…": e daí em diante não se sabe aonde a frase vai
    • "Oui, je viens dans son temple adorer l'Éternel": quem fala é Abner, e Joad, o sumo sacerdote, escuta
    • "Trembler" e "temer": a mesma raiz, e o temor que vai aparecer
    • A "massa amorfa" dos pensamentos, em Saussure
    • O ponto de basta: como a agulha do estofador, um significante prende o sentido e fixa o que veio antes

    Racine (Athalie), Saussure, Schreber, Clérambault

  22. 2213 jun. 1956
    "Tu és aquele que me seguirás"

    Uma lição de gramática, a partir de frases recolhidas na gramática de Pichon e Damourette. O exercício prepara a questão do pai.

    • "Je suis beaucoup plus moi. Avant j'étais un para-moi…": a frase de uma paciente
    • O "tu" e o "eu": quem é o Outro a quem se fala?
    • Ao "tu és meu mestre" responde um "quem sou eu?"
    • A voz média: verbos em que o sujeito se faz no próprio ato
    • Em toda a obra de Schreber, o pai é nomeado uma única vez

    Pichon e Damourette, Benveniste, Schreber

  23. 2320 jun. 1956
    A grande estrada e o que é ser pai

    O exercício gramatical desemboca na questão da procriação e numa imagem que dá nome à lição.

    • A frase declinada em todas as formas: "tu és aquele que me segue, que me seguia, que me seguiu…"
    • A grande estrada: um significante não liga um ponto a outro; ele organiza todo um campo
    • É o significante que cria o campo das significações
    • Mais difícil que "ser mãe" é ser pai: isso não se resolve sabendo que, para ter filhos, é preciso copular
    • Onde falta a estrada principal, colocam-se placas — e elas se põem a falar sozinhas

    Saussure, Schreber

  24. 2427 jun. 1956
    Mandato, ostensão, pontuação

    Última volta em torno da frase, agora pela diferença entre uma ordem e um mandato.

    • "Tu és aquele que me seguirás" não é uma ordem: é um mandato, e supõe todo um mundo instituído pela palavra
    • Nas línguas sem declinação, é a ordem das palavras que separa sujeito e objeto
    • A pontuação: onde colocá-la muda o sentido
    • A tartaruga e os dois patos, de La Fontaine
    • Em Schreber, cada gesto é comentado por vozes

    La Fontaine, Pichon, Heidegger, São Tomás, Schreber, Ida Macalpine

  25. 254 jul. 1956
    O meteoro, o Papai Noel e o monstro Chapalu

    Última lição. Lacan responde à objeção de Ida Macalpine, tradutora de Schreber, e termina com uma leitura literária.

    • Freud explica o delírio por uma tendência homossexual negada — e é aí que a objeção de Macalpine pesa
    • O meteoro: o tecido mais inconsistente que se pode apresentar ao homem
    • "Estamos todos, eu com vocês, inseridos nesse significante maior que se chama Papai Noel"
    • O monstro Chapalu, de Apollinaire, que mia e só encontra corujas
    • A esfinge que morre por não ter adivinhado

    Ida Macalpine, Apollinaire (O encantador apodrecido), Jones, Schreber

Armadilhas. (a) Foraclusão não é recalque intenso: é outra operação lógica. (b) A psicose não é ausência de estrutura — é uma estrutura. (c) O desencadeamento exige um encontro contingente com “Um-pai”: não basta a foraclusão — formulação que Lacan dará em “De uma questão preliminar…” (1958).

Antes / depois. Depois, obrigatoriamente: "D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose" (1957–58), que condensa o seminário e apresenta os esquemas R e I.

S4La relation d'objetA relação de objeto 1956–1957 · 24 lições

Ficha. 24 sessões. A partir de março, o caso do pequeno Hans ocupa o seminário inteiro, até julho. Dora ocupa quase toda a lição de 23 de janeiro de 1957.

A pergunta. O que é um objeto em psicanálise? Contra a "relação de objeto" da IPA — que fazia do objeto algo a ser encontrado e da análise uma reeducação afetiva — Lacan demonstra que a falta de objeto é o que estrutura, e que ela vem em três modalidades.

O argumento

Este é um seminário escrito contra um livro. Em 1956 saíra La psychanalyse d'aujourd'hui, obra coletiva em que a "relação de objeto" era a peça central da teoria e da técnica: haveria um objeto a encontrar, uma distância a regular, e a análise seria uma espécie de reeducação afetiva. Lacan passa o ano demonstrando o contrário: não é a relação com o objeto que estrutura o sujeito — é a falta dele.

A primeira metade do ano constrói o instrumento: três maneiras de faltar o objeto — frustração, privação e castração —, cada uma com o seu agente e o seu objeto. O quadro é testado em dois casos: o fetiche, objeto posto no lugar daquilo que falta à mãe, e a jovem homossexual tratada por Freud em 1920, que reage a uma decepção com o pai identificando-se a ele.

A segunda metade é uma coisa só: o pequeno Hans, menino de cinco anos que tinha medo de cavalos, tratado por Freud por meio do próprio pai. De março a julho, Lacan lê a observação dia a dia. A fobia aparece ali como um mito que a criança constrói, e o cavalo como um significante que troca de lugar com os outros elementos da história: as girafas, a banheira, o encanador, a mordida, a queda.

A conclusão é de estrutura: Hans não tem medo de um pai severo — ao contrário, o pai não intervém o bastante. A fobia chama um elemento simbólico ali onde a função do pai falhou. É o caminho que levará, no ano seguinte, à metáfora paterna.

O que se encontra aqui

Contra a "relação de objeto"
A abertura polêmica, 21 de novembro de 1956.
Frustração, privação, castração
O quadro das três faltas, armado a partir de 28 de novembro de 1956.
A onipotência é da mãe
Não da criança: 12 de dezembro de 1956.
A jovem homossexual
O caso de Freud (1920), lido em 9, 16 e 23 de janeiro de 1957, ao lado de Dora.
O véu e o fetiche
"Sobre o véu pinta-se a ausência": 30 de janeiro de 1957.
O pequeno Hans
De março a 3 de julho de 1957: a leitura mais longa que Lacan fez de um caso.
Medo e angústia
A fobia permite separá-los: 20 de março de 1957.
A fobia como mito
Com o método de Lévi-Strauss, em 27 de março de 1957.
Wegen dem Pferd
"Por causa do cavalo" e Wägen, carroças: o trocadilho como mola, em 8 de maio de 1957.
O Nome do Pai
O pai simbólico, que instaura a existência do pai: 15 de maio, 5 e 26 de junho de 1957.
"Booz endormi" e Leonardo
A metáfora e a "humaníssima trindade", em 19 de junho de 1957.
Uma inversão de datas
As sessões de 6 e 13 de março de 1957 aparecem trocadas nas transcrições.

Lição por lição 24 sessões

  1. 121 nov. 1956
    Contra a "relação de objeto"

    Abertura polêmica. Lacan escolhe o tema justamente porque se tornara central na teoria dominante — e explica por que só pôde atacá-lo depois de três anos lendo Freud.

    • O livro coletivo La psychanalyse d'aujourd'hui, recém-publicado
    • O que a noção deve a Freud: o objeto que se reencontra depois do desmame
    • Em Freud, a relação entre sujeito e objeto nunca é harmoniosa: há sempre uma hiância
    • A fobia e o fetiche, escolhidos como os dois exemplos do ano

    La psychanalyse d'aujourd'hui, Glover, Kierkegaard, Abraham, o pequeno Hans

  2. 228 nov. 1956
    Frustração, privação, castração

    Depois de uma semana lendo o que os analistas escreveram sobre a sexualidade feminina, Lacan começa a montar o quadro que organizará o ano.

    • O "objeto genital, para chamá-lo pelo nome, é a mulher"
    • O objeto alucinado pela criança e o objeto encontrado
    • Winnicott e o objeto transicional — o paninho, o urso — entre a alucinação e o encontro real
    • A mãe que ensina a criança a suportar a frustração
    • A privação como terceiro termo; a castração, do lado da dívida simbólica

    Winnicott, Renan, Maurice Bouvet, o pequeno Hans

  3. 35 dez. 1956
    A imagem do corpo e a libido

    A partir de uma discussão sobre a imagem do corpo, Lacan volta à energia psíquica e explica para que serve a teoria do significante.

    • A imagem do corpo não é um objeto
    • A comparação com uma usina hidrelétrica: a energia já está nas condições anteriores
    • "Faço esta teoria do significante e do significado para lembrar-lhes a presença do Espírito Santo"
    • Encontrar o objeto é sempre reencontrá-lo, já nos Três ensaios
    • Quando a criança percebe que o que a mãe deseja nela é uma imagem do falo

    Françoise Dolto, Freud (Três ensaios), Jones

  4. 412 dez. 1956
    A onipotência é da mãe

    O quadro das três faltas é posto em uso. A lição desmonta a ideia de uma "onipotência infantil".

    • O escândalo da psicanálise não foi falar de sexo: foi mostrar que o acesso ao objeto sexual é difícil por natureza
    • Presença e ausência: o primeiro par simbólico
    • A mãe se torna real quando não responde, e o objeto passa a valer como dom
    • É absurdo supor que a onipotência seja da criança: ela é da mãe
    • A menina que descobre que os meninos têm um "faz-pipi", e a fobia do cachorro que morde

    Melanie Klein, Alice e Michael Balint, Anna Freud, Dora, o pequeno Hans

  5. 519 dez. 1956
    O analista como objeto real

    A técnica que decorre da teoria adversária: se o analista é um objeto real, a análise vira regulação de distância.

    • O analista concebido como objeto real, de quem o paciente se aproxima ou se afasta
    • Aonde leva uma técnica de "regulagem da distância"
    • O esquema proposto é, sem que os autores percebam, o de uma perversão fetichista
    • O bundling, costume de namoro em que os noivos dormem juntos sem se tocar
    • O homem de armadura que assusta um paciente, interpretado como "mãe fálica"

    Maurice Bouvet, Ruth Lebovici, Freud, Dora

  6. 69 jan. 1957
    A jovem homossexual

    Lacan passa ao caso que Freud publicou em 1920: uma moça de boa família vienense, apaixonada por uma dama mais velha.

    • A frustração é um momento fugaz, que só existe na reconstrução
    • Se a demanda fosse atendida, o objeto ficaria em segundo plano
    • A jovem, a "dama" e a família
    • Freud reconhece que a análise não foi até o fim
    • Dora, ao lado: a pergunta dela era sobre o próprio sexo
    • A decepção com o pai convertida em identificação: ela passa a amar como um homem

    Freud (Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina, 1920), Dora

  7. 716 jan. 1957
    "Bate-se numa criança"

    O caso é lido ao lado do texto de Freud sobre a fantasia de espancamento. O ponto: a fantasia fala de uma relação entre três.

    • O debate entre Anna Freud e Melanie Klein como sintoma de uma falta na teoria
    • Entre a imagem fantasiada e a frase que a diz, há algo a escutar
    • A fantasia supõe três pessoas e uma sequência no tempo
    • A menina que brinca de mãe com uma boneca
    • Winnicott e os objetos transicionais

    Freud (Bate-se numa criança), Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Dora

  8. 823 jan. 1957
    Dora e a jovem homossexual: o pai que dá o que não tem

    Os dois casos sobrepostos termo a termo. Antes, o jogo de par ou ímpar retomado como modelo da frustração.

    • O par ou ímpar: presença ou ausência, e a demanda que espera ser atendida
    • A frustração, por definição, nunca se satisfaz
    • O quarteto de Dora: o pai, a filha, a Sra. K. e o Sr. K.
    • "Não há razão alguma para amar a Deus, a não ser, talvez, que ele não exista"
    • A tentativa de suicídio da jovem, que se joga numa linha de trem: em alemão, niederkommen — cair, e também dar à luz

    Dora, Freud (o caso de 1920), Marcel Mauss, Lévi-Strauss

  9. 930 jan. 1957
    O véu e o fetiche

    A lição em que se diz o que é o objeto do fetichista: não está no lugar do falo, está sobre o véu que o encobre.

    • O que se ama em alguém é aquilo que lhe falta; e só se dá o que não se tem
    • Para Freud, o fetiche é o substituto do falo que a mulher não tem
    • O falo simbólico existe como ausência
    • A cortina: o que está por trás tende a se realizar como imagem
    • "Sobre o véu pinta-se a ausência"
    • A crítica a Melitta Schmideberg

    Freud (Fetichismo, 1927), Melitta Schmideberg, Gillespie, Payne, Gide, Lévi-Strauss

  10. 106 fev. 1957
    Identificação e travestismo

    O fetiche como exemplo da dinâmica do desejo, e a identificação examinada a partir dos termos alemães de Freud.

    • O pensamento de Freud partiu dos paradoxos — no caso do desejo, do desejo perverso
    • O travesti identificado à mãe enquanto ela esconde que não tem o falo
    • Fenichel, que viu muito sem conseguir teorizar
    • A Mignon de Goethe, figura ambígua entre os sexos
    • A introjeção é pensada com uma metáfora oral, de comer

    Goethe, Fenichel, Graber, Freud, o pequeno Hans

  11. 1127 fev. 1957
    A frustração não é a recusa de um objeto

    Uma lição mais formal. Lacan redefine a frustração e mostra como o falo entra em jogo.

    • Frustração não é simplesmente não satisfazer uma necessidade
    • O grito do bebê já entra num sistema de gritos organizados
    • O salto: como o falo se introduz nessa dialética
    • E se, nas trocas de Lévi-Strauss, fossem as mulheres a trocar os homens?
    • "As girafas grandes são mudas; as pequenas, raras"

    Lévi-Strauss, Fenichel, Melanie Klein, Jones, Karl Abraham, o pequeno Hans

  12. 126 mar. 1957
    O que Freud não articulou: a castração

    Sessão cuja data aparece trocada nas transcrições. O tema: Freud sempre falou do Édipo, mas nunca disse plenamente o que é a castração.

    • O Édipo está em Freud desde o começo, porque a sua pergunta pessoal era: o que é um pai?
    • A castração, ao contrário, nunca foi articulada por inteiro
    • Jones e a "afânise", o desaparecimento do desejo
    • A privação: a mulher não tem o pênis
    • Hans, aos quatro anos e meio, faz uma fobia — isto é, uma neurose

    Jones, Freud (Cartas a Fliess), o pequeno Hans

  13. 1313 mar. 1957
    O falo como significante e a função do pai

    Sessão com a data também trocada. Lacan avisa: o percurso não é um desenvolvimento — cada etapa remaneja a anterior.

    • O que vem de fora em cada etapa reorganiza o que veio antes
    • É a ordem simbólica que dá ao falo, elemento imaginário, sua importância
    • A criança precisa assumir o falo como significante, como peça das trocas
    • Não basta chegar à heterossexualidade: é preciso situar-se diante da função do pai
    • A menina poderá ter o falo como dom do pai
    • O Wiwimacher, o "faz-pipi" de Hans

    o pequeno Hans, Freud (Totem e tabu), Jones

  14. 1420 mar. 1957
    Medo e angústia

    Depois de esclarecer um ponto sobre "A carta roubada", Lacan entra propriamente no caso Hans.

    • "Desde que há escrita, há ortografia"
    • "Se você tem um faz-pipi, deve ser um bem grande, como o de um cavalo"
    • É muito difícil saber de que Hans tem medo
    • Diante dos cavalos, Hans não sente angústia: sente medo
    • A fobia como construção de proteção, um pórtico diante do edifício
    • O medo não é o elemento primitivo da neurose — e é a fobia que permite ver isso

    o pequeno Hans, Freud

  15. 1527 mar. 1957
    A fobia como mito

    A lição de método: os elementos da fobia de Hans tratados como os elementos de um mito.

    • A mãe se torna real quando recusa o amor, e o seio vira símbolo da frustração
    • O mito é uma ficção que guarda uma relação singular com a verdade
    • Os elementos de um mito trocam de posição de uma versão a outra
    • A fobia piora depois de uma intervenção do pai, seguindo instruções de Freud
    • A fantasia das duas girafas: a grande e a amassada

    o pequeno Hans, Freud (Teorias sexuais infantis)

  16. 163 abr. 1957
    O cavalo como significante

    Os elementos das fantasias de Hans tratados como termos que se combinam — e o menino raciocinando com eles.

    • Por que a fobia vem um ano depois do nascimento da irmã
    • "Como o bom Deus foi gentil de pôr menos cavalos hoje!"
    • Descobrir e surpreender: o objeto escondido que é o falo da mãe
    • A mãe nua e de camisola, e a piada de Alphonse Allais: "debaixo da roupa, ela está nua!"
    • As crianças esgotam as combinações possíveis melhor que os adultos

    o pequeno Hans, Lévi-Strauss, Alphonse Allais

  17. 1710 abr. 1957
    O mito e o ingênuo

    Cada vez que o pai intervém, a produção mítica de Hans recomeça.

    • A visita a Freud em 30 de março e a coragem que Hans ganha
    • O cavalo atrelado ou não, a carroça de um ou dois cavalos
    • O Krawall, o estardalhaço do cavalo que cai
    • Um significante de sintoma pode cobrir significados muito diferentes
    • O cômico e o ingênuo, no livro de Freud sobre o chiste

    o pequeno Hans, Freud (O chiste), Lévi-Strauss

  18. 188 maio 1957
    Wegen dem Pferd: "por causa do cavalo"

    A leitura chega a um trocadilho registrado por Freud, e Lacan o usa para mostrar as duas leis da linguagem em ação.

    • O mais constante dos desejos humanos: o desejo de outra coisa
    • Marte, Odin, Zeus: por que os deuses têm cavalos
    • O passeio de domingo à casa da avó, em Lainz
    • Wegen dem Pferd ("por causa do cavalo") e Wägen (carroças): o som une o que o sentido separa
    • As duas espécies de associação têm nome: metáfora e metonímia

    o pequeno Hans, Freud

  19. 1915 maio 1957
    O bairro de Hans, a pinça e o pé de Édipo

    Lacan reconstitui o bairro onde Hans morava e acompanha as fantasias de abril.

    • O Nome do Pai, e o pai que, diante de Freud, representa um "superpai"
    • A fantasia de subir na carroça que descarrega diante de casa
    • Hans não teme ser separado da mãe: tem certeza de poder voltar
    • O mapa do bairro, a casa dos pais e o circuito
    • A fantasia da banheira, e o encanador que desparafusa o traseiro de Hans com uma pinça (Zange) para pôr outro
    • A pinça, os dentes, o casco do cavalo — e o pé ferido de Édipo

    o pequeno Hans, Freud

  20. 2022 maio 1957
    A língua de Hans

    Epígrafe tirada dos Cadernos de Leonardo da Vinci. A lição é uma leitura atenta do vocabulário do menino.

    • Em torno do significante "cavalo" cresce toda uma arborescência mítica
    • O tema do retorno; a fantasia de uma nova partida com o pai
    • O pai sugere que a fobia vem de Hans se tocar
    • Grete, a menina das fantasias
    • O pai é bom demais para que se tenha medo dele — e o cavalo carrega o medo
    • A boneca furada com o canivete

    Leonardo da Vinci (Cadernos), o pequeno Hans

  21. 215 jun. 1957
    O encanador, o perfurador e os substitutos do pai

    A lição isola os personagens que ocupam, na fobia, o lugar que o pai não ocupa.

    • Se o pai simbólico — o Nome do Pai — é essencial ao mundo simbólico, o que acontece quando ele não opera?
    • As calcinhas da mãe e o mal-entendido entre pai e filho
    • "O cavalo morde": como ele morde a mãe, ela o morderá
    • "O cavalo cai", como Hans se sente deixado cair desde que só se ocupam da irmã Anna
    • Não há castrador — mas há substitutos: o encanador, depois o perfurador

    o pequeno Hans, Nietzsche (Assim falou Zaratustra)

  22. 2219 jun. 1957
    "Booz endormi" e a trindade de Leonardo

    A leitura de Hans desemboca na metáfora. Lacan retoma o verso de Victor Hugo e o estudo de Freud sobre Leonardo.

    • O Édipo funda a nossa instalação entre o real e o simbólico na existência daquele que tem a palavra: o pai
    • A metáfora em "Sa gerbe n'était point avare ni haineuse": a gavela no lugar de Booz
    • A fobia de Hans escrita em letras: o cavalo, a mãe
    • A queda como termo comum a tudo o que está em jogo; a irmã Anna, que ele quer ver cair
    • Leonardo e a "humaníssima trindade" — Santa Ana, a Virgem e o Menino —, com o cordeiro como quarto termo

    Victor Hugo ("Booz endormi"), Freud (Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci), Françoise Dolto, o pequeno Hans

  23. 2326 jun. 1957
    Formalizar a fobia

    Penúltima lição: escrever a observação em letras, para fixar pontos de referência.

    • Robert Fliess e a "experiência filogenética"
    • Hans pede ao pai que faça o papel de pai: "você deve ficar com ciúmes"
    • A neurose como pergunta do sujeito sobre a própria existência: o que é ter o sexo que tenho?
    • O Nome do Pai, que instaura a existência do pai
    • A carroça e a banheira, onde se põem muitas crianças: figuras da mãe

    o pequeno Hans, Robert Fliess, Isakower

  24. 243 jul. 1957
    Encerramento

    Lacan retoma a escrita em letras e explica por que não se deve exigir uma fórmula completa da pergunta de Hans. As transcrições anexam a esta lição o texto alemão do caso e do Leonardo.

    • Escrever as relações para fixar pontos de referência na discussão
    • Por que a pergunta de Hans não cabe numa fórmula completa
    • O balanço do ano: o que resta da "relação de objeto"
    • Em anexo, Análise da fobia de um menino de cinco anos e Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci, no original

    Freud (Análise da fobia de um menino de cinco anos, 1909; Leonardo, 1910)

Armadilhas. (a) O quadro das três faltas é frequentemente decorado errado: preste atenção a que o agente e o objeto trocam de registro em cada linha. (b) "Falo" aqui é imaginário; o Φ simbólico é posterior. (c) O seminário é uma polêmica com a escola inglesa; sem saber isso, várias afirmações parecem gratuitas.

Antes / depois. Depois: "La signification du phallus" (1958) e o Seminário 5, que retoma a metáfora paterna já formalizada.

S5Les formations de l'inconscientAs formações do inconsciente 1957–1958 · 27 lições

Ficha. 27 sessões nas transcrições (a de 13 de novembro de 1957 vem junto com a de 6 de novembro). Seminário de grande densidade e muito bem estruturado: divide-se com nitidez em três blocos — o chiste (nov.–dez.), a metáfora paterna (jan.–fev.), o desejo e a demanda (mar.–jul.).

A pergunta. Como o inconsciente se forma — isto é, como ele se produz em formações reconhecíveis (chiste, lapso, sonho, sintoma)? E qual é a estrutura comum a todas elas?

O argumento

O título é uma escolha de método. Lacan não vai falar do inconsciente em geral, mas das suas formações — o chiste, o lapso, o esquecimento de um nome, o sonho, o sintoma —, porque é nelas que o inconsciente se deixa apanhar, e porque todas obedecem à mesma estrutura.

O ano tem três blocos bem nítidos. O primeiro, de novembro a dezembro de 1957, é uma leitura do livro de Freud sobre o chiste. O exemplo de partida é uma piada de Heine: um personagem conta que o barão Rothschild o tratou de modo "famillionnaire" — familiar e milionário numa palavra só. Lacan a lê como uma metáfora, e põe ao lado o esquecimento do nome do pintor Signorelli, em que a metáfora falha. Daí sai uma peça central: o chiste precisa de um Outro que o receba e o reconheça.

O segundo bloco, de janeiro a fevereiro de 1958, é a metáfora paterna: o Nome-do-Pai vem no lugar do desejo da mãe e lhe dá uma significação. Os três tempos do Édipo são reformulados como momentos lógicos, e não como etapas da vida.

O terceiro bloco, de março a julho, é o do desejo. Depois de um longo exame do que os analistas escreveram sobre a "fase fálica", Lacan chega à distinção que comandará tudo: necessidade, demanda e desejo. Ela é demonstrada em dois sonhos de histéricas comentados por Freud — o do salmão defumado e o da bela açougueira — e depois no desejo do obsessivo.

O que se encontra aqui

O famillionnaire
A piada de Heine lida como metáfora: 6 de novembro de 1957 (a transcrição inclui aí a sessão de 13 de novembro).
Signorelli
O nome esquecido por Freud e os seus restos: 6 e 20 de novembro de 1957.
O Outro do chiste
Não há chiste sem alguém que o receba: 4 e 11 de dezembro de 1957.
A batalha de Marengo
A célebre história de exame, em 11 de dezembro de 1957.
A Escola de mulheres
Molière e o cômico, em 18 de dezembro de 1957.
A metáfora paterna
15, 22 e 29 de janeiro de 1958.
Os três tempos do Édipo
22 e 29 de janeiro de 1958.
A fase fálica em debate
Jones, Karen Horney, Hélène Deutsch, Melanie Klein: março de 1958.
Necessidade, demanda, desejo
A distinção de abril e maio de 1958.
O sonho do salmão defumado
30 de abril de 1958: um desejo de desejo insatisfeito.
O sonho da bela açougueira
7 de maio de 1958: o falo como significante numa frase.
O desejo do obsessivo e o acting out
14 e 21 de maio e 25 de junho de 1958.
Uma sessão sem cabeçalho
Nas transcrições, a lição de 13 de novembro de 1957 corre dentro da de 6 de novembro.

Lição por lição 27 sessões

  1. 16 nov. 1957
    O chiste: famillionnaire

    Abertura do ano. Nesta transcrição, a sessão de 13 de novembro vem junto, sem cabeçalho próprio — daí a extensão.

    • O ano vai pensar o lugar do significante no inconsciente
    • Um pequeno esquema com duas linhas: a do discurso comum e a dos efeitos de metáfora e metonímia
    • Heine, nos Quadros de viagem: Hirsch Hyacinthe conta que Rothschild o tratou de modo "famillionär"
    • Duas palavras que se fundem numa e produzem um sentido novo
    • O esquecimento do nome Signorelli: Signor e Herr, Bósnia-Herzegovina, e os restos que permitem reconstituir o nome
    • "Aterrado", em Bossuet: lido ao pé da letra, "posto por terra"

    Freud (O chiste e sua relação com o inconsciente, Psicopatologia da vida cotidiana), Heine, Bossuet

  2. 220 nov. 1957
    O que resta da metáfora

    Se a metáfora cria sentido, o que sobra dela quando falha? Chiste e esquecimento de nome postos lado a lado.

    • O Prometeu mal acorrentado, de Gide, em que Zeus é um banqueiro
    • Quando a metáfora não se faz, ficam destroços que permitem achar o buraco
    • O resíduo da criação metafórica
    • Para que haja substituição, é preciso uma cadeia de significantes

    Freud, Heine, Gide, Mallarmé

  3. 327 nov. 1957
    A metonímia: as trinta velas

    A outra face do chiste. Lacan explica por que parte sempre do exemplo particular: é o exemplo, e não a classe, que ensina.

    • O bezerro de ouro, e a resposta de Heine a um rival: "este já passou um pouco da idade"
    • As "trinta velas" de O Cid: a parte pelo todo, a metonímia
    • "O primeiro voo da águia" — e vol, em francês, é voo e também roubo
    • É preciso introduzir o Outro como lugar que recebe o chiste

    Heine, Frédéric Soulié, Corneille (O Cid)

  4. 44 dez. 1957
    De onde vem o prazer do chiste

    A pergunta pela fonte do prazer obriga a introduzir o Outro.

    • O não-sentido nos engana tempo bastante para que um sentido se produza
    • A história do salmão com maionese: o homem que pediu dinheiro emprestado e é encontrado no restaurante
    • O desejo que passa deixa um circuito que insiste
    • Não há prazer do chiste sem alguém a quem contá-lo — e esse alguém é o Outro, com maiúscula

    Freud, Octave Mannoni, Odier

  5. 511 dez. 1957
    A batalha de Marengo

    Como o Outro pode aceitar um não-sentido e transformá-lo em achado — com a mais célebre das histórias de exame.

    • O candidato a quem perguntam sobre a batalha de Marengo e que descreve um cavalo empinado relinchando
    • O cômico, e o livro de Bergson sobre o riso
    • "Por que você me diz que vai a Cracóvia, se você vai mesmo a Cracóvia?" — a verdade usada para enganar
    • O pequeno outro e o grande Outro no chiste

    Freud, Bergson (O riso), Queneau

  6. 618 dez. 1957
    O cômico, o ingênuo e Arnolphe

    Último encontro do bloco do chiste. Para saber o que é o cômico, Lacan propõe ler comédias — e lê a Escola de mulheres, de Molière.

    • O chiste devolve um gozo a uma demanda insatisfeita
    • O riso dos adultos diante da criança que não entende por que riem: o chiste ingênuo
    • A Bubizin, palavra que uma menina inventa
    • Arnolphe, que cria Agnès na ignorância para casar com ela — e é, afinal, um verdadeiro apaixonado
    • A pedra atirada com um bilhete amarrado

    Molière (Escola de mulheres), Freud, Bergson

  7. 78 jan. 1958
    O Nome-do-Pai e a lei

    Volta das férias. Lacan comenta uma exposição de Gisela Pankow e nomeia o que autoriza o texto da lei.

    • A comunicação de Gisela Pankow e a escola da "comunicação" (Bateson)
    • O que autoriza a lei é um significante: o Nome-do-Pai, o pai simbólico
    • O inconsciente é um espaço "tipográfico", feito de letras
    • O Outro como tesouro dos significantes
    • O desejo volta ao sujeito transformado: por isso é sempre "enganado"
    • "Tu és aquele que me seguirás": a invocação

    Gisela Pankow, Bateson, Schreber

  8. 815 jan. 1958
    A metáfora paterna

    Antes da fórmula, um inventário das perguntas que os analistas fizeram ao Édipo.

    • "Vou tratar de questões de estrutura"
    • Existem neuroses sem Édipo?
    • Haverá, por trás do supereu paterno, um supereu materno ainda mais exigente?
    • A "carência paterna", tema da moda
    • O Édipo invertido, presente em toda parte e mal definido

    Freud, Melanie Klein, Odier, o pequeno Hans

  9. 922 jan. 1958
    Os três tempos do Édipo

    A fórmula da metáfora posta a funcionar: o Édipo e a castração se deixam articular a partir dela.

    • A criança não se relaciona com a mãe: relaciona-se com o desejo da mãe
    • Num primeiro tempo, ela se identifica ao falo que a mãe deseja
    • O pai priva de algo que só existe como símbolo
    • O pequeno Hans como contraprova
    • A saída: para o menino, identificar-se ao pai que tem; para a menina, reconhecer no homem quem tem

    o pequeno Hans, Jones, Freud

  10. 1029 jan. 1958
    O falo e o pai que interdita

    Falar da metáfora paterna é falar da castração. E o que acontece quando o pai é interditor demais?

    • O falo como objeto que circula por toda a cadeia de significações, como um furão
    • No segundo tempo, o pai aparece como interditor — mas a sua palavra chega pela boca da mãe
    • Alucinações que são mensagens num código novo
    • "É frequente que uma inversão sexual decorra da queda de um pai interditor demais"
    • O falo não é um "objeto parcial"

    Freud, Schreber

  11. 115 fev. 1958
    Alucinação e realidade

    A partir de um artigo de Charles Rycroft, Lacan volta à pergunta de Winnicott: como a criança distingue a alucinação da realidade?

    • Os processos primário e secundário
    • A fome insiste, porque a satisfação imaginada não a sacia
    • O objeto sexual pode ser, ele mesmo, ilusório
    • A pergunta de Winnicott, bem posta
    • O objeto metonímico: o que sempre escapa

    Charles Rycroft, Winnicott, Melanie Klein, Jones

  12. 1212 fev. 1958
    "Bate-se numa criança" e a fase fálica

    Leitura, em boa parte no original alemão, do texto de Freud sobre a fantasia de espancamento; e a abertura do dossiê da fase fálica.

    • Os três tempos da fantasia e a diferença entre menino e menina
    • Quem bate não é outra criança: é um adulto
    • "Assim ele desmentiu a realidade, mas salvou o próprio pênis"
    • A fase fálica, de Ernest Jones, no quadro

    Freud (Bate-se numa criança), Ernest Jones (A fase fálica)

  13. 135 mar. 1958
    O que dizem os analistas da fase fálica

    Depois de três semanas de pausa, Lacan diz o que separa Freud de toda a tradição: o desejo, que antes dele sempre foi reduzido ou disciplinado.

    • Antes de Freud, estudava-se o desejo para discipliná-lo
    • Jones lido em inglês: a fase fálica não é, para ele, uma etapa natural
    • Um caso de Karen Horney
    • Hélène Deutsch; e o artigo de Joan Rivière sobre a feminilidade como mascarada

    Ernest Jones, Karen Horney, Hélène Deutsch, Melanie Klein, Joan Rivière

  14. 1412 mar. 1958
    O vínculo com a mãe e a bissexualidade

    Freud, Sobre a sexualidade feminina, confrontado com Jones.

    • Jones tenta responder a Freud permanecendo perto da letra dele
    • Que alvos sexuais tem a menina no tempo da ligação exclusiva à mãe?
    • "A hipótese de uma bissexualidade inata é muito provável — mas difícil de provar"
    • O primeiro desejo de um pênis induzido pela frustração oral

    Freud (Sobre a sexualidade feminina), Jones, Melanie Klein, Hélène Deutsch, Brierley

  15. 1519 mar. 1958
    Identificação e ideal do eu

    Balanço da fase fálica — o falo não cabe numa lógica biológica porque é significante — e entrada na questão das identificações.

    • O falo precisa de alguma aptidão imaginária para exercer a sua função de significante
    • O ideal do eu nasce de uma identificação ligada ao Édipo
    • Hélène Deutsch e o masoquismo feminino
    • A paciente que, depois de um arroto, pensa satisfeita: "igualzinho ao papai"

    Hélène Deutsch, Karen Horney, Abraham

  16. 1626 mar. 1958
    Insígnias, castração, afânise

    Uma reação do auditório obriga Lacan a esclarecer o que dissera sobre certas análises de mulheres. Depois, a castração é retomada a partir de Totem e tabu.

    • O avanço da análise pode ameaçar um gozo conquistado
    • A identificação a certas insígnias
    • O medo da castração e o que se teme ainda antes dela
    • O totem como significante que ordena tudo, inclusive o sujeito
    • Por que Jones foi buscar a palavra grega aphanisis, desaparecimento

    Freud (Totem e tabu), Jones, Melanie Klein

  17. 1716 abr. 1958
    O sintoma como máscara do desejo

    Começo do terceiro trimestre. O que a descoberta do inconsciente abre — e o que ela limita no poder de curar.

    • Freud fala de realização de desejo no sonho
    • No sintoma há uma satisfação, mas às avessas
    • As interpretações "ao lado" de Freud com Dora
    • O sintoma vai no sentido do reconhecimento do desejo
    • O riso como primeira comunicação da criança com o que está além da presença
    • Haverá tantas máscaras quantas formas de insatisfação?

    Dora, Freud, Hegel

  18. 1823 abr. 1958
    Desejo e demanda: a divisão do eu

    Leitura do último texto de Freud, deixado inacabado, sobre a divisão do eu.

    • Sem distinguir desejo e demanda, a análise desliza para "frustrar ou gratificar"
    • A divisão do eu (Ichspaltung) na última reflexão de Freud
    • As consequências da diferença anatômica entre os sexos (1925)

    Freud (A divisão do eu no processo de defesa, 1938; Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, 1925)

  19. 1930 abr. 1958
    O sonho do salmão defumado

    A distinção entre desejo e demanda demonstrada num sonho de uma paciente de Freud.

    • O sonho: "quero dar um jantar, mas só tenho um pouco de salmão defumado"
    • Ela gostaria de comer caviar todas as manhãs — e pede ao marido que não lhe dê
    • Freud: "para que ela precisa de um desejo não realizado?"
    • A amiga, magra, que adora salmão defumado: o desejo da paciente passa pelo desejo da outra
    • Dora, em quem isso aparece em estado puro

    Freud (A interpretação dos sonhos), Dora

  20. 207 maio 1958
    O sonho da bela açougueira

    Outro sonho de histérica, em que o falo aparece como significante numa frase.

    • Se a relação entre homens e mulheres fosse simples, haveria ilhas de harmonia no mundo
    • O sonho: no mercado, a vendedora oferece uns legumes estranhos, escuros, amarrados
    • "Isso eu não conheço, isso eu não levo"
    • No falar vienense, dizer "o teu açougue está aberto" é avisar que a braguilha está aberta
    • A frase de Freud no sonho: "isso não se consegue mais"

    Freud (A interpretação dos sonhos), Breuer

  21. 2114 maio 1958
    O obsessivo e o objeto

    Lacan escreve no quadro as palavras alemãs do desejo e passa a criticar um relatório clássico sobre a neurose obsessiva.

    • Bedürfnis (necessidade), Forderung (demanda), Begierde e Wunsch (desejo)
    • O relatório de Maurice Bouvet sobre o eu na neurose obsessiva — que, na verdade, só fala da relação de objeto
    • Abraham e as fantasias de devorar o pênis
    • O obsessivo sempre à beira de destruir o mundo
    • O sonho da vela quebrada no castiçal

    Maurice Bouvet, Karl Abraham, Ruth Mack Brunswick, Freud

  22. 2221 maio 1958
    Fantasia, façanha, acting out

    O obsessivo visto pelas fantasias e pela relação com a permissão. O acting out entra com esse nome.

    • O obsessivo diante de um desejo que se esvai
    • A demanda pede sempre mais do que a satisfação
    • A fantasia como um cenário
    • O obsessivo está sempre pedindo uma permissão
    • Phyllis Greenacre e o acting out: um aviso, às vezes grave, dado fora da sessão

    Phyllis Greenacre, Abraham

  23. 234 jun. 1958
    Identificação, sugestão, transferência

    Entrada pela identificação em Psicologia das massas e análise do eu — preparação do ano seguinte.

    • Identificar-se a alguém no lugar de amá-lo
    • A sugestão nós a interpretamos — porque a transferência já está lá
    • César e o Rubicão: Kojève e o tempo da ação
    • O erro de técnica que traz para o presente a transferência homossexual do obsessivo

    Freud (Psicologia das massas), Kojève, Maurice Bouvet, Joan Rivière

  24. 2411 jun. 1958
    O losango e a hóstia

    Lacan explica o losango da fórmula da fantasia e lê o tratamento de uma obsessiva conduzido por um colega.

    • O losango (◊) e a relação do sujeito com o Outro
    • A linha do significante, fundo de toda demanda
    • A paciente católica e o corpo de Cristo na hóstia
    • O analista que "dá" o falo à paciente — e ela o devolve
    • Durante toda a análise, ele quis convencê-la de que ela queria ser homem; ela não se convenceu

    Maurice Bouvet, Freud

  25. 2518 jun. 1958
    Interpretações inexatas

    No aniversário da fundação da Sociedade Francesa de Psicanálise, Lacan comenta um artigo de Edward Glover sobre o efeito das interpretações erradas.

    • Os efeitos terapêuticos da interpretação inexata, de Glover
    • Uma interpretação muito falsa não tem efeito; uma ligeiramente inexata pode atrapalhar
    • O desaparecimento dos sintomas não basta para avaliar uma análise
    • "O médico encoraja o paciente demonstrando a própria capacidade de recalque"

    Edward Glover, Joan Rivière, Abraham, Jones

  26. 2625 jun. 1958
    A demanda do obsessivo e o Nome-do-Pai

    Penúltima lição. O desejo do obsessivo e a linha do significante no esquema recebem a sua definição.

    • A demanda do obsessivo é sentida pelo Outro como insistente demais
    • A necessidade de destruir o desejo do Outro
    • A linha do significante é "estruturada como uma linguagem"
    • O Nome-do-Pai como suporte da cadeia significante, e a fórmula da metáfora paterna
    • Por que, para o neurótico, "isso fala" no inconsciente, e para o psicótico, fora

    Maurice Bouvet, Freud, Schreber

  27. 272 jul. 1958
    Formações: formas, relações, talvez topologia

    Última lição. Lacan explica o título do ano. As transcrições anexam a esta lição o texto alemão do livro de Freud sobre o chiste.

    • "Formações": formas, relações, talvez topologia — palavras que ele evitara usar de saída
    • Não se entende o inconsciente apenas por tensões que amadurecem do pré-genital ao genital
    • Em anexo, O chiste e sua relação com o inconsciente, no original alemão

    Freud (O chiste e sua relação com o inconsciente, 1905)

Armadilhas. (a) Os três tempos do Édipo não são fases do desenvolvimento: são momentos lógicos, e podem coexistir. (b) A metáfora paterna não descreve uma família: é uma operação significante. (c) "Ser o falo" e "ter o falo" são posições, não atributos de sexo.

Antes / depois. Depois: "A significação do falo", "A direção do tratamento" e "Subversão do sujeito" — três dos textos mais importantes dos Écrits, todos derivados deste seminário.

S7L'éthique de la psychanalyseA ética da psicanálise 1959–1960 · 27 lições

Ficha. 27 sessões. Expõem Lefèvre-Pontalis (2 de dezembro de 1959), Kaufmann (2 de março, 27 de abril e 15 de junho de 1960) e Hubert (9 de março de 1960). O ano tem focos nítidos: das Ding em dezembro e janeiro; Sade no fim de março; Antígona de maio a junho; Kant em 15 de junho.

A pergunta. Qual é a ética própria da psicanálise, se ela não pode ser nem a do bem, nem a do prazer, nem a da adaptação? A resposta — "não ceder de seu desejo" — só é compreensível depois de toda a construção sobre das Ding.

O argumento

Um dos seminários mais lidos do primeiro ensino — e dos mais mal citados. A fórmula que dele se guarda, a de que a única coisa de que se pode ser culpado é de ceder de seu desejo, só aparece na última lição, e só se entende depois de uma construção que ocupa o ano inteiro. Antes dela, é preciso passar por das Ding, "a Coisa".

Lacan começa criticando a ética como disciplina do bem: Aristóteles procurava a conduta conforme à razão; o século XVIII tentou libertar o desejo e fracassou; Freud, no Mal-estar na civilização, mostra que a cultura exige demais e que a culpa age sem que o sujeito saiba. Lacan vai buscar num manuscrito de Freud de 1895 uma palavra quase esquecida: das Ding, um ponto estrangeiro em torno do qual gira toda a vida psíquica. Está no centro, mas por estar excluído — Lacan cria para isso a palavra extimidade.

De janeiro a março, o ano se torna uma teoria da sublimação: elevar um objeto à dignidade da Coisa. Os exemplos são todos feitos em torno de um vazio: o vaso modelado pelo oleiro, uma coleção de caixas de fósforos, e o amor cortês dos trovadores, que torna inacessível a Dama para que ela venha ocupar o lugar vazio.

De março a maio, a virada ética. O mandamento "amarás o teu próximo como a ti mesmo" é aquilo diante do que Freud recua — e Lacan mostra por quê: no próximo há a maldade, o gozo. É por aí que Sade entra, não como curiosidade, mas como o avesso de Kant.

O último bloco é Antígona, a heroína de Sófocles que enterra o irmão contra a lei da cidade. Ela atravessa um limite, e é dessa travessia que nasce o efeito de beleza. O ano se fecha com Édipo em Colono, o rei Lear e a distinção entre o "serviço dos bens" e a dimensão trágica da vida.

O que se encontra aqui

Das Ding
A Coisa, o vazio central: 9 e 16 de dezembro de 1959, e depois o ano inteiro.
A Coisa no centro, excluída
23 de dezembro de 1959.
A caixa de fósforos
A coleção como forma simples de sublimação: 20 de janeiro de 1960.
O vaso do oleiro
Criar um objeto em torno de um vazio: 27 de janeiro de 1960.
A anamorfose
Os embaixadores, de Holbein, e a arquitetura como organização do vazio: 3 de fevereiro de 1960.
O amor cortês e a "extimidade"
Os trovadores e a Dama: 10 de fevereiro de 1960.
Arnaut Daniel
Um poema obsceno que mostra que a sublimação não precisa ser "elevada": 9 de março de 1960.
Amar o próximo
O mandamento diante do qual Freud recua, e "o gozo é um mal": 23 e 30 de março de 1960.
Sade
A fábula sadiana da destruição: 30 de março e 4 de maio de 1960.
Antígona
De 25 de maio a 8 de junho de 1960: a catarse, a Áte, a travessia do limite.
O belo e o sublime
A Crítica do juízo, de Kant, apresentada por Pierre Kaufmann: 15 de junho de 1960.
Édipo em Colono e o rei Lear
29 de junho de 1960.
"Ceder de seu desejo"
A fórmula, enunciada uma única vez, na última lição: 6 de julho de 1960.

Lição por lição 27 sessões

  1. 118 nov. 1959
    Por que "ética", e não "moral"

    Abertura, com hesitação declarada. Lacan explica a escolha da palavra e o que pretende pôr sob ela.

    • A análise explorou como nunca o "universo da falta" — e da culpa
    • A tentativa de libertar o desejo, no século XVIII, fracassou
    • O Mal-estar na civilização: a cultura pede ao homem mais do que ele pode dar
    • Bentham e as "ficções", que não querem dizer mentira
    • No horizonte, o masoquismo

    Aristóteles, Bentham, Freud (O mal-estar na civilização), Jones

  2. 225 nov. 1959
    Princípio do prazer, princípio de realidade

    Aristóteles e o manuscrito de Freud de 1895 lidos lado a lado.

    • O ethos e o "discurso correto" em Aristóteles
    • A questão ética já supõe o discurso
    • Freud: "o mais desagradável são os humores (Stimmungen)"
    • Para Freud, adaptar-se à realidade nunca foi sinônimo de um "bem"

    Aristóteles (Ética a Nicômaco), Freud (Projeto, O mal-estar)

  3. 32 dez. 1959
    Lefèvre-Pontalis sobre o Projeto

    Primeira exposição do ano, sobre o manuscrito de Freud de 1895, publicado junto com as cartas a Fliess.

    • Por que partir de um texto que ficou fora das obras completas
    • O aparelho de neurônios, e a crítica de que seria só fisiologia
    • O processo primário busca reencontrar a mesma percepção; o secundário, o mesmo pensamento
    • A fábula do escorpião e da rã
    • As inscrições em lugares diferentes, e o inconsciente

    Jean-Bertrand Lefèvre-Pontalis, Freud (Projeto), Fliess

  4. 49 dez. 1959
    Das Ding

    A lição decisiva do ano. O alemão tem duas palavras para "coisa", das Ding e die Sache; o francês — e o português — só uma. Lacan extrai daí um conceito.

    • Ding e Sache: a coisa e a coisa representada
    • A origem da palavra Ding: a assembleia em que se julga
    • Freud escreve Sachvorstellung, e não Dingvorstellung
    • As coisas do mundo humano são coisas de um mundo feito de palavras
    • O mundo exterior só é percebido sob uma forma escolhida

    Freud (Projeto, A negação), Lefèvre-Pontalis

  5. 516 dez. 1959
    Os mandamentos e a dor

    O que a Coisa comanda. Da consciência moral inconsciente aos Dez Mandamentos.

    • A psicanálise não deu menos lugar à instância moral que aos instintos
    • Das Ding como termo estrangeiro na origem da organização psíquica
    • A dor como limite
    • O pequeno "ne" do francês, que mostra a discordância entre o que se diz e quem diz
    • Os Dez Mandamentos, todos negativos

    Freud (A negação), Lévi-Strauss, André Breton

  6. 623 dez. 1959
    O bem, o mal e a lei do capricho

    Lacan explica a si mesmo "para o simplório" — e chega à formulação mais nítida do lugar da Coisa.

    • A Coisa está no centro por estar excluída
    • O bem-estar (Wohl) e o bem, em Kant
    • Uma lei de capricho, de oráculo, em que o sujeito não tem garantia
    • O "objeto mau" de Melanie Klein
    • A filosofia na alcova, de Sade, que começa pelo elogio da calúnia

    Kant, Sade (A filosofia na alcova), Melanie Klein

  7. 713 jan. 1960
    A sublimação

    Depois das férias, Lacan nomeia enfim o termo que vinha evitando.

    • A pastoral, recurso de toda civilização contra o próprio mal-estar
    • Trieb, a pulsão, traduzida por "deriva", como o drive inglês
    • Lutero: "vocês são o dejeto que cai do ânus do diabo"
    • O que importa é o alvo da pulsão, e não o objeto
    • A sublimação se situa entre o objeto narcísico e das Ding

    Lutero, Erasmo, Freud, São Paulo

  8. 820 jan. 1960
    A caixa de fósforos

    O exemplo mais simples e mais desconcertante da sublimação: uma coleção.

    • A cólera, e o pouco que a análise disse sobre ela
    • A Coisa como aquilo pelo que alguém pode preferir a morte
    • O exemplo de Kant: o homem que deve escolher entre uma noite com a dama e a forca
    • A coleção de caixas de fósforos: algo mais do que o seu uso
    • Uma satisfação que não pede nada a ninguém

    Kant, Ella Sharpe, Glover, Sterba

  9. 927 jan. 1960
    O vaso do oleiro

    Criar é modelar um vazio. A lição parte de um caso de Karin Michaelis e chega a Heidegger.

    • "O espaço vazio": a mulher que cobre as paredes de casa com quadros
    • A Coisa está velada, e por isso é preciso contorná-la
    • O oleiro modela o vaso em torno de um vazio: é a forma mais antiga de criar
    • Um pote de mostarda é, essencialmente, um pote vazio
    • A criação a partir do nada

    Karin Michaelis, Melanie Klein, Glover, Heidegger

  10. 103 fev. 1960
    O "sim", a arquitetura e a anamorfose

    Lacan adia o amor cortês e faz uma sessão de discussão: sobre Spitz, sobre o "sim" e o "não", e sobre a arquitetura.

    • Contra Spitz: o gesto decisivo está no "sim", não no "não"
    • A Coisa é feita para ser esquecida — e para retornar
    • O vazio da Coisa, como o vazio de um pote
    • Os embaixadores, de Holbein, e a mancha que só se vê de lado: a anamorfose
    • A arquitetura como organização em torno de um vazio

    René Spitz, Holbein, Lucien Febvre, Laplanche, Smirnoff

  11. 1110 fev. 1960
    O amor cortês

    A lição exemplar sobre a sublimação: a poesia dos trovadores e o lugar que ela dá à Dama.

    • As pinturas da caverna de Altamira, a partir de Ella Sharpe
    • A Coisa como "extimidade": exterioridade íntima
    • Trovadores, trouvères, Minnesänger: os séculos XII e XIII
    • Guilherme de Poitiers, o primeiro dos trovadores
    • A Dama, aquela que domina, cercada de obstáculos para que fique inacessível

    Guilherme de Poitiers, Bernart de Ventadorn, Ella Sharpe, Holbein, Paul Éluard

  12. 122 mar. 1960
    Kaufmann sobre Bernfeld

    Pierre Kaufmann apresenta o artigo de Siegfried Bernfeld sobre a sublimação.

    • A sublimação aplicada à criação social
    • Ihering, Vierkandt, Simmel
    • A distância entre sujeito e objeto
    • O jovem Goethe, como modelo de força criadora

    Pierre Kaufmann, Siegfried Bernfeld, Simmel, Ihering, Vierkandt, Goethe

  13. 139 mar. 1960
    A sublimação não é o que se pensa

    A contraprova: um poema obsceno do trovador Arnaut Daniel, lido por inteiro.

    • A sublimação não se dá obrigatoriamente no "elevado"
    • O poema: Bernart que não deve "tocar a trompa"
    • Ele sobreviveu em vinte manuscritos, quando outros poemas do autor estão em dois ou três
    • A filologia de Hans Sperber sobre as palavras de sentido sexual

    Arnaut Daniel, Hans Sperber, Bernart de Ventadorn, Jones, Mêncio

  14. 1416 mar. 1960
    Moisés e o monoteísmo

    Da crítica ao método de Sperber ao livro que Freud remoeu durante anos.

    • Desde Totem e tabu, Freud pensava na história de Moisés
    • A mensagem monoteísta e o seu valor, para Freud
    • O sagrado deixa marcas: basta pouco para que se erga um templo
    • Moisés, o egípcio, e Moisés, o midianita
    • A mensagem transmitida porque ficou ligada ao assassinato do grande homem

    Freud (Moisés e o monoteísmo, Totem e tabu), Sperber, Akhenaton

  15. 1523 mar. 1960
    Amar o próximo

    O mandamento diante do qual Freud recua, no Mal-estar.

    • A morte de Deus Pai
    • O Deus de um solitário — Espinosa, Freud — nada tem a ver com o Deus dos crentes
    • O "louco" e o "patife" do teatro elisabetano
    • O gozo nos continua interditado, mesmo depois que "Deus está morto"
    • "O gozo é um mal", porque comporta o mal do próximo

    Freud (O mal-estar na civilização), Espinosa, Kant, Sade

  16. 1630 mar. 1960
    Sade e o próximo

    Sade não como curiosidade pitoresca, mas como aquele que revela a Lei.

    • A Lei é "amarás o teu próximo como a ti mesmo"
    • Freud recua diante dele porque o acha desumano
    • "Mesmo", em latim metipse
    • Os abusos dos senhores contra os camponeses, narrados por Fléchier
    • Maurice Blanchot sobre Sade
    • O parentesco entre a relação sádica e as defesas do obsessivo

    Sade, Maurice Blanchot, Esprit Fléchier, Freud

  17. 1727 abr. 1960
    Bernfeld: energia e pulsão

    Kaufmann apresenta dois artigos de Bernfeld sobre a pulsão de morte pensada com a física.

    • A pulsão como energia e como história
    • O "princípio de Nirvana"
    • A pulsão definida na linguagem da termodinâmica
    • O homem não tende à morte como acontecimento

    Pierre Kaufmann, Siegfried Bernfeld, Le Chatelier, Helmholtz

  18. 184 maio 1960
    A fábula de Sade

    A pulsão retomada pela sua vertente histórica, e a "fábula" sadiana como exemplo.

    • A pulsão insiste porque algo foi memorizado
    • Em Sade, os crimes do homem mantêm o equilíbrio do universo
    • Só a destruição mereceria o nome de crime
    • A pulsão de morte, em Sade, é uma ideia de criação
    • "Desconfiem do pensamento evolucionista"

    Sade, Marx, Horácio, Hegel, Bernfeld

  19. 1911 maio 1960
    O bem e o serviço dos bens

    A lição sobre o bem — e sobre a imprudência de prometer bens ao paciente.

    • Não prometer ao paciente o acesso aos bens que o tentam
    • A distância entre os desejos e as necessidades
    • São Martinho que corta o manto em dois
    • O tecido que mostra e esconde
    • O bem está em poder dispor de algo

    Freud (Projeto), Bentham, Sartre, Edmond Rostand

  20. 2018 maio 1960
    Atravessamos a linha?

    Com os discursos de guerra fria ao fundo, Lacan aborda a beleza pelo lado da destruição.

    • Uma catástrofe futura não terá motivo de prazer: será feita por burocratas
    • O potlatch: destruir bens por prestígio
    • A pulsão de morte e o masoquismo primário
    • Antígona anunciada

    Sade, Hegel, Sófocles

  21. 2125 maio 1960
    Antígona: a catarse relida

    Primeira das lições sobre Antígona. Antes, a história da palavra catarse.

    • A tragédia está na raiz da experiência analítica, mais até que o Édipo
    • Aristóteles: a tragédia produz, pelo temor e pela piedade, a catarse das paixões
    • Na Política, a catarse aparece a propósito da música
    • A leitura médica da catarse, de Jacob Bernays (1857)

    Aristóteles (Poética, Política), Jacob Bernays, Hegel, Goethe

  22. 221 jun. 1960
    Antígona e Creonte

    A estrutura da peça: nem Antígona nem Creonte parecem sentir temor ou piedade.

    • Antígona e a irmã Ismene
    • As leis não escritas dos deuses
    • O guarda que conta como o corpo foi descoberto, e a poeira que encheu o céu
    • O coro e o "elogio do homem"

    Sófocles (Antígona), Sade, Kant

  23. 238 jun. 1960
    Para além do limite

    Lacan indica os versos a ler e faz a demonstração central: Antígona atravessa uma fronteira.

    • "Toma coragem, vive; quanto a mim, há muito minha alma está morta e só serve aos mortos"
    • Ektos atas: para além da Áte, do limite
    • Antígona escolhe ser a guardiã do ser do irmão criminoso
    • As núpcias de Dioniso e Ariadne, no horizonte da cena

    Sófocles (Antígona, Ájax, Electra, Filoctetes), Karl Reinhardt, Heráclito

  24. 2415 jun. 1960
    Kant: o belo e o sublime

    Pierre Kaufmann apresenta a Crítica do juízo a partir de Werther.

    • A imagem de Antígona faz parte da nossa moral, mesmo sem saber
    • O efeito de belo nasce da relação do herói com o limite
    • Werther e o sentimento da beleza
    • O belo e o sublime em Kant

    Kant (Crítica do juízo), Goethe (Werther), Pierre Kaufmann

  25. 2522 jun. 1960
    Os sapatos de Van Gogh

    O analista paga com palavras, com a pessoa e com um juízo sobre a sua ação. E o que faz de um objeto uma obra.

    • O analista é desapossado pela transferência
    • O que nos pedem é a felicidade
    • A sublimação como satisfação da pulsão sem recalque
    • Um par de sapatos à porta de um hotel — e os velhos sapatos pintados por Van Gogh
    • Dioniso e Heráclito

    Kant, Van Gogh, Heráclito

  26. 2629 jun. 1960
    Édipo em Colono e o rei Lear

    Penúltima lição. A questão é a relação de cada um com o próprio desejo, no curto espaço entre nascer e morrer.

    • O desejo tem uma relação fundamental com a morte
    • Édipo renuncia àquilo que o capturou: a felicidade
    • O rei Lear, que acha que foi feito para ser amado
    • Quem avança nessa zona avança sozinho e traído
    • As últimas palavras de Édipo: mè phunai, "melhor não ter nascido"

    Sófocles (Édipo em Colono), Shakespeare (Rei Lear), Jones, Melanie Klein

  27. 276 jul. 1960
    Ceder de seu desejo

    Última lição. É aqui, e só aqui, que a fórmula é dita — ao fim de todo o percurso.

    • A ética é um juízo sobre a nossa ação
    • Mêncio: a bondade do homem é natural, como uma montanha coberta de árvores
    • O "serviço dos bens" e a dimensão trágica da vida
    • "A única coisa de que se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo"
    • O herói é aquele que pode ser traído impunemente
    • O filme Nunca aos domingos, de Jules Dassin

    Mêncio, Sófocles, Kant, Jules Dassin

Armadilhas. (a) "Não ceder de seu desejo" não é um imperativo de autenticidade nem uma licença: é uma proposição sobre a culpa. (b) Sublimação não é dessexualização. (c) Das Ding não é um trauma nem uma lembrança: é um lugar vazio, e é da ordem do real. (d) O seminário nunca foi publicado por Lacan em vida sob sua forma; é o primeiro que Miller estabeleceu, e a fidelidade do texto é objeto de discussão.

Antes / depois. Depois: "Kant avec Sade" (1962), escrito como prefácio recusado e publicado nos Écrits.

S10L'angoisseA angústia 1962–1963 · 25 lições

Ficha. 25 sessões. Um dos seminários mais bem construídos e mais úteis na clínica. O acting out e a passagem ao ato ocupam janeiro de 1963; duas lições de fevereiro são dadas por Granoff, Perrier e Piera Aulagnier; a topologia (cross-cap, banda de Möbius) aparece em janeiro.

A pergunta. O que é a angústia, se ela não é sem objeto? Contra toda a tradição — inclusive parte da freudiana — Lacan sustenta que a angústia tem um objeto, e que esse objeto é o a.

O argumento

De todos os seminários, este é um dos mais bem construídos e dos mais úteis na clínica. A tese cabe numa linha e leva o ano inteiro para ser conquistada: a angústia não é sem objeto.

A tradição — e em parte o próprio Freud — diz que a angústia é um medo sem objeto. Lacan chama isso de "canção", parecida com a que a criança canta para se acalmar. E corrige pela negativa, de propósito: não diz que a angústia "tem" um objeto; diz que ela não é sem objeto. Esse objeto existe, mas não se alcança como os outros: não aparece no espelho, não se representa, não se nomeia. É o objeto a.

Por isso é também o seminário em que o objeto a ganha forma acabada: ele passa a ser causa do desejo, e não o seu alvo — um resto, algo que se destaca do corpo e cai. Daí a série que Lacan completa: o seio, as fezes e mais dois que ninguém havia isolado, o olhar e a voz.

O ano se organiza em torno de um quadro que distribui inibição, sintoma e angústia, e que serve para distinguir o que não deve ser confundido — sobretudo o acting out, uma cena endereçada ao Outro, e a passagem ao ato, uma saída de cena. E é cheio de clínica e de cultura: o conto O homem da areia, de Hoffmann; casos de Freud; uma longa discussão sobre a contratransferência; Don Juan; a circuncisão; o chifre de carneiro que se toca no ano-novo judaico.

A angústia, conclui Lacan, não aparece quando o objeto falta, mas quando a falta falta — quando não há mais vazio onde o desejo possa se sustentar.

O que se encontra aqui

"Que quer ele de mim?"
A pergunta diante do desejo do Outro, na abertura, 14 de novembro de 1962.
A outra cena
O inconsciente como cena, e Hamlet: 28 de novembro de 1962.
O estranho (unheimlich)
O homem da areia e o lugar onde a falta deveria estar: 5 de dezembro de 1962.
A angústia "não engana"
19 de dezembro de 1962 e 23 de janeiro de 1963.
A causa do desejo
O objeto a passa ao centro: 16 de janeiro de 1963.
Acting out e passagem ao ato
16 e 23 de janeiro de 1963.
"Quando a falta falta"
30 de janeiro de 1963.
A contratransferência
Duas lições de Granoff, Perrier e Piera Aulagnier sobre Margaret Little, Lucy Tower e outros: 20 e 27 de fevereiro de 1963.
Medo e angústia
6 e 13 de março de 1963, com Tchékhov e Zurbarán.
Don Juan
20 de março de 1963.
A circuncisão
19 de dezembro de 1962, 27 de março e 8 de maio de 1963.
O seio, o olhar, a voz
As formas do objeto a: 15, 22 de maio e 5 de junho de 1963.
O shofar
O chifre de carneiro e a voz: 22 de maio de 1963.
O objeto que se cede
26 de junho e 3 de julho de 1963.
O desejo do analista
A pergunta com que o ano termina: 3 de julho de 1963.

Lição por lição 25 sessões

  1. 114 nov. 1962
    Emoção, perturbação

    Abertura. Alguém lhe disse que o tema não renderia muito; Lacan promete provar o contrário — e começa por um dicionário etimológico.

    • A angústia é o ponto onde se encontra tudo o que veio antes no ensino
    • "Que quer ele de mim?": a pergunta diante do desejo do Outro
    • Freud, Inibição, sintoma e angústia: o título como palavra de ordem
    • Sobre a angústia não há uma rede: ela está no vazio entre as malhas
    • O embaraço, a emoção e a palavra francesa émoi (perturbação)
    • A cólera: "quando os pinos não entram nos buracos"

    Freud (Inibição, sintoma e angústia), Aristóteles (Retórica), Sartre, Heidegger

  2. 221 nov. 1962
    Desejo de desejo

    O que é ensinar, e onde Lacan se separa de Hegel.

    • Não fazer um catálogo dos afetos
    • Rapaport, e a velha divisão entre as paixões em Santo Tomás
    • O "desejo de desejo" de Hegel: desejar que um outro me deseje
    • Onde Lacan se separa: no meu desejo, sou para o Outro um objeto — e isso me marca de finitude

    Hegel (Fenomenologia do espírito), David Rapaport, Kierkegaard, Lévi-Strauss

  3. 328 nov. 1962
    A outra cena

    O inconsciente como lugar — "a outra cena", diz Freud a propósito dos sonhos.

    • O sujeito se constitui no lugar do Outro
    • A estrutura não é a cópia do cérebro (a propósito de O pensamento selvagem)
    • A cena e o espectador: dois lugares distintos
    • As datas que se repetem e marcam um dia do calendário
    • Hamlet, e a leitura de Otto Rank
    • "Avanço mascarado", diz Descartes

    Freud (A interpretação dos sonhos), Lévi-Strauss, Shakespeare (Hamlet), Otto Rank, Descartes

  4. 45 dez. 1962
    O estranho

    A lição em que a angústia ganha um lugar: ela aparece onde algo vem ocupar o lugar da falta.

    • O lugar marcado pela castração, e a angústia que ali aparece
    • O texto de Freud sobre o "estranho" (Das Unheimliche) e a análise das palavras
    • Heim: a casa do homem
    • O homem da areia, de Hoffmann, e os olhos roubados
    • O perverso e o neurótico diante da fantasia
    • O sonho da bela açougueira, de novo

    Freud (O estranho, A interpretação dos sonhos), E. T. A. Hoffmann, Breuer

  5. 512 dez. 1962
    Pistas falsas

    Contra a acusação de "filosofia": uma lição sobre laboratórios, animais e o que só o homem faz com os rastros.

    • Se a psicanálise questiona o desejo de conhecer, ela está aquém do conhecimento
    • As "neuroses" produzidas em animais de laboratório
    • Desde que há aparelhos montados, há o Outro
    • Por que os analistas se interessam tão pouco pelo pesadelo
    • Um animal apaga rastros; só o homem deixa rastros falsos para que se pense que são falsos
    • Pascal e o "horror ao vazio"

    Pascal, Kurt Goldstein, Pavlov, Freud

  6. 619 dez. 1962
    O quadro na janela

    Uma lição de método — e a primeira entrada da circuncisão.

    • Aprender a reconhecer, no lugar certo, o que aparece na experiência
    • A fantasia como um quadro que se coloca no caixilho de uma janela
    • O sonho do Homem dos Lobos: os lobos brancos imóveis na árvore, vistos pela janela aberta
    • A relação, mal estabelecida, entre a circuncisão e a castração
    • A angústia é "o que não engana"

    Freud (O Homem dos Lobos), Ferenczi

  7. 79 jan. 1963
    O vaso, a luva, a banda

    Um termo de Freud mal traduzido, e uma lição de topologia sobre o que o espelho não mostra.

    • Freud pede "representações abstratas" que ponham ordem na observação
    • O corpo não cabe nas categorias de Kant
    • O que importa num buraco é a sua borda
    • O espelho troca a luva direita pela esquerda
    • A banda de Möbius: uma superfície que só tem um lado e uma borda

    Freud (Novas conferências), Möbius

  8. 816 jan. 1963
    O objeto e a causa do desejo

    O objeto a entra no centro do ano. E o sádico não busca a dor do outro, mas a sua angústia.

    • A angústia é a tradução subjetiva do objeto a
    • O equívoco de pensar o "objeto do desejo" como o objeto de uma intenção
    • No fetiche, o objeto aparece como causa do desejo
    • O sádico procura a angústia do outro, e não o seu sofrimento
    • O caso da jovem homossexual e o "deixar-se cair"
    • Só estamos de luto por alguém de quem podemos dizer: "eu era a sua falta"

    Freud (o caso da jovem homossexual, Dora), Husserl, Sade, Kant

  9. 923 jan. 1963
    Acting out e passagem ao ato

    A distinção clássica, estabelecida de uma vez — com uma bofetada como exemplo.

    • O a como resto da relação com o Outro
    • A passagem ao ato: deixar-se cair, sair de cena — a jovem homossexual que se joga na linha do trem
    • O acting out: uma cena mostrada ao Outro, que pede leitura
    • O fantasma do corpo despedaçado
    • O caso de "plágio" de Ernst Kris e o artigo de Phyllis Greenacre

    Freud, Ernst Kris, Phyllis Greenacre, Ernest Jones

  10. 1030 jan. 1963
    Quando a falta falta

    A tese ganha a sua forma completa — e o luto é redefinido.

    • "A angústia é um medo sem objeto": uma canção
    • A angústia nos introduz à função da falta
    • O catálogo que diz "faltam as gravuras de tal a tal"
    • O cross-cap
    • A privação é algo real
    • Margaret Little e "a resposta total do analista"

    Margaret Little, Szasz, Freud (Luto e melancolia)

  11. 1120 fev. 1963
    A contratransferência em exame (I)

    Lição dada por Wladimir Granoff e François Perrier, a pedido de Lacan: um percurso pela literatura inglesa e americana.

    • Separar, nesses artigos, o que interessa ao ensino de Lacan
    • Margaret Little: a satisfação do analista comparada a fazer uma refeição
    • Lucy Tower e as viradas de dois tratamentos depois de um acting out da analista
    • Thomas Szasz e o poder do analista
    • A conclusão de Tower: o amor de contratransferência não é menos verdadeiro que outro amor

    Margaret Little, Lucy Tower, Thomas Szasz, Barbara Low, Wladimir Granoff, François Perrier

  12. 1227 fev. 1963
    A contratransferência em exame (II)

    Piera Aulagnier apresenta o que extraiu de Margaret Little. Lacan abre falando das estações de esqui e dos campos de concentração.

    • A crítica de Lacan à "moralização" que, depois da guerra, encobriu a questão dos campos
    • A definição de contratransferência em Margaret Little
    • A responsabilidade do analista com certos pacientes
    • Szasz e Barbara Low

    Margaret Little, Lucy Tower, Szasz, Barbara Low, Piera Aulagnier

  13. 136 mar. 1963
    Medo e angústia

    Contra o lugar-comum: a angústia é diante de alguma coisa.

    • "A angústia não é o que se pensa"
    • O apêndice de Inibição, sintoma e angústia: a angústia é vor etwas, diante de algo
    • Os contos de Tchékhov sobre o susto
    • Santa Luzia e Santa Ágata, pintadas por Zurbarán, que levam os próprios olhos e seios numa bandeja
    • O que se busca no Outro: uma resposta à queda do sujeito

    Freud (Inibição, sintoma e angústia), Tchékhov, Zurbarán, Sade

  14. 1413 mar. 1963
    Gozo e angústia

    Três frases em russo trazidas pelos ouvintes, e o objeto a como metáfora do sujeito do gozo.

    • "O medo aumenta os objetos"; "temo que ele venha"; "temo que ele não venha"
    • As palavras do medo são difíceis de traduzir
    • O professor faz "colagens"
    • Sadismo e masoquismo, recapitulados
    • As "caducas": o que cai do corpo, como a placenta

    Tchékhov, Freud, Zurbarán

  15. 1520 mar. 1963
    Don Juan

    O gozo, retomado da Ética, e a analista Lucy Tower lida através da figura de Don Juan.

    • O gozo é independente da articulação do desejo — e é nessa falha que a angústia se produz
    • No campo do gozo, a mulher está menos presa
    • Tirésias, que foi homem e mulher, e foi cegado por Juno
    • O livro de Otto Rank sobre Don Juan
    • Lucy Tower e a eficácia de manter as distâncias

    Otto Rank, Lucy Tower, Sartre, T. S. Eliot, Ovídio

  16. 1627 mar. 1963
    Séfora e a faca de pedra

    A circuncisão como marca que ordena o lugar da castração.

    • O vazio do vaso e o homo faber
    • Uma pergunta a Conrad Stein sobre Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo
    • A circuncisão egípcia
    • Êxodo 4: Séfora circuncida o filho e toca Moisés com o prepúcio

    Bíblia (Êxodo), Freud (Moisés e o monoteísmo), Conrad Stein, Voltaire

  17. 178 maio 1963
    As mil estátuas

    Depois de uma pausa, uma lição sobre o Japão e sobre um objeto comovente sem relação com o sexo.

    • Jeremias: "castigarei todo circuncidado em seu prepúcio"
    • Um "pathos do corte"
    • As mil estátuas de Buda num templo de Kyoto
    • Kannon, figura budista que se torna feminina
    • Por que o objeto mais comovente pode aparecer sem relação com o sexo?

    Bíblia (Jeremias), budismo japonês, Valéry

  18. 1815 maio 1963
    O seio e a borda

    Por que a lista dos objetos de Freud precisa ser completada — e uma lição de anatomia comparada.

    • Objeto oral, anal, fálico
    • O a como resto
    • O desejo ligado ao corte
    • Os lábios e a função de uma borda
    • O ornitorrinco e a equidna, mamíferos que põem ovos

    Freud, Descartes

  19. 1922 maio 1963
    O shofar

    O andar da voz: o chifre de carneiro tocado no ritual judaico.

    • Cinco formas do objeto, e um tipo de angústia para cada uma
    • Theodor Reik e os rituais
    • O shofar: a voz destacada do corpo que a emite
    • Moisés, o bezerro de ouro e a crítica a Reik
    • A memória do sacrifício de Isaac

    Theodor Reik, Bíblia (Êxodo, Gênesis 22), Lévi-Strauss

  20. 2029 maio 1963
    Os impasses do desejo

    Lição sobre como ensinar — e sobre o que não existe: a "fusão" dos sexos.

    • O avanço de uma ciência passa por remanejar os seus conceitos
    • A angústia de castração como passagem obrigatória do ensino
    • A cena primária do Homem dos Lobos
    • Robertson Smith e o sacrifício
    • A pretensa fusão genital

    Freud (O Homem dos Lobos, Totem e tabu), Robertson Smith, T. S. Eliot, Joan Riviere

  21. 215 jun. 1963
    A voz e o ressoador

    O silêncio que se seguiu à lição anterior prova algo. Depois, por que a voz é um objeto.

    • Ninguém aplaudiu — e isso confirma: tocar a angústia de castração produz eco
    • "Criou-os homem e mulher"
    • O macaco de Köhler resolve problemas, desde que veja o alvo
    • A voz destacada do corpo, e o ouvido como ressoador
    • Isakower

    Ernest Jones, Köhler, Yerkes, Isakower

  22. 2212 jun. 1963
    O a é causa, não objeto

    A lição da torneira: uma crítica de Piaget e a distinção entre causa e objeto do desejo.

    • A angústia está ligada ao desejo do Outro
    • O objeto a não é o objeto do desejo — é a sua causa
    • "Vou verificar se a porta está fechada, ou a torneira..."
    • O experimento de Piaget sobre a torneira explicado a crianças
    • "A profunda maldade de toda posição pedagógica"

    Piaget, Binet, Kant, Freud

  23. 2319 jun. 1963
    O objeto anal

    Das fezes ao ateísmo: o obsessivo e o que ele exige de Deus.

    • Os objetos ligados a estágios, e a outra maneira de pensá-los
    • A ligação entre o anal e o olhar
    • Jones e a concepção da Virgem pelo ouvido
    • Voltaire, deísta, que achava Diderot louco por negar Deus
    • O obsessivo exige um Deus que exista para poder destituí-lo

    Ernest Jones, Karl Abraham, Diderot, Voltaire, Cyril Tourneur

  24. 2426 jun. 1963
    O objeto que se cede

    De volta ao quadro do começo do ano, e a descoberta que o organiza: o a é aquilo que se cede.

    • O quadro de inibição, sintoma e angústia
    • Diante do trauma, o sujeito cede — e cede algo
    • Todos os objetos a são objetos cessíveis
    • O presente da criança, e o Homem dos Lobos

    Freud (Inibição, sintoma e angústia, O Homem dos Lobos), Winnicott

  25. 253 jul. 1963
    A angústia como sinal

    Conclusão do ano.

    • Freud: a angústia é um sinal de perigo
    • O perigo está ligado à cessão do objeto
    • O "não sei" angustiante é desconhecimento do objeto que causa o desejo
    • O luto, o acting out e o amor cortês
    • O agalma, o objeto precioso que se procura no Outro (Platão, O banquete)
    • A pergunta que fica: qual deve ser o desejo do analista?

    Freud, Shakespeare (Hamlet), Kierkegaard, Platão (O banquete)

Armadilhas. (a) A tese não é "a angústia tem um objeto" e sim "não é sem objeto" — a diferença é lógica e Lacan insiste nela. (b) Acting out e passagem ao ato não são sinônimos, e o quadro de dupla entrada existe justamente para distingui-los por posição. (c) Ler apenas a teoria e pular os casos empobrece este seminário.

Antes / depois. Depois: os Nomes-do-Pai (seminário interrompido, única lição em 20 de novembro de 1963) e o Seminário 11.

S11Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyseOs quatro conceitos fundamentais da psicanálise 1964 · 20 lições

Ficha. 20 sessões — começa só em janeiro. Um ponto de ruptura: em novembro de 1963 Lacan foi excluído da lista de didatas da IPA e interrompeu Os Nomes-do-Pai após uma única lição; o Seminário 11 recomeça na École Normale Supérieure, diante de outro público. Por isso ele começa perguntando com que direito ensina — a pergunta é institucional antes de ser teórica.

A pergunta. Quais são os conceitos que fazem da psicanálise algo mais que uma prática? A resposta são quatro: inconsciente, repetição, transferência, pulsão.

O argumento

O seminário mais lido de Lacan — e por isso um dos mais deformados. Convém começar pelo que aconteceu antes dele. Em novembro de 1963, Lacan foi excluído da lista de analistas didatas da Associação Psicanalítica Internacional. Interrompeu o seminário Os Nomes-do-Pai depois de uma única lição e recomeçou em outro lugar, a École Normale Supérieure, diante de um público novo. Por isso o ano abre com uma pergunta que é institucional antes de ser teórica: com que direito ensino? Ele chega a falar de excomunhão, comparando-se a Espinosa.

A resposta toma a forma de quatro conceitos: inconsciente, repetição, transferência e pulsão.

O inconsciente aparece primeiro como descontinuidade: uma fenda que se abre e se fecha, um tropeço em que algo se acha e logo se perde. A repetição é pensada com duas palavras de Aristóteles: automaton, aquilo que insiste e retorna, e tyche, o encontro sempre faltoso com o real — como no sonho do pai que ouve o filho morto dizer: "Pai, não vês que estou queimando?".

No meio do ano, o desvio mais célebre: o olhar. O olhar não é o meu: está do lado das coisas, e um quadro funciona como uma armadilha para ele. Passam por ali a caveira escondida em Os embaixadores, de Holbein, os pintores gregos Zêuxis e Parrásio, e uma lata de sardinhas boiando no mar.

A transferência recebe sua fórmula — a colocação em ato da realidade do inconsciente, que é sexual — e dela sai o sujeito suposto saber. A pulsão é descrita como uma montagem que contorna o objeto. E o ano termina com as duas operações pelas quais o sujeito se constitui: alienação e separação.

O que se encontra aqui

A excomunhão
A pergunta prévia sobre a autorização de ensinar, e Espinosa: 15 de janeiro de 1964.
O inconsciente como fenda
22 e 29 de janeiro de 1964.
O estatuto ético do inconsciente
Em resposta a uma pergunta de Jacques-Alain Miller: 29 de janeiro de 1964.
Automaton e tyche
A repetição pensada com Aristóteles: 5 e 12 de fevereiro de 1964.
"Pai, não vês que estou queimando?"
O sonho e o encontro faltoso com o real: 12 de fevereiro de 1964.
O olhar
De 19 de fevereiro a 11 de março de 1964.
O sonho da borboleta
Chuang-Tsé: 19 de fevereiro de 1964.
Os embaixadores e a anamorfose
26 de fevereiro de 1964.
A lata de sardinhas
"Você vê aquela lata? Pois ela não te vê": 4 de março de 1964.
Zêuxis e Parrásio
As uvas e o véu pintado: 11 de março de 1964.
A transferência
"A colocação em ato da realidade do inconsciente": 15, 22 e 29 de abril de 1964.
A pulsão é uma montagem
6 e 13 de maio de 1964.
A lamela
O mito que Lacan inventa sobre a libido: 20 de maio de 1964.
Alienação e separação
"A bolsa ou a vida": 27 de maio e 3 de junho de 1964.
O sujeito suposto saber
De 3 a 24 de junho de 1964.
O desejo do analista
A questão final: 24 de junho de 1964.

Lição por lição 20 sessões

  1. 115 jan. 1964
    Excomunhão

    Primeira lição no novo lugar. Antes dos conceitos, a pergunta sobre quem fala e com que direito.

    • "Com que direito eu ensino?" — a pergunta imposta pelas circunstâncias
    • O ensino visava formar analistas
    • A expulsão comparada a uma "excomunhão maior"
    • Espinosa, excomungado pela comunidade judaica de Amsterdã em 1656
    • O shibboleth: a palavra que revela de que lado se está
    • A psicanálise como aquilo que faz o mutismo falar

    Espinosa, Duhem, Meyerson, Diderot, Freud

  2. 222 jan. 1964
    O inconsciente é uma fenda

    Um poema de Aragon para começar, e o primeiro conceito: o inconsciente como descontinuidade.

    • Versos de O louco de Elsa, de Aragon
    • Kant e a causa: entre a causa e o efeito, sempre uma fenda
    • No lugar dessa fenda, algo é achado — e logo se perde
    • A descontinuidade é a forma como o inconsciente aparece primeiro
    • O inconsciente de Freud não é o da Filosofia do inconsciente, de von Hartmann

    Aragon, Kant, Freud, Lévi-Strauss

  3. 329 jan. 1964
    O estatuto ético do inconsciente

    Resposta a uma pergunta de Jacques-Alain Miller sobre a ontologia do inconsciente.

    • Uma falta estrutura o sujeito e o seu desejo
    • O inconsciente é aquilo que passa por essa fenda
    • As sombras dos mortos que só falam quando bebem sangue: a comparação de Freud
    • O estatuto do inconsciente não é de ser, mas ético: Freud diz "seja como for, é preciso ir lá"
    • A dúvida em Descartes funda a certeza; em Freud, a dúvida é sinal de que ali há algo

    Descartes, Freud, Heidegger, Shakespeare (Hamlet), Jacques-Alain Miller

  4. 45 fev. 1964
    Repetir

    A entrada da repetição, pelo texto de Freud e pela própria palavra alemã.

    • Freud confia no que se diz do sonho, inclusive nas dúvidas do sonhador
    • A carta 52 a Fliess e as camadas de inscrição
    • O retorno e a repetição em Recordar, repetir e elaborar (1914)
    • Holen, em alemão: puxar com esforço
    • Anúncio de duas palavras da Física de Aristóteles: automaton e tyche

    Freud (Recordar, repetir e elaborar, carta 52, Além do princípio do prazer), Aristóteles

  5. 512 fev. 1964
    "Pai, não vês que estou queimando?"

    A lição central sobre a repetição. O real como encontro que sempre falha.

    • Nada na psicanálise autoriza a dizer que "a vida é um sonho"
    • Como o sonho, que realiza desejos, pode reproduzir o trauma?
    • O barulho que nos acorda, e que o sonho incorpora antes do despertar
    • O sonho contado por Freud: o pai que dorme, o filho morto no quarto ao lado, a vela que caiu — e a frase "Pai, não vês que estou queimando?"
    • A tyche: o encontro faltoso com o real; acorda-se para continuar a dormir

    Freud (A interpretação dos sonhos), Aristóteles, Epicuro, Kierkegaard

  6. 619 fev. 1964
    O olho e o olhar

    A repetição leva ao campo do visível. Primeira das lições sobre o olhar.

    • O sujeito dividido entre o que vive e a consciência que tem disso
    • O visível e o invisível, de Merleau-Ponty, publicado naquela semana
    • O mimetismo: as manchas em forma de olho nas asas das borboletas
    • O mundo nos olha antes que o vejamos
    • Chuang-Tsé sonha que é borboleta; acordado, pergunta-se se não é a borboleta que sonha ser Chuang-Tsé

    Merleau-Ponty, Roger Caillois, Chuang-Tsé, Freud

  7. 726 fev. 1964
    A anamorfose

    A perspectiva como armadilha, e a caveira de Holbein.

    • "Sou como os espelhos, que refletem e não veem" (Aragon)
    • O olhar em Sartre, em O ser e o nada
    • A perspectiva geométrica nasce na mesma época que o sujeito de Descartes
    • A anamorfose: uma imagem que só se reconhece vista de lado
    • Os embaixadores, de Holbein: objetos de ciência e de arte — e, embaixo, uma mancha que, vista de viés, é uma caveira

    Holbein (Os embaixadores), Baltrušaitis, Sartre, Dürer, Alberti, Aragon

  8. 84 mar. 1964
    A lata de sardinhas

    A luz, a tela, e uma história de pescadores.

    • A perspectiva geométrica deixa escapar o essencial da visão
    • O quadro nos põe dentro dele
    • Caillois: o mimetismo animal como análogo da pintura
    • Petit-Jean, pescador, aponta uma lata de sardinhas brilhando no mar: "você vê aquela lata? Pois ela não te vê"
    • E no entanto ela me olha: ela me situa no quadro

    Roger Caillois, Merleau-Ponty, Holbein, Diderot, Hegel

  9. 911 mar. 1964
    Zêuxis e Parrásio

    O que um quadro faz com o olhar: ele o doma.

    • No campo do visível, o objeto a é o olhar
    • O quadro como "doma-olhar": convida o olhar a depor as armas
    • Zêuxis pinta uvas que enganam os pássaros; Parrásio pinta um véu, e Zêuxis pede que o levantem
    • O triunfo não é enganar o olho: é enganar o olhar
    • O gesto do pintor; o "mau-olhado"

    Merleau-Ponty, Plínio, Leonardo, Cézanne, Matisse, Charles Bouleau

  10. 1015 abr. 1964
    A transferência

    Terceiro conceito — introduzido, como o primeiro, pelas dificuldades que impõe ao analista.

    • A transferência costuma ser pensada como um afeto, positivo ou negativo
    • O Discurso de Roma como nova aliança com a descoberta de Freud
    • Cada vez que o inconsciente se abre e se fecha, há uma perda
    • Thomas Szasz e o seu artigo sobre o conceito de transferência

    Thomas Szasz, Freud

  11. 1122 abr. 1964
    O sujeito não é um indivíduo isolado

    Crítica de uma visão da análise centrada na "integridade do analista", e a fórmula que fecha a lição.

    • Szasz e a "integridade do analista"
    • Nunberg e a vontade de se curar
    • O "eu minto": a diferença entre o que se diz e quem diz
    • O sujeito não é um isolado diante da realidade
    • A imagem da nassa, armadilha de pesca que se abre e se fecha
    • A transferência como colocação em ato

    Thomas Szasz, Nunberg, Freud, Spitz

  12. 1229 abr. 1964
    A realidade do inconsciente é sexual

    A fórmula completada — e a história de Breuer e Anna O.

    • "A transferência é a colocação em ato da realidade do inconsciente"
    • Essa realidade é a realidade sexual
    • A pequena Anna, no sonho relatado por Freud, só sonha com o que lhe foi proibido comer
    • Bertha Pappenheim, a "Anna O.", e o que aconteceu entre ela e Breuer
    • Freud não era Cristo — mas talvez fosse algo como a Viridiana de Buñuel

    Freud (Estudos sobre a histeria, A interpretação dos sonhos), Breuer, Buñuel, Lévi-Strauss

  13. 136 maio 1964
    A pulsão é uma montagem

    Quarto conceito. A pulsão não é um impulso, e a sua satisfação não é a que se imagina.

    • O ponto de encontro entre analista e analisante: o desejo do analista
    • Trieb (pulsão) não é Drang (impulso)
    • "Destinos da pulsão" quer dizer aventuras, e não "avatares"
    • A boca não se satisfaz com a comida, mas com o prazer da boca
    • A pulsão se parece com uma montagem, uma colagem surrealista

    Freud (Pulsões e destinos da pulsão, Introdução ao narcisismo, Projeto), Merleau-Ponty

  14. 1413 maio 1964
    O circuito da pulsão

    Heráclito: "o nome do arco é vida, a sua obra é morte". A pulsão parcial e o seu trajeto.

    • A sexualidade só entra em jogo sob a forma das pulsões parciais
    • A homeostase do organismo
    • O prazer de ver e de ser visto
    • O desejo sádico não é ainda o sadismo
    • A pulsão se satisfaz no percurso, contornando o objeto

    Heráclito, Freud (Pulsões e destinos da pulsão), Edward Glover, Franz Alexander

  15. 1520 maio 1964
    A lamela

    O mito que Lacan inventa sobre o que é a libido.

    • A libido não é um fluido: é um órgão
    • Amar e ser amado
    • Na pulsão de ver, o objeto é o olhar
    • O mito: quando se rompem as membranas do ovo, algo voa — a lamela, uma "omelete-homem" (hommelette)
    • O mito de Aristófanes, no Banquete, e as metades que se buscam

    Freud (Pulsões e destinos da pulsão), Aristófanes, Léon Bloy

  16. 1627 maio 1964
    Alienação

    A primeira das duas operações que constituem o sujeito.

    • O inconsciente é estruturado como uma linguagem
    • Nada no psiquismo basta para que alguém se situe como macho ou fêmea
    • O "ou" da alienação: "a bolsa ou a vida" — escolher a bolsa é perder as duas; escolher a vida é tê-la sem a bolsa
    • O Terror, em Hegel
    • A separação: em latim, se parere, engendrar-se

    Hegel, Aristófanes, André Green, Jacques-Alain Miller

  17. 173 jun. 1964
    O representante da representação

    Como Freud escreve aquilo que representa o sujeito — e o que dele desaparece entre dois significantes.

    • "Não procuro, encontro"
    • O Vorstellungsrepräsentanz e o recalque
    • O sujeito aparece num significante e desaparece no seguinte: a aphanisis
    • Os diplomatas representam algo maior que eles
    • O sujeito suposto saber
    • Descartes, e o Deus que não engana

    Freud (O recalque, O inconsciente), Descartes, Hegel

  18. 1810 jun. 1964
    O sujeito suposto saber

    Como se forma um analista — e por que a transferência não faz de ninguém um deus.

    • O objetivo do ensino é formar analistas
    • O analista não é Deus para o paciente
    • Sócrates, o primeiro sujeito suposto saber
    • A banda de Möbius, que não tem avesso
    • A história de Casanova contada por Mannoni
    • "Você gosta do ensopado de carneiro; não tem certeza de o desejar"

    Platão (Banquete), Freud, Pavlov, Octave Mannoni, Kant, Sade

  19. 1917 jun. 1964
    Amor, transferência, desejo

    Identificação, idealização, projeção, introjeção — e "Booz endormi".

    • Termos que fazem sentido, e por isso são difíceis de usar bem
    • O poema "Booz endormi", de Victor Hugo
    • A interpretação visa um núcleo de não-sentido
    • Alcibíades pede a Sócrates o agalma, sem saber o que é
    • "A voz da razão é baixa, mas diz sempre a mesma coisa" (Freud)

    Victor Hugo, Platão (Banquete), Freud, Theodor Reik

  20. 2024 jun. 1964
    O desejo do analista

    Última lição.

    • O ano nasceu de um desencontro (dustuchia)
    • Foi preciso suspender Os Nomes-do-Pai
    • Que tipo de verdade a prática analítica engendra?
    • Lucien Febvre e a incredulidade no século XVI
    • A "liquidação da transferência": uma expressão que se usa sem saber o que quer dizer
    • A questão final: o desejo do analista

    Freud, Lucien Febvre, Bergler, Espinosa

Armadilhas. (a) Os "quatro conceitos" não são os quatro pilares eternos: são os quatro que Lacan escolheu naquele momento, e o seminário diz por quê. (b) O olhar não é o meu olhar: está do lado do objeto — é a inversão mais difícil do seminário. (c) Alienação e separação não são etapas biográficas: são operações lógicas.

Antes / depois. É o seminário mais lido — e por isso o mais marcado pela divisão em capítulos da edição publicada. Ler pelas datas corrige muito. Depois: "Position de l'inconscient" (1964), redigido em paralelo.

S16D'un Autre à l'autreDe um Outro ao outro 1968–1969 · 25 lições

Ficha. 25 sessões. O seminário do mais-de-gozar, que aparece desde a primeira lição (13 de novembro de 1968). É também aqui que surge pela primeira vez a fórmula “não há relação sexual” (12 de março de 1969). Hegel é o interlocutor filosófico do ano.

A pergunta. Como se passa do grande Outro ao pequeno outro — isto é, como o objeto a se produz a partir do campo do Outro? O título é o programa.

O argumento

Um seminário de passagem: sem ele, os quatro discursos do ano seguinte parecem surgir do nada. O título é o programa — de um Outro ao outro: como, a partir do campo do Outro, se produz o objeto a?

A resposta passa por um caminho inesperado. Na primeira lição, em 13 de novembro de 1968, Lacan recorre a Marx. O que Marx descobre não é o trabalho, que é tão velho quanto o mundo: é que existe um mercado do trabalho, e que, por o trabalho ser comprado, aparece um excedente não pago — a mais-valia. Por uma analogia que Lacan diz ser de estrutura, ele forma o conceito de mais-de-gozar: também a renúncia ao gozo é antiga, mas o que se perde ali produz um excedente, que pode ser captado.

O centro do ano é um longo comentário da aposta de Pascal — a ideia de que vale a pena apostar a vida finita contra uma infinidade de vidas. Lacan a lê não como teologia, mas como um cálculo sobre o gozo; e mostra que a verdadeira pergunta não é "Deus existe?", mas "o 'eu' existe?".

Daí a tese de que o Outro é inconsistente: incompleto, sem garantia — o que Lacan sustenta com a lógica matemática (Gödel, a teoria dos conjuntos). E é neste seminário, em 12 de março de 1969, que aparece pela primeira vez a fórmula "não há relação sexual".

O último terço do ano é clínico e político: a perversão, a fobia do pequeno Hans, a histérica e o obsessivo — e, na última sessão, a leitura em voz alta da carta que retira a Lacan a sala da École Normale Supérieure.

O que se encontra aqui

O mais-de-gozar
Construído a partir da mais-valia de Marx, na primeira lição, 13 de novembro de 1968, e retomado o ano todo.
O mercado do trabalho
13 e 20 de novembro, 4 de dezembro de 1968.
O Outro sem garantia
"O Outro não encerra nenhum universo do discurso": 4 de dezembro de 1968; Gödel, em 11 de dezembro.
A aposta de Pascal
De 8 de janeiro a 12 de fevereiro de 1969.
O traço unário e a série de Fibonacci
"O mais difícil de pensar é o 1": 22 e 29 de janeiro de 1969.
"Não há relação sexual"
Primeira formulação, em 12 de março de 1969.
Sublimação e perversão
"Na perversão, é o sujeito que se encarrega de suprir a falha do Outro": 26 de março e 23 de abril de 1969.
Saber e poder
7 de maio de 1969.
"O significante nasce de seus traços apagados"
E a girafa amassada do pequeno Hans: 14 de maio de 1969.
O obsessivo e o tonel das Danaides
21 de maio e 18 de junho de 1969.
"Não há Outro do Outro"
E a aposta como jogo de um só jogador: 11 de junho de 1969.
A histérica e "A mulher"
Dora, em 18 de junho de 1969.
A carta da École Normale
Lida em voz alta na última lição, 25 de junho de 1969.

Lição por lição 25 sessões

  1. 113 nov. 1968
    O mais-de-gozar

    Primeira lição. Marx entra no seminário, e com ele o conceito do ano.

    • "A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem palavras"
    • O "estruturalismo", palavra da moda, e o trocadilho com poubelle (lata de lixo) e publication
    • O pote de mostarda: vale por estar vazio — e por ter "mostarda" escrito em cima
    • Marx: o novo não é o trabalho, é que ele seja comprado — daí a mais-valia
    • Do mesmo modo, a renúncia ao gozo é antiga; o novo é a função do mais-de-gozar, que pode ser captado por alguns

    Marx (O capital), Althusser, Pascal, Kant, Sade, Beckett

  2. 220 nov. 1968
    Mais-valia e mais-de-gozar

    A analogia entre os dois termos, explicitada.

    • Mehrwert (mais-valia), escrita no quadro para que não se ouça "mère verte"
    • O mais-de-gozar como a mais-valia "aplicada pelo avesso"
    • Um discurso que vale é como um golpe de tesoura no real
    • A física e o físico que tem um discurso correto
    • No trabalho pago pelo preço justo, há sempre valor não pago

    Marx, Althusser

  3. 327 nov. 1968
    O par ordenado

    O gozo e a lógica dos conjuntos — e a piada do famillionnaire posta de novo para trabalhar.

    • Ligar o saber ao gozo
    • O mais-de-gozar nasceu de uma analogia com a mais-valia
    • A piada de Heine: "ele me tratou de modo famillionnaire"
    • "A classe dos conjuntos que contêm a si mesmos": o paradoxo de Russell
    • O par ordenado e a relação do sujeito com o Outro

    Freud (O chiste), Heine, Russell

  4. 44 dez. 1968
    O Outro não fecha nada

    Do par ordenado a uma tese: o Outro não fecha nenhum universo do discurso.

    • "O Outro não encerra nenhum universo do discurso"
    • O capital: a produção da mais-valia absoluta
    • O artesão com a sua plaina, e o operário diante da máquina
    • O sofrimento não basta para fazer um sujeito
    • A carta de um ouvinte sobre o par ordenado

    Marx, Bíblia (Sinai), François Wahl

  5. 511 dez. 1968
    Gödel e os Dez Mandamentos

    A inconsistência do Outro demonstrada — e os mandamentos lidos como leis da fala.

    • A proibição de pronunciar o nome de Deus
    • A sarça ardente
    • Os Dez Mandamentos como as leis do "eu falo"
    • Gödel: não se pode reunir tudo num só sistema consistente
    • "O que você deseja?"
    • O oleiro, de novo: criar um objeto em torno de um vazio

    Gödel, Bíblia (Êxodo), Hegel

  6. 68 jan. 1969
    A lógica

    Votos de ano novo — "69 é um bom número!" — e preparação da aposta.

    • Um artigo sobre "o estilo de Jacques Lacan": "meu estilo é um problema!"
    • Devolver aos termos de Freud a sua função
    • A lógica moderna, renovada pela matemática
    • Quine, von Neumann
    • A pergunta que vai ser jogada: não "Deus existe?", mas "o 'eu' existe?"

    Gödel, Quine, von Neumann, Georges Brunet, Pascal

  7. 715 jan. 1969
    A aposta de Pascal (I)

    O gozo, o ócio, e a aposta.

    • Um argumento que espanta por parecer insustentável vindo de alguém tão rigoroso
    • Renunciar aos prazeres
    • O ócio (otium) — não os nossos "lazeres", que são forçados
    • O gozo não se confunde com o prazer
    • A "regra das partidas" de Pascal, importante para a matemática das probabilidades

    Pascal (Pensamentos), Georges Brunet, Hegel, Horácio, Terêncio

  8. 822 jan. 1969
    A aposta de Pascal (II): o traço unário

    "O mais difícil de pensar é o 1." E a série que escreve o objeto a.

    • O traço unário (einziger Zug)
    • O jansenismo, contexto de Pascal
    • "Cara ou coroa" — no tempo de Pascal, "cruz ou coroa"
    • Uma atividade fundada na aceitação da perda
    • A série de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13…

    Pascal, Jansênio, Fibonacci, Freud

  9. 929 jan. 1969
    A aposta de Pascal (III)

    O ponto de partida da série é arbitrário, como o signo em Saussure.

    • O 1 como pura marca, um traço
    • A série de Fibonacci e o objeto a como limite
    • A aposta escrita numa tabela, como na teoria dos jogos
    • Vale a pena apostar para ganhar uma segunda vida? Três?

    Pascal, Fibonacci, Saussure

  10. 105 fev. 1969
    Repetir para reencontrar

    O 1, uma vez repetido, prolifera.

    • A repetição busca reencontrar um gozo que já escapou
    • O primeiro 1 já altera aquilo que marca
    • A aposta confunde-se com a existência do parceiro
    • Bergler e o supereu

    Pascal, Edmund Bergler, Freud, Kant

  11. 1112 fev. 1969
    Limites

    A aposta levada ao extremo, num momento de agitação política.

    • "Estou aqui para fazer o meu número ou para ocupar a sala?"
    • A verdade do capitalismo, segundo Marx, é o proletariado
    • Maud Mannoni e a debilidade mental
    • O genocídio
    • O mito da ilha deserta

    Pascal, Marx, Lênin, Maud Mannoni, Defoe, Diderot

  12. 1226 fev. 1969
    Saber e verdade

    O título só se esclarece no fim — e Foucault, dias antes, falara sobre o autor.

    • A conferência de Michel Foucault "O que é um autor?"
    • O sonho diz algo sem saber o que diz
    • O Projeto de 1895, mais rico do que Freud supunha
    • O saber perdido está na origem do desejo

    Michel Foucault, Freud, Krivine, Bentham

  13. 135 mar. 1969
    O engano da consciência

    Uma fórmula sobre a verdade e o saber, e uma crítica do "naturalismo" na psicanálise.

    • No inconsciente, enuncia-se uma verdade da qual nada podemos saber
    • As pulsões como montagens
    • "O engano da consciência é servir àquilo que ela não pensa servir"
    • O ser humano nasce num banho de significantes

    Schopenhauer, Frege, Simmel, Platão, Freud

  14. 1412 mar. 1969
    "Não há relação sexual"

    A fórmula aparece pela primeira vez, no meio de uma lição sobre a sublimação.

    • Gilles Deleuze vai publicar dois livros importantes
    • A sublimação: a pulsão "inibida quanto ao alvo"
    • No centro, uma zona proibida porque o prazer seria intenso demais: o campo do gozo
    • Quem é o "próximo" do mandamento?
    • A pulsão tem uma estrutura de borda
    • "Não há relação sexual"

    Gilles Deleuze, Freud

  15. 1519 mar. 1969
    Deleuze, por Jacques Nassif

    Lacan, gripado, cede a palavra: Jacques Nassif apresenta a Lógica do sentido, de Deleuze.

    • "O capitalismo serve para alguma coisa"
    • Designação, manifestação, significação
    • O paradoxo de Lewis Carroll e a diferença entre linguagem e metalinguagem

    Gilles Deleuze (Lógica do sentido), Jacques Nassif, Lewis Carroll, os estoicos

  16. 1626 mar. 1969
    A voz, o olhar e a perversão

    Verdades primeiras sobre a perversão.

    • O objeto a pode equivaler ao gozo por uma estrutura topológica
    • Krafft-Ebing e Havelock Ellis
    • O exibicionista que se mostra até diante de um sacrário
    • O voyeur, em Sartre
    • O sádico é o instrumento de um "suplemento dado ao Outro", que o Outro não quer
    • O neurótico está votado ao fracasso da sublimação

    Krafft-Ebing, Havelock Ellis, Sartre, Deleuze, Sacher-Masoch, Prévert

  17. 1723 abr. 1969
    Liberdade de pensamento

    Volta das férias. A norma, Hegel, e uma resposta a quem falou em "terrorismo".

    • Na perversão, é o sujeito que se encarrega de suprir a falha do Outro
    • O que quer dizer "liberdade de pensamento"
    • A norma, de Platão a Thomas More
    • Hegel e a consciência de si
    • "No fim, o analista vira o olhar e a voz do paciente"

    Hegel, Platão, Thomas More, Peano, Grunberger, Chasseguet-Smirgel

  18. 1830 abr. 1969
    A câmara escura

    Idealismo e realismo, e o bispo Berkeley.

    • A disputa entre idealismo e realismo foi abandonada por cansaço, não resolvida
    • Berkeley: só sabemos o que está na nossa cabeça
    • A câmara escura: a imagem que se forma do outro lado do buraco
    • Para o perverso, é preciso uma mulher não castrada — uma "hommelle"

    Berkeley, Einstein, Max Born

  19. 197 maio 1969
    Saber e poder

    Os armazéns e os impérios, e uma fobia de galinhas.

    • "A angústia não é sem objeto": o "não sem" supõe a falta
    • Os emporia (entrepostos) e os impérios: a mesma coisa
    • A separação entre saber e poder
    • Um caso de fobia de galinhas

    Freud (O pequeno Hans), Alain, Hélène Deutsch, Konrad Lorenz

  20. 2014 maio 1969
    Os traços apagados

    Como nasce um significante — e a girafa do pequeno Hans.

    • Os objetos a: do seio ao excremento, da voz ao olhar
    • O rastro: a marca de uma mão, de um pé
    • "O significante nasce de seus traços apagados"
    • A grande girafa de Hans é a mãe "falicizada"; a pequena, que ele amassa e sobre a qual se senta, é uma escrita num papel
    • O "tigre de papel"

    Freud (O pequeno Hans), Mao Tsé-tung, Prévert

  21. 2121 maio 1969
    Lugar nenhum

    O sistema "de lugar nenhum", e como o gozo excluído se torna o real.

    • A "nulibiedade" do bispo Wilkins: estar em lugar nenhum
    • O gozo é excluído do saber, e por isso se afirma como real
    • Não se pode escrever um número maior que todos
    • O significante fálico
    • O obsessivo e o "tonel das Danaides": o gozo só se autoriza por um pagamento sempre renovado

    John Wilkins, Freud

  22. 224 jun. 1969
    O bode expiatório

    De volta ao ato psicanalítico, interrompido no ano anterior pelos acontecimentos de maio de 1968.

    • "Digo as coisas mais interessantes nas últimas sessões — é o meu estilo"
    • O ato psicanalítico como incitação ao saber
    • O sujeito suposto saber não existe
    • Frazer e o bode expiatório
    • A comunidade dos psicanalistas como "associação para a proteção dos bodes expiatórios"

    Frazer, Freud

  23. 2311 jun. 1969
    O conjunto vazio

    O senhor, o escravo e o "dobro ou nada".

    • O 1 e a identidade numérica
    • O conjunto vazio
    • A aposta de Pascal como "dobro ou nada" jogado por um só jogador: não há Outro do Outro
    • A luta de morte entre senhor e escravo em Hegel

    Pascal, Hegel, Fibonacci, Caim e Abel

  24. 2418 jun. 1969
    O que a histérica supõe

    Última lição teórica: o senhor, a histérica, o obsessivo.

    • Um uso "diagonal" de Saussure
    • O risco de vida é o essencial do ato do senhor
    • A obediência "como um cadáver", de Santo Inácio
    • A histérica — lembrem-se de Dora — é capturada por "A mulher", que ela supõe saber o que o homem precisa para gozar
    • O obsessivo só retém do senhor uma coisa: que o seu desejo é impossível

    Freud (Dora), Hegel, Saussure, Santo Inácio

  25. 2525 jun. 1969
    A carta

    Fim do ano e do lugar. A carta que retira a sala é lida em voz alta.

    • "Somos estilhaçados na fantasia"
    • O saber serve ao senhor — e nasce do escravo
    • No Édipo, foi a histérica que respondeu à Esfinge
    • Hegel errou: o que está em jogo não é a vida do senhor, é a do escravo
    • "Ser estudante é uma posição servil"
    • A carta: "a École Normale pôs uma sala à sua disposição por mais de cinco anos…"

    Hegel, Sófocles, Mao Tsé-tung

Armadilhas. (a) O mais-de-gozar não é uma metáfora econômica: a analogia com a mais-valia é estrutural e Lacan a sustenta. (b) A aposta de Pascal não é discutida como problema de teologia: é um aparelho de cálculo sobre o gozo. (c) É o seminário-charneira: sem ele, o Seminário 17 parece surgir do nada.

S17L'envers de la psychanalyseO avesso da psicanálise 1969–1970 · 13 lições

Ficha. Apenas 13 sessões nas transcrições, com grandes intervalos (nada entre 26 de novembro e 17 de dezembro; nada entre 21 de janeiro e 11 de fevereiro). Primeiro ano na Faculdade de Direito do Panthéon, depois de maio de 68. O seminário dos quatro discursos, construídos de dezembro a março; Dora ocupa a lição de 18 de fevereiro de 1970.

A pergunta. Qual é o avesso da psicanálise? Resposta: o discurso do mestre. E a única maneira de mostrá-lo é construir a máquina dos quatro laços sociais.

O argumento

O primeiro ano depois de maio de 1968, num terceiro endereço: uma sala emprestada pela Faculdade de Direito, no Panthéon. São só treze sessões nas transcrições, com longos intervalos.

O título é uma provocação que traz a resposta: o avesso da psicanálise é o discurso do mestre. E a única maneira de mostrá-lo é construir a máquina inteira — os quatro discursos.

A máquina é simples, e por isso funciona. Há quatro lugares fixos — o agente, o outro, a verdade e a produção — e quatro termos que circulam por eles: o significante-mestre (S1), o saber (S2), o sujeito dividido ($) e o objeto a. Um quarto de volta faz passar de um discurso ao seguinte, e assim se obtêm o discurso do mestre, o da universidade, o da histérica e o do analista. Não são tipos de pessoa: são laços sociais, e podem mudar dentro de uma mesma conversa.

O que essa máquina torna legível é, primeiro, que a verdade só se diz pela metade — como a Esfinge, que aparece pela metade e desaparece quando o enigma é resolvido. E que, em cada volta, algo se produz e se perde: o mais-de-gozar, herdado do ano anterior.

O ano tem um centro clínico — uma nova leitura de Dora — e um centro polêmico: o mito do assassinato do pai da horda, em Totem e tabu, que Lacan lê como mito e não como origem. Há ainda as "profissões impossíveis" de Freud — governar, educar, analisar — e os pequenos objetos que a ciência espalha por todas as vitrines. O ano termina falando de vergonha.

O que se encontra aqui

Os quatro discursos
Construídos de dezembro de 1969 a março de 1970.
O meio-dizer da verdade
A verdade só se diz pela metade, como o enigma da Esfinge: 17 de dezembro de 1969.
"O que exige a repetição é o gozo"
14 de janeiro de 1970.
Wittgenstein
O Tractatus lido criticamente: 21 de janeiro de 1970.
O mestre e o rico
O Satyricon, de Petrônio: 11 de fevereiro de 1970.
O avesso da psicanálise
É o discurso do mestre: 18 de fevereiro de 1970.
Dora e o pai idealizado
18 de fevereiro de 1970.
Os quatro lugares
Agente, outro, verdade, produção: 11 de março de 1970.
Totem e tabu como mito
11 e 18 de março de 1970.
"Só conheço uma origem da fraternidade: a segregação"
11 de março de 1970.
O discurso do capitalista
Apenas mencionado, em 11 de março e 9 de abril de 1970; a escrita virá depois.
Radiofonia
As respostas às perguntas de Robert Georgin: 9 de abril de 1970.
André Caquot sobre Moisés
Um hebraísta convidado expõe o livro de Sellin e o profeta Oseias: 15 de abril de 1970.
As lathouses
Os objetos fabricados pela ciência para causar o desejo: 20 de maio de 1970.
As profissões impossíveis
Governar, educar, analisar: 10 de junho de 1970.
A vergonha
"Morrer de vergonha é um efeito raramente obtido": 17 de junho de 1970.

Lição por lição 13 sessões

  1. 126 nov. 1969
    Uma terceira mudança

    Primeira lição no Panthéon: o lugar, os agradecimentos, e a promessa dos quatro discursos.

    • A sala emprestada pela Faculdade de Direito
    • A terceira mudança: o hospital Sainte-Anne, a rue d'Ulm, agora o Panthéon
    • O saber, chamado no ano anterior de "gozo do Outro"
    • O mais-de-gozar
    • O que vai se destacar entre os quatro: o discurso do mestre

    Hegel, Marx, Kant

  2. 217 dez. 1969
    O enigma e a citação

    As quatro fórmulas no quadro — e o que a verdade tem de "meio-dizer".

    • O significante representa o sujeito para outro significante
    • O discurso do mestre
    • O discurso do analista não é o discurso de quem está em análise
    • A verdade, quando sai do poço, sai sempre pela metade
    • A Esfinge (a Quimera) e o discurso da histérica
    • "O enigma é um meio-dizer"
    • Citar Marx: cita-se conforme o lugar que se ocupa num discurso

    Sófocles (a Esfinge), Marx, Hegel, Freud

  3. 314 jan. 1970
    A repetição e o gozo

    O que domina em cada discurso, e por que é o gozo que exige a repetição.

    • Os quatro discursos nascem da permutação dos mesmos termos
    • O objeto a no lugar de onde o discurso é comandado
    • "O que exige a repetição é o gozo"
    • O traço unário, a marca mais simples, origem do significante
    • O analista ocupa esse lugar justamente por não estar ali por si mesmo

    Freud (Além do princípio do prazer), Kierkegaard, Laplanche e Leclaire

  4. 421 jan. 1970
    Wittgenstein e a metade de sujeito

    Uma leitura crítica do Tractatus, e uma nota sobre Freud.

    • "O que ensino poderia se chamar História de uma metade de sujeito"
    • Wittgenstein: só há verdade numa proposição — e isso anula o sentido
    • Politzer e a "psicologia concreta"
    • O sujeito dividido pelo gozo
    • Sade, "o mais inteligente dos materialistas"
    • A suposta relação de Freud com a cunhada, Minna Bernays: "e daí?"

    Wittgenstein (Tractatus), Politzer, Sade, Freud

  5. 511 fev. 1970
    O mestre e o rico

    Uma regra de leitura: um discurso se classifica pelo que ele quer dominar.

    • O discurso do analista deve estar no oposto de toda vontade de domínio
    • Saint-Just: a felicidade virou um fator da política
    • Marx e a mais-valia: espoliar o gozo
    • O Satyricon: o rico compra tudo sem pagar, porque resgatou a si mesmo

    Petrônio (Satyricon), Marx, Saint-Just, Adam Smith, Hegel

  6. 618 fev. 1970
    Dora e o pai idealizado

    A releitura clínica do ano.

    • "O avesso da psicanálise é o discurso do mestre"
    • Ele "fecha tudo, até o que se pensa ser revolução" — a revolução como volta que se fecha
    • O pai idealizado
    • Dora e o sonho da caixa de joias: o que ela goza não é a joia, é a caixa
    • O assassinato do pai da horda: e se isso fosse uma defesa?

    Freud (Dora, Totem e tabu), Marx

  7. 711 mar. 1970
    Os quatro lugares

    A máquina ganha forma, e a primeira crítica frontal ao mito de Freud.

    • O lugar da verdade e o lugar do comando
    • A verdade só se diz pela metade
    • "Sou um a de analista, a pedra rejeitada"
    • Totem e tabu: uma "história para dormir em pé" — e com um resultado exatamente contrário
    • "Só conheço uma origem da fraternidade: a segregação"
    • O discurso do capitalista e a sua ligação com a ciência

    Freud (Totem e tabu, Moisés e o monoteísmo), Sófocles, Lévi-Strauss, Kroeber

  8. 818 mar. 1970
    O pai não sabe nada da verdade

    Resposta a um artigo de Marie-Claire Boons sobre o assassinato do pai em Freud.

    • O artigo de Marie-Claire Boons e o de Conrad Stein
    • "No mito de Édipo está a chave do gozo"
    • A castração como princípio do significante-mestre
    • Quem é, de fato, o pai?
    • Para a criança, o pai é aquele que nada sabe da verdade

    Marie-Claire Boons, Conrad Stein, Freud, Sófocles

  9. 99 abr. 1970
    Radiofonia

    Respostas a perguntas de Robert Georgin, depois publicadas como "Radiofonia": Saussure, Jakobson, Newton.

    • O livro de Sellin, mandado buscar em Copenhague
    • Freud antecipou Saussure e o Círculo de Praga
    • Jakobson e a poesia
    • A "segunda revolução copernicana"
    • A lei da queda dos corpos, de Newton, como exemplo de estrutura

    Saussure, Jakobson, o Círculo de Praga, Newton, Robert Georgin

  10. 1015 abr. 1970
    André Caquot sobre Moisés

    Uma lição incomum: duas horas de comentário bíblico por um hebraísta convidado.

    • O livro de Ernst Sellin, em que Freud apoiou a tese de que Moisés foi assassinado
    • O profeta Oseias
    • A idolatria, o deus Baal
    • A religião profética e o lugar de Israel

    André Caquot, Ernst Sellin, Bíblia (Oseias, Números 25), Freud (Moisés e o monoteísmo)

  11. 1120 maio 1970
    As lathouses

    Os objetos fabricados pela ciência, e o mundo em que eles vivem.

    • A ciência produz coisas que não existiam antes
    • "Lathouses": os pequenos objetos que se encontram na rua, em todas as vitrines, feitos para causar o desejo
    • A "aletosfera": a esfera das coisas produzidas pela ciência
    • Diante desses objetos, "somos todos irmãos"

    Descartes, Leibniz, Euclides, Arquimedes

  12. 1210 jun. 1970
    Governar, educar, analisar

    Penúltima lição: as profissões impossíveis.

    • Para Freud, três profissões são impossíveis: governar, educar, analisar
    • O discurso universitário como quarto de volta do discurso do mestre
    • A "astúcia da razão", em Hegel
    • O que faz agir o agente?

    Hegel, Freud, Marx

  13. 1317 jun. 1970
    Morrer de vergonha

    Última lição.

    • "Morrer de vergonha é um efeito raramente obtido"
    • E é, no entanto, o único sinal que garante a genealogia
    • Vincennes: "eu não fiquei muito contente com Vincennes"
    • O Criticón, de Gracián
    • A produção da vergonha — e o seu avesso, a impudência

    Balzac, Baltasar Gracián, Diderot, Hegel

Armadilhas. (a) Os discursos não são tipos de pessoa: são laços, e trocam-se dentro da mesma conversa. (b) O discurso da histérica não é o "discurso das histéricas": é o que faz o saber avançar. (c) O discurso capitalista aqui só é mencionado — a sua escrita aparece depois, sobretudo na conferência de Milão (12 de maio de 1972). (d) A releitura de Totem e tabu é uma crítica ao Édipo, não sua celebração.

S20EncoreMais, ainda 1972–1973 · 13 lições

Ficha. 13 sessões. A de 12 de dezembro de 1972 é de François Recanati, e a de 10 de abril de 1973 inclui uma exposição de Jean-Claude Milner. Jakobson está presente na lição de 19 de dezembro de 1972. O nó borromeano, apresentado no seminário anterior, volta em 8 e 15 de maio de 1973; lalíngua atravessa o ano e domina a última lição.

A pergunta. O que é o gozo feminino, e por que ele obriga a refazer a lógica? Mas o seminário faz muito mais: é onde a topologia dos nós entra e onde lalíngua é forjada.

O argumento

O seminário mais lido do último Lacan — e um dos mais mal lidos. O título, Encore, quer dizer "ainda", "mais", "de novo", e soa também como en corps, "em corpo". Lacan o chama de "o nome próprio daquela falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor".

Três coisas fazem a importância deste ano. A primeira são as fórmulas da sexuação: um quadro com dois lados, em que se escreve o modo como cada um se situa diante do falo. Do lado masculino, todos estão submetidos a ele, porque há ao menos um que faz exceção; do lado feminino, não há exceção — e por isso a mulher é não-toda submetida ao falo. Daí a frase célebre: "A mulher não existe". É uma afirmação sobre o artigo definido — não há A mulher como universal —, e não sobre as mulheres. E daí também um gozo suplementar, do qual Lacan diz, a propósito da Santa Teresa de Bernini e das místicas: elas o sentem, mas nada sabem dele.

A segunda é lalíngua (lalangue, numa só palavra): a língua tal como se fala e se ouve, com seus equívocos, antes de qualquer gramática — aquilo de que a linguagem tenta dar conta. Por isso Lacan diz que o que faz não é linguística, mas "linguisteria".

A terceira é o nó borromeano, que Lacan havia apresentado no seminário do ano anterior e retoma aqui, em maio de 1973: três anéis presos de tal modo que, cortando um qualquer, os outros dois se soltam. A partir daí, ele ocupará os anos seguintes.

Há ainda duas sessões dadas por convidados — o filósofo François Recanati e o linguista Jean-Claude Milner —, uma homenagem a Jakobson, Aristóteles, Kierkegaard e o barroco.

O que se encontra aqui

Encore
O nome da falha de onde parte a demanda de amor: 21 de novembro de 1972.
A compacidade
O gozo pensado com a topologia: 21 de novembro de 1972.
Recanati
Uma sessão sobre a predicação e a Lógica de Port-Royal: 12 de dezembro de 1972.
Jakobson e a "linguisteria"
19 de dezembro de 1972.
Ler uma letra
"Não há realidade pré-discursiva": 9 de janeiro de 1973.
A outra satisfação
A satisfação da palavra: 13 e 20 de fevereiro de 1973.
As fórmulas da sexuação e o não-todo
13 e 20 de fevereiro, 13 e 20 de março de 1973.
"A mulher não existe"
20 de fevereiro e 13 de março de 1973.
As místicas
Santa Teresa, de Bernini, e Hadewijch de Antuérpia: 20 de fevereiro de 1973.
Não há amor sem ódio
Empédocles: 13 de março de 1973.
Milner e Kierkegaard
10 de abril de 1973.
O cristianismo e o barroco
8 de maio de 1973.
O nó borromeano
Retomado em 8 e 15 de maio de 1973 — Lacan lembra que o apresentara no ano anterior.
"Não há metalinguagem"
15 de maio de 1973.
Lalíngua
Sobretudo na última lição, 26 de junho de 1973: 23 das 24 ocorrências na fala de Lacan (a outra é de 10 de abril; as demais que as transcrições trazem estão em notas do transcritor, entre colchetes).
O rato no labirinto
26 de junho de 1973.

Lição por lição 13 sessões

  1. 121 nov. 1972
    O gozo e a compacidade

    Abertura. Encore como nome de uma falha — e a topologia.

    • "Por muito tempo, meu caminho foi algo como 'não quero saber disso'"
    • "Sempre me espanto: encore!" — ainda, de novo
    • Encore é "o nome próprio daquela falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor"
    • O periquito apaixonado pelo que há de essencial num homem: as suas roupas
    • O espaço do gozo pensado como espaço fechado, "compacto"
    • Lalíngua, primeira menção

    Bentham, Zenão (Aquiles e a tartaruga), Parmênides, Picasso

  2. 212 dez. 1972
    François Recanati: a predicação

    Uma sessão inteira dada pelo filósofo François Recanati.

    • O ser e o predicado
    • A Lógica de Port-Royal e a teoria da substância
    • O número ordinal como "nome de nome"
    • "A palavra está na posição de intérprete"

    François Recanati, Lógica de Port-Royal, Peirce, Aristóteles, Platão

  3. 319 dez. 1972
    Linguisteria

    Homenagem a Jakobson, presente na sala — e lalíngua como objeto.

    • "É difícil não falar bobagem sobre a linguagem — mas você, Jakobson, consegue"
    • Depois da descoberta do inconsciente, não se entra na linguística da mesma maneira
    • "Faço linguisteria", e o seu objeto é lalíngua
    • "Alimentar-se faz parte da besteira"

    Roman Jakobson, Saussure, Lógica de Port-Royal, Descartes, Kojève

  4. 49 jan. 1973
    Ler uma letra

    Votos de ano novo — e uma lição sobre a escrita.

    • "Ler uma letra" e "ler" não são a mesma coisa
    • A besteira, que não vai longe
    • "Não há nenhuma realidade pré-discursiva"
    • "Não digo que leiam Philippe Sollers, que é ilegível como eu — mas leiam Joyce"
    • O sujeito do inconsciente sabe ler, e pode aprender a ler

    Joyce, Saussure, Philippe Sollers

  5. 516 jan. 1973
    O amor visa o sujeito

    Sobre o eterno, a revolução copernicana e o que se visa no amor.

    • A "revolução copernicana" não foi bem uma revolução
    • O discurso da histérica, girado um quarto de volta, dá o discurso analítico
    • O ser só se apresenta como "par-ser" (par-être)
    • Onde há fumaça, há um fumante
    • O que se visa no amor é o sujeito

    Copérnico, Kepler, Newton, Parmênides, Victor Hugo

  6. 613 fev. 1973
    A outra satisfação

    Aristóteles, Bentham — e as duas maneiras de falhar a relação sexual.

    • As necessidades do ser falante estão "contaminadas" por uma outra satisfação: a da palavra
    • O gozo que se apoia na linguagem
    • A Ética a Nicômaco, de Aristóteles
    • Duas maneiras de falhar a relação sexual
    • Bentham e a teoria das ficções
    • Do lado do homem, o objeto a vem no lugar do parceiro que falta: é a fantasia

    Aristóteles, Bentham, Freud

  7. 720 fev. 1973
    Deus e o gozo d'A mulher

    A lição do gozo d'A mulher e das místicas — a mais citada do seminário. Os dois lados da sexuação já se anunciam; o quadro das fórmulas vai para a lousa na lição seguinte.

    • O gozo fálico e o "justo meio" de Aristóteles
    • O lado do "ao menos um" e o lado do não-todo
    • Um homem também pode se pôr do lado do não-todo
    • A Santa Teresa de Bernini, Hadewijch de Antuérpia, São João da Cruz
    • Das místicas: elas sentem esse gozo, mas nada sabem dele

    Bernini, Hadewijch de Antuérpia, São João da Cruz, Aristóteles, Pierre Rousselot, Kierkegaard

  8. 813 mar. 1973
    A moral é sade

    A lição que abre com o quadro das fórmulas da sexuação escrito na lousa ("Após o que acabo de vos pôr no quadro"). E, depois, o saber, a alma em Aristóteles e o ódio que Deus não conhece.

    • "Não pensem que já sabem tudo"
    • No esquema dos discursos, S2 é o saber
    • A "alma", em Aristóteles
    • Cornélia e os Gracos: "pergunte a um analista e ele dirá que não foi tão bom assim para os filhos"
    • O amor cortês, de novo
    • A moral que se diz do Bem confessa ser sade — trocadilho com "sadia" e Sade
    • Empédocles: se Deus não conhece o ódio, sabe menos que os mortais — não há amor sem ódio

    Aristóteles, Sade, Kant, Empédocles

  9. 920 mar. 1973
    O saber tem um preço

    Sobre a contingência e o preço do saber — e um pedido de respostas que ninguém atende.

    • "Bastaria que uma mão se levantasse"
    • O gozo só se evoca a partir de um semblante
    • A contingência: aquilo que "cessa de não se escrever"
    • O saber tem um preço: o seu valor é de uso, não de troca
    • Marx e Lênin, Freud e Lacan
    • Para a próxima: ler "A significação do falo"

    Marx, Lênin, Freud, Kant, Russell, Saussure

  10. 1010 abr. 1973
    Jean-Claude Milner e Kierkegaard

    Uma exposição de linguística e uma história de amor.

    • Ler "L'étourdit", o texto sobre a distância entre o dizer e o dito
    • O linguista Jean-Claude Milner apresenta a gramática transformacional
    • Berkeley
    • Kierkegaard e Regine, a noiva que ele abandonou
    • Uma homenagem a Recanati

    Jean-Claude Milner, François Recanati, Kierkegaard, Berkeley, Chomsky

  11. 118 maio 1973
    O cristianismo e o barroco

    "Penso em vocês — o que não quer dizer que os penso."

    • O amor e o seu caráter indireto
    • O cristianismo, e a história de um homem: Cristo
    • O domingo da vida, de Queneau, e Kojève
    • "Prefiro o lado do barroco"
    • A verdade e a "via" do taoísmo
    • Primeira menção do nó borromeano no ano

    Queneau, Kojève, Hegel, Aristóteles, Renan

  12. 1215 maio 1973
    O nó borromeano

    O nó volta, e com ele toda a topologia dos anos seguintes.

    • "Não há metalinguagem"
    • Uma corda fechada sobre si é já um nó
    • O nó borromeano, apresentado "no ano passado, por volta de fevereiro": três anéis tais que, cortando um, os outros dois se soltam
    • "O real é o mistério do corpo falante, o mistério do inconsciente"

    Parmênides

  13. 1326 jun. 1973
    O rato e o enxame

    Última lição: o ano relido, e um labirinto como imagem do que é o saber.

    • "A linguagem é o esforço feito para dar conta de algo que nada tem a ver com a comunicação — e que chamo lalíngua"
    • O rato no labirinto: o que ele aprende?
    • Quem sabe algo é o experimentador, que monta o labirinto
    • O S1 como enxame (essaim, que soa como S1 em francês)
    • "Nunca soube, em vinte anos, se continuaria no ano seguinte"

    Bateson, Newton, Freud

Armadilhas. (a) "A mulher não existe" é uma proposição sobre o artigo, e não sobre mulheres . (b) O gozo suplementar não é "superior", "mais profundo" nem místico no sentido devocional. (c) As fórmulas da sexuação são objeto de crítica lógica séria, inclusive quanto à validade da escrita ∀̄x; é honesto registrar a disputa. (d) O nó borromeano não é a chave de Encore inteiro: Lacan o apresentara no Seminário 19 (fevereiro de 1972) e só o retoma aqui em maio de 1973.

OS OUTROS VOLUMES

Os volumes à parte, um a um

A tese, as conferências e Televisão — oito volumes que não estão nem nos Écrits nem nos Outros escritos.

Cada ficha tem a mesma forma das fichas de seminário: o que o volume faz, o que se encontra ali, e a peça a peça com as páginas da edição indicada.

Da psicose paranoica em suas relações com a personalidadeseguido de Primeiros escritos sobre a paranoia1932 · 4 peças

Tese de doutorado em medicina · Forense-Universitária, 1987, trad. Aluisio Menezes, Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Jr.

O argumento

A tese é anterior ao ensino em dezessete anos, não está nos Écrits, e é o único lugar da obra em que Lacan escreve um caso clínico inteiro — trezentas páginas sobre uma mulher só. Quem lê a psicose lacaniana sem passar por aqui lê a foraclusão sem ter visto nunca uma paranoia.

O argumento é polêmico e tem endereço: contra a noção de constituição paranoica, que era a doutrina dominante na psiquiatria francesa. Não há um temperamento que produza a paranoia; há uma história, e o delírio tem uma estrutura que se pode reconstruir. O que virá quarenta anos depois — que o delírio é uma reconstrução e não uma destruição — já está aqui, em linguagem de psiquiatria clássica.

Aimée agride uma atriz à porta de um teatro. Lacan mostra que o ataque atinge, no alvo, a própria paciente: é o que ele chama de paranoia de autopunição. Anos depois, dirá que a obra literária de Aimée foi o que o pôs no caminho — e, num detalhe que a história cobrou, ele guardou consigo os manuscritos dela.

O que se encontra aqui
O caso Aimée
Segunda parte, a partir da p. 145 — cerca de metade do volume. Observação, comportamento, atitude mental, os escritos da paciente, a estrutura da psicose e a sua evolução.
A crítica da constituição
Primeira parte, p. 45 em diante: por que “a psicose paranoica como desenvolvimento de uma personalidade” é uma proposição e não uma descrição.
A formação histórica do grupo das psicoses paranoicas
p. 9. As três escolas — francesa, alemã, italiana — e o que cada uma fixou no vocabulário que ainda se usa.
O método
Terceira parte, p. 311, “em forma de apêndice, do método de uma ciência da personalidade”. O que se pode e o que não se pode concluir de um caso.
O problema do estilo
Nos Primeiros escritos sobre a paranoia, p. 375. É de 1933, e já trata o delírio como forma — o texto que aproxima Lacan dos surrealistas.
A epígrafe de Spinoza
Antes da introdução: “o afeto de um indivíduo difere do afeto de outro tanto quanto a essência de um difere da essência do outro”. É o programa do livro em uma linha.
Peça por peça
01p. 7I · Posição teórica e dogmática do problema

A formação histórica do grupo das psicoses paranoicas; e a psicose paranoica tomada como desenvolvimento de uma personalidade.

02p. 145II · O caso “Aimée” ou a paranoia de autopunição

O caso inteiro: comportamento, atitude mental, os escritos, a estrutura da psicose, e a anomalia de estrutura no desenvolvimento da personalidade.

03p. 311III · Em forma de apêndice, do método de uma ciência da personalidade

O que uma ciência do caso pode afirmar — e o que não pode.

04p. 373Primeiros escritos sobre a paranoia

“O problema do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranoicas da experiência” (1933) e a exposição geral dos trabalhos científicos.

O mito individual do neuróticoou Poesia e verdade na neurose1953 · 3 peças

Conferência no Collège philosophique · Zahar, 2008, trad. Claudia Berliner

O argumento

Dita em 1953, no mesmo ano do Discurso de Roma, e publicada só em 2007. É o documento mais limpo do que Lacan fazia no instante em que o ensino começa: a estrutura já está lá, e o vocabulário ainda não.

O Homem dos Ratos é lido como um mito, no sentido de Lévi-Strauss: uma constelação de quatro termos — o pai, a dívida, a mulher rica, a mulher pobre — que se repete de uma geração à seguinte com os lugares trocados. O sintoma não repete um acontecimento; repete uma relação entre lugares.

O volume traz ainda “Do símbolo e de sua função religiosa” e a intervenção de Lacan depois de uma exposição de Lévi-Strauss — de modo que se pode ver, no mesmo livro, de onde vem a noção de estrutura que ele acabara de importar.

O que se encontra aqui
O quaternário do Homem dos Ratos
p. 7 em diante. Os quatro termos e a sua permutação entre as gerações; a dívida do pai; e por que o sujeito não sabe que está repetindo.
Mito e verdade
O subtítulo é Poesia e verdade na neurose — Goethe. A verdade do sujeito tem estrutura de ficção, e isso não é uma desqualificação.
Lévi-Strauss em primeira mão
p. 49: a intervenção depois da exposição “Sobre as relações entre a mitologia e o ritual”, com a resposta dele. Um diálogo direto, e raro.
A função religiosa do símbolo
p. 26. O símbolo antes de o significante ter tomado o lugar dele no vocabulário.
Peça por peça
01p. 7O mito individual do neurótico ou Poesia e verdade na neurose

A conferência. O Homem dos Ratos, o quaternário, a dívida, e o mito como forma da verdade do sujeito.

02p. 26Do símbolo e de sua função religiosa

O símbolo, o rito e o que neles opera.

03p. 49Intervenção depois de uma exposição de Claude Lévi-Strauss

“Sobre as relações entre a mitologia e o ritual”, na Sociedade Francesa de Filosofia — com a resposta de Lévi-Strauss.

Meu ensino1967–1968 · 4 peças

Três conferências na província · Zahar, 2006, trad. André Telles

O argumento

Se alguém pergunta por onde começar a ler Lacan, a resposta honesta é este volume. São três conferências ditas fora de Paris, a públicos que não o acompanhavam, e nelas ele explica o próprio ensino — coisa que no seminário quase nunca faz.

O tom é o dos “Paradoxos”: rápido, sarcástico, sem a sintaxe que trava os Écrits. E, no entanto, o conteúdo não é rebaixado: estão aqui o inconsciente estruturado como uma linguagem, o sujeito dividido, o objeto, e a crítica da psicologia — ditos de uma vez.

A terceira conferência, “Então, vocês terão escutado Lacan”, é um exercício curioso: ele antecipa o que o público dirá que ouviu, e responde a isso. É o mais perto que ele chega de comentar a própria recepção.

O que se encontra aqui
O que é um ensino
Primeira conferência. Lugar, origem e fim — e por que um ensino de psicanálise não pode ser a transmissão de um saber constituído.
A entrada mais fácil de toda a obra
Não há texto de Lacan mais acessível que estes três, e nenhum que exija menos aparato. Servem de porta para os Seminários 14 e 15, que correm ao lado.
A crítica da psicologia
Atravessa as três conferências: o sujeito da psicanálise não é o indivíduo da psicologia, e a diferença não é de grau.
O contemporâneo
1967 e 1968: as conferências são exatamente contemporâneas da Proposição de outubro de 1967 e do Seminário 15. Lidas junto com eles, mostram o mesmo problema dito em dois registros.
Peça por peça
01p. 7Preâmbulo

Apresentação da série.

02p. 9Lugar, origem e fim do meu ensino

O que o ensino é, de onde vem e para onde vai. O inconsciente, a linguagem, o sujeito — e a crítica da psicologia.

03p. 67Meu ensino, sua natureza e seus fins

O que se transmite e o que não se transmite; o saber e a verdade.

04p. 101Então, vocês terão escutado Lacan

Ele antecipa o que o público dirá ter ouvido — e responde a isso.

Estou falando com as paredesconversas na Capela de Sainte-Anne1971–1972 · 5 peças

Zahar, 2011, trad. Vera Ribeiro

O argumento

Três conversas dadas na capela do hospital Sainte-Anne, em paralelo ao Seminário 19. Lacan volta ao lugar onde o ensino começou, e fala a um auditório de psiquiatras e internos — o auditório dos primeiros anos.

O título é uma queixa e uma tese ao mesmo tempo. Falar às paredes é falar sem resposta; mas é também o que faz com que a fala ressoe, e a ressonância é o que aqui interessa. O corpo e o gozo entram por essa porta.

É o par falado de …ou pior: os mesmos temas — o semblante, o saber, o gozo — ditos com muito menos formalismo. Para quem trava nos Seminários 18 e 19, este volume é o caminho de entrada.

O que se encontra aqui
Saber, ignorância, verdade e gozo
Primeira conversa, p. 9. As quatro coisas postas juntas — e a ignorância tratada como uma paixão, e não como falta de informação.
O semblante
Atravessa as três conversas, e é o mesmo assunto do Seminário 18. Aqui dito sem a maquinaria lógica.
O médico e o analista
O auditório é de médicos, e Lacan aproveita: o que a medicina pede ao corpo e o que a psicanálise pede a ele não são a mesma coisa.
O anexo
p. 101. Acompanha as conversas e ajuda a situá-las no ano.
Peça por peça
01p. 7Nota

De Jacques-Alain Miller, sobre a ocasião das conversas.

02p. 9Saber, ignorância, verdade e gozo

A primeira conversa.

03p. 39Da incompreensão e outros temas

A segunda. O que é não compreender, e por que isso não é um defeito da escuta.

04p. 71Estou falando com as paredes

A terceira, que dá o título ao volume.

05p. 101Anexo

Peças que situam as conversas no ano do Seminário 19.

O triunfo da religiãoprecedido de Discurso aos católicos1960 e 1974 · 12 peças

Zahar, 2005, trad. André Telles

O argumento

Dois textos separados por quatorze anos, publicados juntos — e a distância entre eles é o que torna o volume útil. O Discurso aos católicos é de março de 1960, contemporâneo do Seminário 7; O triunfo da religião é a conferência de imprensa de Roma, outubro de 1974, contemporânea de A Terceira.

No primeiro, a questão é a ética: Freud, diz Lacan, dá à moral o peso correto, e a psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo. É a matéria do Seminário 7 dita a um auditório católico, e por isso dita com todas as letras.

No segundo, a frase que ficou: a religião triunfará, porque ela é capaz de dar sentido a absolutamente tudo, e é disso que o real produz. A psicanálise não compete nesse terreno — o que ela pode é habituar ao real, que é outra coisa.

O que se encontra aqui
“Governar, educar, analisar”
p. 57. As três profissões impossíveis, ditas a jornalistas, com a clareza que o seminário não tem.
“O Verbo faz gozar”
p. 72. A fórmula que liga a religião ao gozo, e não à crença.
“Habituar-se ao real”
p. 75. O que a psicanálise pode, posta ao lado do que a religião pode — e a resposta não é otimista.
A angústia dos cientistas
p. 61. O que a ciência produz e não sabe manejar: uma leitura da época que envelheceu pouco.
A ética, catorze anos antes
Discurso aos católicos, p. 9. Duas partes: “Freud, no que se refere à moral, dá o peso correto” e “A psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo?”. Ler com o Seminário 7 ao lado.
Peça por peça
01p. 9Discurso aos católicos

Bruxelas, março de 1960.

02p. 11— Anúncio

A apresentação da conferência.

03p. 13— I. Freud, no que se refere à moral, dá o peso correto

A moral, o supereu e o que Freud não concede.

04p. 37— II. A psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo?

A pergunta do título, e a resposta.

05p. 55O triunfo da religião

Conferência de imprensa em Roma, outubro de 1974.

06p. 57— Governar, educar, analisar

As três profissões impossíveis.

07p. 61— A angústia dos cientistas

O que a ciência produz e não sabe manejar.

08p. 64— O triunfo da religião

A religião dá sentido a tudo; é por isso que vence.

09p. 68— Circunscrever o sintoma

O que a psicanálise faz, dito em uma expressão.

10p. 72— O Verbo faz gozar

A religião e o gozo.

11p. 75— Habituar-se ao real

O que se pode esperar de uma análise.

12p. 79— Não filosofar

A recusa final, e o que ela quer dizer.

Televisão1973 · 9 peças

Zahar, 1993, versão brasileira de Antonio Quinet

O argumento

Escrito para ser dito diante de uma câmera, em resposta a perguntas de Jacques-Alain Miller, e transmitido no início de 1974. É o texto mais citado do último ensino e o mais mal lido — porque a forma é acessível e a matéria não é.

A primeira frase dá o programa: “Digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue.” O resto do texto é a consequência disso, aplicada ao inconsciente, ao gozo, à ética do analista e ao mal-estar da civilização.

Vale como par de Radiofonia, de 1970: a mesma operação — responder a perguntas — em outro meio, três anos depois. E vale como aviso: as sete seções não são um resumo do ensino, são sete respostas, cada uma com o seu ângulo.

O que se encontra aqui
“Digo sempre a verdade: não toda”
Seção I, p. 9. A frase de abertura, e a razão pela qual não se trata de modéstia mas de estrutura.
O inconsciente, coisa extremamente precisa
Seção II, p. 15. Contra a ideia de um inconsciente profundo e vago.
“Ser um santo”
Seção III, p. 27. O analista como santo — que faz de dejeto, e não de modelo. Uma das poucas descrições diretas da posição do analista.
O racismo e o mal-estar
Seção V, p. 49, e o fim do texto. A previsão sobre o racismo por vir, muito citada e raramente lida por inteiro.
O descaminho do gozo
Seção V. Por onde o gozo se desvia — e o que a análise tem a ver com isso.
“O que bem se enuncia, claramente se concebe”
Seção VII, p. 77. O fecho, que inverte Boileau.
Peça por peça
01p. 7Aviso

A nota que abre o volume.

02p. 9I · [Digo sempre a verdade]

A verdade não toda; o inconsciente e a linguagem.

03p. 15II · [O inconsciente, coisa extremamente precisa]

Contra o inconsciente profundo; o saber que não se sabe.

04p. 27III · [Ser um santo]

A posição do analista, e o que ela tem de insuportável.

05p. 35IV · [Esses gestos vagos daqueles que extraem de meu discurso uma garantia]

Contra o uso do próprio nome como garantia.

06p. 49V · [O descaminho de nosso gozo]

O gozo, o corpo e o mal-estar.

07p. 61VI · [Saber, fazer, esperar]

O que se pode esperar de uma análise.

08p. 77VII · [O que bem se enuncia, claramente se concebe]

O fecho.

09p. 83Notas de tradução

De Antonio Quinet: as escolhas, uma a uma.

Discurso de Tóquio1971 · 1 peças

Tradução de Borda traduções, 2020 · edição não comercial

O argumento

Dito a analistas japoneses em 1971, entre o Seminário 18 e o 19 — os anos do semblante e da letra. O que está em causa é uma pergunta simples e incômoda: o que acontece com a psicanálise numa língua que não é a de Freud.

A resposta passa pelo significante e a escrita. Lacan insiste em que o significante não é o que a palavra parece indicar, e que a escrita japonesa — com as duas leituras de um mesmo caractere — põe isso à vista de um modo que o alfabeto esconde.

É o texto a pôr ao lado do “Aviso ao leitor japonês”, dos Outros escritos, escrito no ano seguinte. Os dois dizem coisas próximas, e a tese sobre o japonês é discutida — o que obriga a lê-los antes de repeti-los.

O que se encontra aqui
O lado índice do significante
O ponto em que o discurso insiste: o que uma primeira aproximação da língua consiste justamente em ultrapassar.
A escrita e a leitura
A relação entre o caractere e as suas leituras, e o que isso mostra do significante que o alfabeto não mostra.
O par obrigatório
“Aviso ao leitor japonês”, Outros escritos, p. 498, de janeiro de 1972.
Advertência sobre a edição
Esta tradução é de um coletivo, não comercial, e declara as suas escolhas no editorial. Citar com a referência da tradução.
Peça por peça
01p. 1Discurso de Tóquio

O discurso inteiro, com o editorial dos tradutores sobre as escolhas de tradução.

A Terceira1974 · 1 peças

Congresso de Roma, novembro de 1974 · digitalização sem camada de texto

O argumento

A conferência de Roma de 1974 é uma das peças centrais do último ensino: é ali que os três gozos são situados no nó borromeano — o gozo do sentido, o gozo fálico e o gozo do Outro —, com o objeto a no centro.

O título é literal e irônico: é a terceira vez que Lacan fala em Roma. A primeira foi o Discurso de Roma, em 1953; a segunda, em 1967. Vinte e um anos separam a primeira da terceira, e a distância entre elas mede o ensino inteiro.

Esta ficha é mais breve que as outras: A Terceira ainda será trabalhada com o devido vagar. O que se diz acima vem do lugar que a conferência ocupa na cronologia e nos seminários vizinhos.

O que se encontra aqui
Os três gozos no nó
O conteúdo pelo qual a conferência é citada. Ver, nas fichas do corpus, o Seminário 22 (1974–75), que é rigorosamente contemporâneo e onde o mesmo material aparece com data.
Peça por peça
01—A Terceira

Congresso da École Freudienne de Paris, Roma, 31 de outubro a 3 de novembro de 1974. Ficha em elaboração.

OS ÉCRITS · 1966

Os Écrits, texto por texto

A regra que torna o volume legível: para cada Escrito, localizar o seminário de que ele é o precipitado.

O que é o volume. Publicado pelo Seuil em novembro de 1966, com quase 900 páginas, reunindo textos de 1936 a 1966. Não é uma antologia: é uma construção. Lacan abre o volume com o Seminário sobre "A carta roubada" — que é de 1956 — contra a cronologia, e fecha com A ciência e a verdade, que é a lição inaugural do Seminário 13. A ordem é uma tese: começa-se pela determinação simbólica e termina-se pela questão do estatuto científico.

Como ler. Os Écrits são notoriamente difíceis, e a dificuldade tem uma causa identificável: quase todos os textos são condensações de um ano de seminário. Ler "Subversão do sujeito" sem ter percorrido os Seminários 5 e 6 é ler as conclusões sem as premissas. A regra é: para cada Escrito, localizar o seminário de que ele é o precipitado.

1. Os textos, na ordem do volume

O sumário abaixo sai do sumário da edição brasileira (Zahar, 1998, tradução de Vera Ribeiro) — daí as páginas e os títulos em português na forma publicada. Atenção: “O número treze e a forma lógica da suspeita” não está neste volume — está nos Outros escritos, p. 91. As datas vêm da Linha Temporal de Bergson Paulino e Jefferson Weyne (2020).

p.textodatao que fazseminário
9Abertura desta coletâneaOuverture de ce recueilout. 1966A nota de abertura. “O estilo é o homem a quem nos endereçamos” — e a queda do objeto a posta como resposta à questão do estilo.—
13O seminário sobre “A carta roubada”Le séminaire sur « La Lettre volée »ago. 1956Os três lugares e os três olhares; a carta que determina quem a tem. O apêndice sobre as redes α β γ δ mostra uma memória que emerge da pura simbolização. Posto na abertura contra a cronologia — e isso é uma tese.S2
69De nossos antecedentesDe nos antécédents1966Autoapresentação retrospectiva: o que havia antes de 1953, e por que o autor o recolhe agora.—
77Para-além do “Princípio de realidade”Au-delà du « principe de réalité »out. 1936Primeiro texto teórico. A crítica do associacionismo; a imago; e a psicologia recolocada no campo da linguagem.—
96O estádio do espelho como formador da função do euLe stade du miroir comme formateur de la fonction du Jejul. 1949A matriz do eu. A imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem; daí a alienação constitutiva e a agressividade que a acompanha.S1
104A agressividade em psicanáliseL’agressivité en psychanalysemaio 1948As cinco teses. A agressividade como tensão da relação especular — nem instinto, nem pulsão de morte biológica.S1
127Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologiaIntroduction théorique aux fonctions de la psychanalyse en criminologiemaio 1950Com Michel Cénac. Responsabilidade, lei e sujeito: não há crime sem sujeito que a lei suponha.—
152Formulações sobre a causalidade psíquicaPropos sur la causalité psychiqueset. 1946Contra Henri Ey. A loucura não é déficit do organismo, é posição do sujeito. “O ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura.”pré-S3
197O tempo lógico e a asserção de certeza antecipadaLe temps logique et l’assertion de certitude anticipéemar. 1945Os três prisioneiros: instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir. O texto lógico maior — e o título do Seminário 25 sai daqui.S25
214Intervenção sobre a transferênciaIntervention sur le transfertnov. 1951Dora lida por inversões dialéticas. O primeiro texto em que a transferência deixa de ser um afeto e passa a ser uma estrutura.S4
229Do sujeito enfim em questãoDu sujet enfin en question1966Nota de montagem sobre o que o volume faz com o sujeito.—
238Função e campo da fala e da linguagem em psicanáliseFonction et champ de la parole et du langage en psychanalyseset. 1953O Discurso de Roma, texto-programa de toda a obra. Fala plena e fala vazia; as três ordens; o fort-da; Lévi-Strauss; o tempo lógico; a crítica da IPA.abre S1
325Variantes do tratamento-padrãoVariantes de la cure-typefev. 1955Crítica da padronização técnica: o que se padroniza é o que se deixou de pensar.S2
365De um desígnioD’un dessein1966Nota de montagem, curta, sobre o propósito da coletânea.—
370Introdução ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de FreudIntroduction au commentaire de Jean Hyppolite…fev. 1954A denegação; a distinção entre Bejahung e Ausstossung; e o que significa dizer que algo não foi admitido no simbólico.S1
383Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de FreudRéponse au commentaire de Jean Hyppolite…fev. 1954A resposta, publicada junto com o comentário do próprio Hyppolite, em apêndice ao volume — a única vez em que um texto alheio entra nos Écrits.S1
402A coisa freudianaLa chose freudiennenov. 1955“Eu, a verdade, falo.” A prosopopeia que faz da verdade um sujeito; o retorno a Freud enunciado como retorno ao sentido.S3
438A psicanálise e seu ensinoLa psychanalyse et son enseignementfev. 1957Sobre a transmissão: o que se pode ensinar de uma prática que não se aprende senão nela.S4
461Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956Situation de la psychanalyse et formation du psychanalyste en 1956set. 1956Polêmica institucional, e o diagnóstico do que a IPA fez do ensino de Freud.—
496A instância da letra no inconsciente ou a razão desde FreudL’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freudmaio 1957Texto capital. S/s e a inversão de Saussure; as fórmulas da metáfora e da metonímia; a árvore; as portas “Damas” e “Cavalheiros”; a letra distinguida do significante; Booz endormi.S3, S5
537De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicoseD’une question préliminaire à tout traitement possible de la psychosejan. 1958Texto capital. A metáfora paterna; a foraclusão; os esquemas R e I; e a nota de 1966 que declara o campo R um corte de cross-cap.S3
591A direção do tratamento e os princípios de seu poderLa direction de la cure et les principes de son pouvoirjul. 1958Texto capital. O que o analista paga; necessidade, demanda e desejo; o sonho da bela açougueira; e “o desejo do homem é o desejo do Outro”.S5, S6
653Observação sobre o relatório de Daniel LagacheRemarque sur le rapport de Daniel Lagachejul. 1958O esquema óptico completo, com o espelho plano; I(A); e a distinção entre eu ideal e ideal do eu, que quase toda exposição confunde.S1, S8
692A significação do faloLa signification du phallusmaio 1958Texto capital. Munique. O falo como significante da falta; ser o falo, tê-lo; a mascarada.S5
704À memória de Ernest Jones: sobre sua teoria do simbolismoÀ la mémoire d’Ernest Jones : sur sa théorie du symbolismejan. 1959Crítica do simbolismo em Jones: o símbolo não é uma imagem que substitui uma coisa.S5
725De um silabário a posterioriD’un syllabaire après coup1966Nota complementar ao texto sobre Jones.—
734Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade femininaPropos directifs pour un congrès sur la sexualité féminine1958A sexualidade feminina antes das fórmulas da sexuação — e por isso mesmo o ponto de comparação obrigatório para medir o que muda em 1972.S5
749Juventude de Gide ou a letra e o desejoJeunesse de Gide ou la lettre et le désirabr. 1958O objeto, a letra e o desejo lidos a partir de uma biografia — e a carta destruída que organiza uma vida.S6
776Kant com SadeKant avec Sadeset. 1962Texto capital e difícil. A estrutura comum ao imperativo e à máxima sadiana; os dois esquemas; a vontade de gozo. Exige o Seminário 7 inteiro.S7
807Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudianoSubversion du sujet et dialectique du désir dans l’inconscient freudienset. 1960Texto capital. O grafo do desejo completo em quatro tempos; S(Ⱥ); $◊D; $◊a; Che vuoi?; o falo como √−1; e “Wo Es war, soll Ich werden”.S5, S6
843Posição do inconscientePosition de l’inconscientout. 1960Alienação e separação escritas; o vel; os círculos de Euler; a lamela; e o inconsciente como hiância e não como profundeza.S11
865Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalistaDu « Trieb » de Freud et du désir du psychanalystejan. 1964A pulsão e o desejo do analista em duas páginas. O texto mais curto do volume, e um dos mais densos.S11
869A ciência e a verdadeLa science et la véritédez. 1965Texto capital. Lição inaugural do Seminário 13, e último texto do volume. As quatro causas; os quatro modos de relação com a causa — magia, religião, ciência, psicanálise; a foraclusão do sujeito pela ciência.abre S13
893Apêndice I — Comentário falado sobre a “Verneinung” de Freud, por Jean HyppoliteAppendice I — Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud, par Jean Hyppolitefev. 1954O texto de Hyppolite, dito no Seminário 1 e conservado no volume. Não é de Lacan — e citá-lo como se fosse é erro corrente.S1

E o aparato do fim do volume, que quase ninguém abre

Índice ponderado dos principais conceitos, por Jacques-Alain Miller p. 908
Um índice de conceitos com peso: distingue a passagem em que o conceito é trabalhado daquela em que é apenas citado. É a ferramenta mais subutilizada do volume.
Quadro comentado das representações gráficas p. 917
Todos os esquemas do volume — L, R, I, óptico, grafo — reunidos e comentados um a um.
Termos de Freud em alemão p. 923
A lista dos termos alemães com a tradução adotada. Resolve metade das dúvidas de leitura.
Índice dos nomes citados p. 926
Quem aparece, e onde.
Referências bibliográficas na ordem cronológica p. 930
A bibliografia de Lacan em ordem de escrita — que é outra ordem que não a do volume.

2. O que precisa ser elucidado em cada Escrito capital

"Fonction et champ" (1953). A distinção fala plena/vazia; as três ordens; a função do símbolo; o fort-da; Lévi-Strauss e a eficácia simbólica; o tempo lógico; a crítica da IPA. É o texto programa de toda a obra.

"L'instance de la lettre" (1957). A escrita S/s e a inversão de Saussure; o algoritmo; a fórmula da metáfora f(S′/S)S ≅ S(+)s e a da metonímia f(S…S′)S ≅ S(−)s; a árvore e as portas "Damas"/"Cavalheiros"; a diferença entre a letra e o significante; a interpretação de Booz endormi.

"D'une question préliminaire" (1957–58). A metáfora paterna escrita com o cancelamento do Desejo da Mãe; a foraclusão do Nome-do-Pai; o esquema R e seus vértices M, I, P, Φ, i, m; o esquema I com os buracos P₀ e Φ₀ e as curvas assintóticas; a nota de 1966 que declara que o campo R é um corte de cross-cap. Este texto é a fonte de dois módulos inteiros de qualquer material didático sério.

"La direction de la cure" (1958). O que o analista paga: com palavras, com sua pessoa, com um juízo sobre seu ser; a distinção necessidade/demanda/desejo; a análise do sonho da bela açougueira; a crítica da interpretação por sugestão; e a formulação de que o desejo do homem é o desejo do Outro.

"Subversion du sujet" (1960). O texto mais denso do volume. Contém o grafo completo em quatro tempos, e cada um dos seus elementos precisa de elucidação separada: Δ, $, A, s(A), i(a), m, I(A), d, $◊a, S(Ⱥ), $◊D, Che vuoi?. Contém também a fórmula do falo como √−1 e a leitura de "Wo Es war, soll Ich werden".

"Kant avec Sade" (1962). Os dois esquemas; a vontade de gozo V; a fantasia sadiana como rotação da fantasia neurótica; a tese de que Sade é a verdade de Kant. Texto que exige o Seminário 7 inteiro.

"Position de l'inconscient" (1964). A escrita da alienação (o vel, a bolsa ou a vida) e da separação (a interseção das duas faltas); os círculos de Euler; a lamela.

"La science et la vérité" (1966). A causa formal, eficiente, material e final; os quatro modos de relação com a causa (magia, religião, ciência, psicanálise); a tese de que o sujeito da ciência é o sujeito sobre o qual a psicanálise opera; a foraclusão.

OS AUTRES ÉCRITS · 2001

Os Autres écrits e o que ficou de fora

Indispensável para o último ensino — e é aqui que estão Lituraterra, L'étourdit e a Proposição de 1967.

O que é o volume. Reunido por Jacques-Alain Miller e publicado pelo Seuil em 2001, junta o que ficou de fora dos Écrits: textos anteriores a 1966, textos posteriores, intervenções institucionais, prefácios, apresentações de seminários e as "Radiofonia"/"Televisão". É indispensável para o último Lacan, cujo pensamento está quase todo aqui e nos seminários não editados.

Os textos, na ordem do volume

Do sumário da edição brasileira (Zahar, 2003). Os três últimos textos do volume tiveram o número de página perdido no reconhecimento óptico do sumário: entram com um travessão.

p.textodatao que fazseminário
11PrólogoProloguefev. 2001De Jacques-Alain Miller. Diz por que o volume começa por Lituraterra — o lugar que nos Écrits coube a “A carta roubada”. Não é de Lacan.—
15LituraterraLituraterremaio 1971Texto capital. A distinção letra / significante; a letra como litoral entre saber e gozo; o ravinement; a planície siberiana vista do avião; a caligrafia japonesa; litura / littera / rature.S18
29Os complexos familiares na formação do indivíduoLes complexes familiaux dans la formation de l’individumar. 1938O artigo de enciclopédia. Desmame, intrusão, Édipo — e o declínio da imago paterna, tese que volta quarenta anos depois no sinthoma.—
91O número treze e a forma lógica da suspeitaLe nombre treize et la forme logique de la suspicion1946Exercício lógico sobre a pesagem de moedas. Está aqui, e não nos Écrits — engano corrente.—
106A psiquiatria inglesa e a guerraLa psychiatrie anglaise et la guerre1947Relato da viagem a Londres. Bion, Rickman e o grupo sem líder: uma psiquiatria que opera pelo coletivo, e não pelo médico.—
127Premissas a todo desenvolvimento possível da criminologiaPrémisses à tout développement possible de la criminologiemaio 1950Com Michel Cénac. O par do texto dos Écrits sobre criminologia.—
132Intervenção no I Congresso Mundial de PsiquiatriaIntervention au Ier Congrès mondial de psychiatrieset. 1950Sobre a psicocirurgia, e o que ela supõe do sujeito.—
139Discurso de RomaDiscours de Romeset. 1953A versão falada do que os Écrits publicam como “Função e campo”. Ler as duas lado a lado mostra o que a escrita faz com a fala.abre S1
173A psicanálise verdadeira, e a falsaLa psychanalyse vraie, et la faussejun. 1958Polêmica sobre o que distingue uma análise de uma psicoterapia.—
183Maurice Merleau-PontyMaurice Merleau-Pontyout. 1961Necrológio. O olhar, o visível e o invisível — e o que Lacan deve, e não deve, à fenomenologia.S11
195Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise resumoLes quatre concepts fondamentaux de la psychanalysejul. 1965Resumo do Seminário 11 pelo próprio Lacan, para o anuário dos Hautes Études.S11
198Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. SteinHommage fait à Marguerite Durasdez. 1965“O artista sempre precede o psicanalista.” O olhar, o a-três, e o arrebatamento tomado como estrutura e não como tema.S13
206Problemas cruciais para a psicanálise resumoProblèmes cruciaux pour la psychanalyseabr. 1966Resumo do Seminário 12 — que não tem edição estabelecida. Atalho valioso.S12
210Respostas a estudantes de filosofiaRéponses à des étudiants en philosophiefev. 1966Sobre o sujeito, a estrutura, e o que a filosofia pede à psicanálise.—
219Apresentação das Memórias de um doente dos nervosPrésentation des Mémoires d’un névropathenov. 1966Sobre Schreber, dez anos depois do Seminário 3 — e sobre o que uma tradução faz com um delírio.S3
224O objeto da psicanálise resumoL’objet de la psychanalysejul. 1967Resumo do Seminário 13. O objeto, o cross-cap e a perspectiva.S13
226Pequeno discurso no ORTFPetit discours à l’ORTFdez. 1966Primeira aparição na rádio: o ensaio geral do que será Radiofonia.—
235Ato de fundaçãoActe de fondationjun. 1964A criação da École Freudienne de Paris depois da excomunhão, e o cartel como dispositivo de trabalho: quatro mais um.—
248Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da EscolaProposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’Écoleout. 1967Texto capital. O passe; o sujeito suposto saber e a sua queda; a destituição subjetiva; e a fórmula da transferência. Ler com o Seminário 15.S15
265Discurso na Escola Freudiana de ParisDiscours à l’École freudienne de Parisdez. 1967Complemento da Proposição, dito diante da Escola que a recebeu mal.—
288Introdução de Scilicet no título da revista da EscolaIntroduction de Scilicet…jan. 1968Por que os artigos saem sem assinatura: uma revista que não faz nome a ninguém.—
299Pronunciamento na EscolaAllocution à l’Écolejan. 1969Sobre a crise interna da EFP depois de 1968.—
302Alocução sobre o ensinoAllocution sur l’enseignementabr. 1970O que se ensina quando se ensina psicanálise — e a universidade tomada como discurso.S17
311Nota italianaNote italienneabr. 1974O desejo do analista e a autorização: “o analista só se autoriza de si mesmo” — frase quase sempre citada pela metade.—
316Talvez em Vincennes…Peut-être à Vincennes…jan. 1975As quatro disciplinas que Lacan propõe para a formação: linguística, lógica, topologia e antifilosofia.—
319Carta de dissoluçãoLettre de dissolutionjan. 1980A dissolução da École. “Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”—
323A lógica da fantasia resumoLa logique du fantasmejul. 1968Resumo do Seminário 14 pelo próprio Lacan. Para um seminário sem edição estabelecida, é a fonte mais confiável e mais curta.S14
329O engano do sujeito suposto saberLa méprise du sujet supposé savoirdez. 1967O que o sujeito suposto saber tem de engano — e por que assim mesmo opera.S15
341A psicanálise. Razão de um fracassoLa psychanalyse. Raison d’un échecdez. 1967Sobre o que, na psicanálise, resiste a virar instituição.—
350Da psicanálise em suas relações com a realidadeDe la psychanalyse dans ses rapports avec la réalitédez. 1967Milão. A psicanálise não trata da realidade: trata do real — e a distinção é toda.—
359Alocução sobre as psicoses da criançaAllocution sur les psychoses de l’enfantout. 1967Sobre a criança psicótica, a instituição, e o gozo do Outro.—
369Nota sobre a criançaNote sur l’enfantout. 1969Meia página, muito citada: a criança como sintoma do casal, ou como objeto da fantasia materna. Curtíssimo, e decisivo na clínica com crianças.—
371O ato psicanalítico resumoL’acte psychanalytiquejun. 1969Resumo do Seminário 15 — outro seminário sem edição estabelecida.S15
383Prefácio à edição dos Escritos em livro de bolsoPréface à l’édition en livre de pochedez. 1969O que mudou, entre 1966 e 1969, na leitura do próprio volume.—
389Prefácio a uma tesePréface à une thèsedez. 1969Sobre a tese de Anika Rifflet-Lemaire — e sobre ser lido por quem explica.—
400RadiofoniaRadiophoniejun. 1970Sete respostas. Exposição condensada dos quatro discursos, do gozo, do corpo e do significante. Extremamente denso, e o par obrigatório de Televisão.S17
448O aturditoL’étourditjul. 1972O texto mais difícil de toda a obra. O dizer e o dito; “que se diga fica esquecido”; as fórmulas da sexuação desenvolvidas; a topologia das superfícies como demonstração, e não como ilustração. Impossível sem os Seminários 18, 19 e 20.S18–S20
498Aviso ao leitor japonêsAvis au lecteur japonaisjan. 1972Sobre uma língua em que, segundo ele, não caberia o mesmo trabalho de decifração. Tese discutível e discutida — e que é preciso ler antes de repetir.S18
503Posfácio ao Seminário 11Postface au Séminaire XIjan. 1973Sobre o que é publicar um seminário: “um escrito, a meu ver, é feito para não ser lido”.S11
508TelevisãoTélévisiondez. 1973“Digo sempre a verdade: não toda.” O texto mais acessível e mais citado do último ensino — e, por isso mesmo, o mais mal lido.S20
544…ou pior resumo…ou pirejul. 1973Resumo do Seminário 19, escrito por Lacan.S19
550Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos EscritosIntroduction à l’édition allemande…out. 1973Sobre o que se perde e o que se ganha ao traduzir — e sobre a língua alemã de Freud.—
—Prefácio a O despertar da primaveraPréface à L’éveil du printempsset. 1974Wedekind, a adolescência, e “não há relação sexual” dita a propósito de uma peça de teatro.S21
—Joyce, o SintomaJoyce le symptômejun. 1975Aberto o simpósio Joyce em Paris. O sinthoma, o escabelo, e a escrita como suplência. Circulam duas versões — e elas não dizem o mesmo.S23
—Prefácio à edição inglesa do Seminário 11Préface à l’édition anglaise du Séminaire XImaio 1976Curtíssimo e decisivo: o real, a satisfação que marca o fim de uma análise, e o “il n’y a que ça”.S11

1. Textos agrupados por tema

O agrupamento anterior cobria só os Autres écrits. Este cobre os três lugares em que a obra escrita está: os Escritos, os Outros escritos e os volumes à parte. A sigla depois de cada título diz em qual deles procurar — sem isso um agrupamento temático não serve para nada.

E Escritos (Zahar, 1998) · OE Outros escritos (Zahar, 2003) · T Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade (1932) · MI O mito individual do neurótico (1953) · ME Meu ensino (1967–68) · PA Estou falando com as paredes (1971–72) · TR O triunfo da religião, precedido de Discurso aos católicos · TV Televisão (1973) · TQ Discurso de Tóquio (1971) · T3 A Terceira (1974)

Os primeiros escritos e a clínica psiquiátrica

O que existe antes de 1953 e que quase nunca é lido — e sem o que a psicose lacaniana fica sem chão clínico.

Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade T 1932
A tese. O caso Aimée; a paranoia de autopunição; a crítica da noção de constituição. Inclui os Primeiros escritos sobre a paranoia, com “O problema do estilo”.
Formulações sobre a causalidade psíquica E 1946
Contra Henri Ey. A loucura como posição do sujeito, e não como déficit.
A psiquiatria inglesa e a guerra OE 1947
Bion, Rickman, o grupo sem líder: uma psiquiatria que opera pelo coletivo.
Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia E 1950
Com Cénac. Responsabilidade, lei e sujeito.
Premissas a todo desenvolvimento possível da criminologia OE 1950
O par do texto anterior — e o que a criminologia tem de pedir à psicanálise.
O mito individual do neurótico MI 1953
Conferência no Collège philosophique. O Homem dos Ratos lido como mito: quatro termos que se permutam. Traz também “Do símbolo e de sua função religiosa” e a intervenção depois da exposição de Lévi-Strauss.

O programa: o retorno a Freud e a crítica da técnica

Onde Lacan diz o que vai fazer, e contra quem.

Discurso de Roma OE 1953
A versão falada. Ler ao lado de “Função e campo” mostra o que a escrita faz com a fala.
Função e campo da fala e da linguagem E 1953
O texto-programa. Fala plena e vazia; as três ordens; o fort-da; a crítica da IPA.
Variantes do tratamento-padrão E 1955
O que se padroniza é o que se deixou de pensar.
A coisa freudiana E 1955
“Eu, a verdade, falo.” O retorno a Freud como retorno ao sentido.
Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956 E 1956
O diagnóstico institucional que antecede a cisão.
A psicanálise e seu ensino E 1957
O que se pode ensinar de uma prática que não se aprende senão nela.
Meu ensino ME 1967
Três conferências na província — “Lugar, origem e fim do meu ensino”, “Meu ensino, sua natureza e seus fins”, “Então, vocês terão escutado Lacan”. A porta de entrada mais fácil de toda a obra, e por isso a mais útil para quem começa.

O imaginário: a imagem, o eu, o corpo

A primeira das três ordens, e a única que se vê.

Os complexos familiares na formação do indivíduo OE 1938
Desmame, intrusão, Édipo — e o declínio da imago paterna, tese de 1938 que volta quarenta anos depois no sinthoma.
O estádio do espelho como formador da função do eu E 1949
A imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem.
A agressividade em psicanálise E 1948
As cinco teses. A agressividade é tensão da relação especular.
Observação sobre o relatório de Daniel Lagache E 1958
O esquema óptico completo, com o espelho plano; eu ideal e ideal do eu, que quase toda exposição confunde.

O significante, a letra e a escrita

A ordem simbólica, e depois a letra que se destaca dela.

O seminário sobre “A carta roubada” E 1956
Os três lugares; a carta que determina quem a tem; e o apêndice sobre as redes α β γ δ, onde uma memória emerge da pura simbolização.
A instância da letra no inconsciente E 1957
Texto capital. S/s; as fórmulas da metáfora e da metonímia; a letra já distinguida do significante.
Lituraterra OE 1971
Texto capital. A letra como litoral entre saber e gozo; o ravinement; litura / littera / rature.
Aviso ao leitor japonês OE 1972
Tese discutível e discutida sobre a língua japonesa. Ler antes de repetir.
Estou falando com as paredes PA 1972
Três conversas na Capela de Sainte-Anne, paralelas ao Seminário 19: “Saber, ignorância, verdade e gozo”, “Da incompreensão e outros temas” e “Estou falando com as paredes”. O semblante e o gozo ditos em voz baixa.

A psicose

O eixo clínico mais bem documentado da obra escrita.

Da psicose paranoica… T 1932
A tese, e o caso Aimée.
De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose E 1958
Texto capital. A metáfora paterna; a foraclusão; os esquemas R e I; e a nota de 1966 sobre o cross-cap.
Apresentação das Memórias de um doente dos nervos OE 1966
Schreber dez anos depois do Seminário 3, e o que uma tradução faz com um delírio.
Alocução sobre as psicoses da criança OE 1967
A criança psicótica, a instituição, e o gozo do Outro.
Nota sobre a criança OE 1969
Meia página: a criança como sintoma do casal, ou como objeto da fantasia materna.

O desejo, o falo e o gozo

Do grafo às fórmulas — e o que muda entre um e outro.

A significação do falo E 1958
Texto capital. O falo como significante da falta; ser, ter, a mascarada.
Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina E 1958
A sexualidade feminina antes das fórmulas da sexuação — e por isso o ponto de comparação obrigatório para medir o que 1972 muda.
Juventude de Gide ou a letra e o desejo E 1958
O objeto, a letra e o desejo lidos numa biografia.
A direção do tratamento e os princípios de seu poder E 1958
Necessidade, demanda, desejo; o sonho da bela açougueira.
Subversão do sujeito e dialética do desejo E 1960
Texto capital. O grafo completo; S(Ⱥ); $◊a; o falo como √−1.
Kant com Sade E 1962
Texto capital e difícil. Os dois esquemas; a vontade de gozo; a tese de que Sade é a verdade de Kant.
A Terceira T3 1974
Conferência em Roma. Os três gozos situados no nó — sentido, fálico, do Outro — e o objeto a no centro. Aqui o texto não pôde ser indexado: o arquivo é uma digitalização sem camada de texto.

A transferência, o ato e o fim da análise

O que acontece na análise, e como se verifica que aconteceu.

Intervenção sobre a transferência E 1951
Dora por inversões dialéticas. A transferência deixa de ser afeto e passa a ser estrutura.
A direção do tratamento E 1958
O que o analista paga: com palavras, com sua pessoa, com um juízo sobre seu ser.
Proposição de 9 de outubro de 1967 OE 1967
Texto capital. O passe; o sujeito suposto saber e a sua queda; a destituição subjetiva.
O engano do sujeito suposto saber OE 1967
O que o sujeito suposto saber tem de engano — e por que assim mesmo opera.
O ato psicanalítico resumo OE 1969
Resumo do Seminário 15 pelo próprio Lacan: a fonte mais curta e confiável para um seminário sem edição estabelecida.
Nota italiana OE 1974
“O analista só se autoriza de si mesmo” — frase quase sempre citada pela metade.
Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 OE 1976
Curtíssimo e decisivo: a satisfação que marca o fim de uma análise.

A pulsão e o inconsciente

Os conceitos de 1964, escritos fora do seminário que os produziu.

Posição do inconsciente E 1964
Alienação e separação escritas; o vel; a lamela; o inconsciente como hiância.
Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista E 1964
A pulsão e o desejo do analista em duas páginas.
Os quatro conceitos fundamentais resumo OE 1965
Resumo do Seminário 11 pelo próprio Lacan.
Posfácio ao Seminário 11 OE 1973
“Um escrito, a meu ver, é feito para não ser lido.”

Lógica, número e ciência

A formalização, do sofisma de 1945 ao texto mais difícil de todos.

O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada E 1945
Os três prisioneiros. Instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir.
O número treze e a forma lógica da suspeita OE 1946
Exercício lógico sobre a pesagem de moedas. Está nos Outros escritos, e não nos Écrits.
A ciência e a verdade E 1965
Texto capital. As quatro causas; magia, religião, ciência, psicanálise; a foraclusão do sujeito pela ciência.
Problemas cruciais para a psicanálise resumo OE 1966
Resumo do Seminário 12: Frege, a sutura, a garrafa de Klein.
A lógica da fantasia resumo OE 1968
Resumo do Seminário 14, que não tem edição estabelecida.
O aturdito OE 1972
O texto mais difícil de toda a obra. O dizer e o dito; as fórmulas da sexuação desenvolvidas; a topologia como demonstração.

Os discursos, o laço social e a época

Quando a psicanálise fala do mundo — e o que isso lhe custa.

Alocução sobre o ensino OE 1970
A universidade tomada como discurso, e não como instituição.
Radiofonia OE 1970
Sete respostas. Os quatro discursos, o gozo, o corpo, o significante. Extremamente denso, e o par obrigatório de Televisão.
Televisão TV 1973
“Digo sempre a verdade: não toda.” O capitalismo, o racismo, o mal-estar, a diferença entre psicanálise e psicoterapia. O mais acessível — e por isso o mais mal lido.
Discurso de Tóquio TQ 1971
Dito a analistas japoneses. O significante, a escrita, e o que numa outra língua não se deixa transportar.
O triunfo da religião TR 1974
Conferência de imprensa em Roma: “governar, educar, analisar”; a angústia dos cientistas; “o Verbo faz gozar”; habituar-se ao real. Precedido do Discurso aos católicos (1960), que é de vinte e cinco anos antes e prepara o Seminário 7.
Da psicanálise em suas relações com a realidade OE 1967
A psicanálise não trata da realidade: trata do real.

A instituição: fundar, transmitir, dissolver

Dezesseis anos entre um ato de fundação e uma carta de dissolução.

Ato de fundação OE 1964
A École Freudienne de Paris, e o cartel: quatro mais um.
Discurso na Escola Freudiana de Paris OE 1967
Dito diante da Escola que recebeu mal a Proposição.
Introdução de Scilicet… OE 1968
Por que os artigos saem sem assinatura.
Pronunciamento na Escola OE 1969
A crise interna depois de 1968.
Talvez em Vincennes… OE 1975
As quatro disciplinas da formação: linguística, lógica, topologia, antifilosofia.
Carta de dissolução OE 1980
“Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”

O último ensino: o nó, o sinthoma, a suplência

Onde o pensamento está quase todo — e onde os escritos são poucos.

Prefácio a O despertar da primavera OE 1974
Wedekind, a adolescência, e “não há relação sexual” dita a propósito de uma peça.
A Terceira T3 1974
Os três gozos situados no nó. Ver a advertência acima sobre este arquivo.
Joyce, o Sintoma OE 1975
O sinthoma, o escabelo, a escrita como suplência. Duas versões circulam, e não dizem o mesmo.
Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 OE 1976
O real, e o “il n’y a que ça”.

2. Nota sobre textos que não estão em nenhum dos dois volumes

Três peças importantes circulam fora dos volumes canônicos e frequentemente confundem quem estuda:

  • A conferência de Milão (12 de maio de 1972), onde o discurso capitalista é escrito. Não está nos Autres écrits na forma completa; circula em versões de trabalho.
  • Os "Nomes-do-Pai" (20 de novembro de 1963) — a única lição do seminário interrompido, publicada em volume separado.
  • Le savoir du psychanalyste (1971–72), seminário paralelo a …ou pire, com as conferências de Sainte-Anne.
Onde cada coisa está

A pesquisa

Ferramentas para localizar. Nenhuma delas responde “o que isto quer dizer” — todas respondem “onde isto está”.

O índice remissivo abaixo foi computado varrendo o texto integral dos vinte e cinco seminários e atribuindo cada ocorrência à sessão em que se encontra.

Retrato de Lacan de perfil, o rosto largamente dissolvido num campo de dígitos binários
MÓDULO · ÍNDICE REMISSIVO COMPUTADO

130 conceitos, 25 seminários, 500 sessões

Cada linha é um conceito; cada coluna, um seminário.

A intensidade da célula é a densidade de ocorrências relativa ao máximo daquele conceito — o que permite ver onde ele se concentra, e não apenas onde é frequente. Toque numa célula para abrir a lista de sessões, com data e contagem; toque no nome do conceito para ver todos os seminários. A lista é completa: todas as sessões em que o termo aparece, em ordem cronológica, com as de maior densidade destacadas.

LIMITE DO MÉTODO — LEIA ANTES DE USAR Uma contagem de ocorrências mede menção, não importância. Um conceito pode organizar um seminário inteiro sendo nomeado três vezes, e outro pode aparecer cem vezes em digressões. O caso exemplar está aqui mesmo: “sujeito” tem mais de dez mil ocorrências e isso não diz nada de específico. Este índice serve para localizar — para saber em que sessão ir procurar — e nunca para hierarquizar. Ele também não distingue Lacan de seus expositores convidados, nem menção de uso, nem afirmação de negação.
MÓDULO · CRONOLOGIA

A obra em uma linha do tempo

Cinquenta anos numa faixa só: a fita dos vinte e cinco seminários e, abaixo dela, setenta e um acontecimentos datados.

A fita de cima são os seminários, coloridos por dominante temática; arraste-a para o lado. Abaixo, três pistas de pontos: em vermelho as formalizações datadas lição por lição neste corpus — cada uma abre a lição exata; em azul os textos, com a data de escrita; em ocre, em losango, a vida, a instituição e a edição. Passe o cursor sobre um ponto e o painel abre o que ele traz.

Na tela do celular a mesma linha aparece como lista, ano a ano. A borda de cada item diz de que pista ele vem: vermelho para as formalizações datadas lição por lição neste corpus, azul para os textos, com a data de escrita, ocre para a vida, a instituição e a edição. Toque num item para abrir o que ele traz.

As datas da pista vermelha saem do corpus indexado aqui. As da pista azul vêm da Linha Temporal do Ensino de Jacques Lacan, de Bergson Paulino e Jefferson Weyne (2020), compilada a partir do Pas-tout Lacan da École lacanienne, de Roudinesco e do Staferla.

193019321934193619381940194219441946194819501952195419561958196019621964196619681970197219741976197819801982
O que a faixa mostra de imediato

Três aglomerações que nenhuma leitura temática revela. A topologia das superfícies ocupa 1962–1966 e depois praticamente desaparece. Os nós só começam em maio de 1973 — ocupam os últimos seis anos e nada antes. E o intervalo 1968–1970 concentra, em dois anos, o mais-de-gozar, a não-relação sexual e os quatro discursos: é a densidade máxima de invenção de toda a obra.

Passe o cursor sobre um ponto — ou toque nele — para abrir o que ele traz. Clique para ir à lição.

  1. 1932
  2. 1933
  3. 1936
  4. 1938
  5. 1945
  6. 1946
  7. 1948
  8. 1949
  9. 1951
  10. 1953
  11. Seminário 1Les écrits techniques de FreudOs escritos técnicos de Freud · nov. 1953 – jul. 1954
  12. 1954
  13. Seminário 2Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyseO eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise · nov. 1954 – jul. 1955
  14. 1955
  15. Seminário 3Les psychosesAs psicoses · nov. 1955 – jul. 1956
  16. 1956
  17. Seminário 4La relation d'objetA relação de objeto · nov. 1956 – jul. 1957
  18. 1957
  19. Seminário 5Les formations de l'inconscientAs formações do inconsciente · nov. 1957 – jul. 1958
  20. 1958
  21. Seminário 6Le désir et son interprétationO desejo e sua interpretação · nov. 1958 – jul. 1959
  22. 1959
  23. Seminário 7L'éthique de la psychanalyseA ética da psicanálise · nov. 1959 – jul. 1960
  24. 1960
  25. Seminário 8Le transfertA transferência · nov. 1960 – jul. 1961
  26. 1961
  27. Seminário 9L'identificationA identificação · nov. 1961 – jul. 1962
  28. 1962
  29. Seminário 10L'angoisseA angústia · nov. 1962 – jul. 1963
  30. 1963
  31. 1964
  32. Seminário 11Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyseOs quatro conceitos fundamentais da psicanálise · jan. 1964 – jul. 1964
  33. Seminário 12Problèmes cruciaux pour la psychanalyseProblemas cruciais para a psicanálise · dez. 1964 – jul. 1965
  34. 1965
  35. Seminário 13L'objet de la psychanalyseO objeto da psicanálise · dez. 1965 – jul. 1966
  36. 1966
  37. Seminário 14La logique du fantasmeA lógica da fantasia · nov. 1966 – jul. 1967
  38. 1967
  39. Seminário 15L'acte psychanalytiqueO ato psicanalítico · nov. 1967 – jul. 1968
  40. 1968
  41. Seminário 16D'un Autre à l'autreDe um Outro ao outro · nov. 1968 – jul. 1969
  42. 1969
  43. Seminário 17L'envers de la psychanalyseO avesso da psicanálise · nov. 1969 – jul. 1970
  44. 1970
  45. 1971
  46. Seminário 18D'un discours qui ne serait pas du semblantDe um discurso que não fosse semblante · jan. 1971 – jul. 1971
  47. Seminário 19…ou pire…ou pior · dez. 1971 – jul. 1972
  48. 1972
  49. Seminário 20EncoreMais, ainda · nov. 1972 – jul. 1973
  50. 1973
  51. Seminário 21Les non-dupes errentOs não-tolos erram · nov. 1973 – jul. 1974
  52. 1974
  53. Seminário 22R.S.I.Real, simbólico, imaginário · nov. 1974 – jun. 1975
  54. 1975
  55. Seminário 23Le sinthomeO sinthoma · nov. 1975 – jun. 1976
  56. 1976
  57. Seminário 24L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourreO insabido que sabe da uma-equivocação alça-se ao amor · nov. 1976 – jun. 1977
  58. 1977
  59. Seminário 25Le moment de conclureO momento de concluir · nov. 1977 – jun. 1978
  60. 1980
  61. 1981
MÓDULO · PANORAMA DOS SEMINÁRIOS

Os vinte e cinco seminários em uma página

Cada seminário numa linha: o título, os anos, o número de lições e onde está o essencial.

# título anos lições onde está o essencial
1 Les écrits techniques de FreudOs escritos técnicos de Freud 1953–54 23 fala plena/vazia; o eu imaginário; modelo óptico; a Verneinung (10 fev. 54)
2 Le moi…O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise 1954–55 25 esquema L; A carta roubada; a máquina simbólica — psicanálise e cibernética (22 jun. 55)
3 Les psychosesAs psicoses 1955–56 25 foraclusão (15 fev. 56); metáfora/metonímia (9 maio 56); ponto de basta (6 jun. 56)
4 La relation d'objetA relação de objeto 1956–57 24 as três faltas de objeto; o pequeno Hans (abr.–jun. 57)
5 Les formations de l'inconscientAs formações do inconsciente 1957–58 27 o chiste; metáfora paterna (jan. 58); o grafo se constrói
6 Le désir et son interprétationO desejo e sua interpretação 1958–59 27 Ella Sharpe (jan.–fev. 59); Hamlet (mar.–maio 59); a fantasia
7 L'éthique de la psychanalyseA ética da psicanálise 1959–60 27 das Ding (dez. 59); Sade (30 mar. 60); Antígona (maio–jun. 60)
8 Le transfertA transferência 1960–61 27 o Banquete (nov.–dez. 60); agalma (1 fev. 61)
9 L'identificationA identificação 1961–62 26 traço unário; o toro (11 abr. 62); cross-cap (jun. 62)
10 L'angoisseA angústia 1962–63 25 o objeto a; acting out × passagem ao ato (23 jan. 63)
11 Les quatre concepts…Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 1964 20 tyché/automaton; o olhar (mar. 64); lamela (20 maio 64); alienação e separação (maio–jun. 64)
12 Problèmes cruciaux…Problemas cruciais para a psicanálise 1964–65 24 garrafa de Klein (dez. 64–jan. 65); Frege / sutura (27 jan. 65); Möbius (10 mar. 65)
13 L'objet de la psychanalyseO objeto da psicanálise 1965–66 23 "A ciência e a verdade" (1 dez. 65); topologia (30 mar. 66); Las Meninas (maio 66)
14 La logique du fantasmeA lógica da fantasia 1966–67 24 o cogito reescrito; número de ouro; gozo (maio–jun. 67)
15 L'acte psychanalytiqueO ato psicanalítico 1967–68 18 o ato; sujeito suposto saber (fev. 68); quantificadores (28 fev.–20 mar. 68)
16 D'un Autre à l'autreDe um Outro ao outro 1968–69 25 mais-de-gozar (13 nov. 68); Pascal (jan. 69); "não há relação sexual" (12 mar. 69)
17 L'envers de la psychanalyseO avesso da psicanálise 1969–70 13 os quatro discursos (26 nov. 69; 18 fev. e 11 mar. 70); Totem e tabu
18 D'un discours qui ne serait pas du semblantDe um discurso que não fosse semblante 1971 10 o semblante; a letra; Joyce (12 maio 71); Lituraterra
19 …ou pire…ou pior 1971–72 12 "Y a d'l'Un" (15 mar. 72); Peirce e os quantificadores (14 jun. 72)
20 EncoreMais, ainda 1972–73 13 sexuação (20 fev. e 13 mar. 73); não-todo (10 abr. 73); nó borromeano (15 maio 73); lalíngua (26 jun. 73)
21 Les non-dupes errentOs não-tolos erram° 1973–74 15 o equívoco do título (13 nov. 73); a trança; gozo e mulher (11 jun. 74)
22 R.S.I.Real, simbólico, imaginário 1974–75 12 consistência/ex-sistência/furo; sintoma como quarto (21 jan. 75); nominação (13 maio 75)
23 Le sinthomeO sinthoma 1975–76 11 o sinthoma (18 nov. 75; 17 fev. 76); Joyce; o ego como suplência (11 maio 76)
24 L'insu que sait…O insabido que sabe da uma-equivocação alça-se ao amor° 1976–77 12 l'une-bévue; identificação (16 nov. 76); a trança (18 jan. 77); o passe (8 fev. 77)
25 Le moment de conclureO momento de concluir 1977–78 12 a psicanálise não é uma ciência; o furo; Soury e Thomé (mar. 78)

Total verificado: 500 sessões documentadas no corpus.

MÓDULO · MUTAÇÕES CONCEITUAIS

A tabela de mutações — o que cada termo significa em cada década

Quase todo contrassenso sobre Lacan nasce de aplicar a um período o sentido que um termo tem em outro.

Esta é, na prática, a ferramenta mais útil do CyberLacan, porque quase todo contrassenso sobre Lacan nasce de aplicar a um período o sentido que um termo tem em outro. Vinte termos entram aqui, e o critério para entrar é exigente: não basta o termo atravessar a obra — é preciso que ele signifique coisas diferentes em cada um dos quatro períodos. Por isso “angústia” não está na tabela e “gozo” está.

DESTACAR DÉCADA:
termo1953–19581959–19661967–19721973–1979
objeto ao outro imaginário, o semelhante (esquema L)objeto causa do desejo; resto da separação; o que caimais-de-gozar; produto do discursoo que se aperta no centro do nó
o Outrolugar da fala verdadeira; garantiabarrado: S(Ⱥ)“não há Outro do Outro”; inconsistentenão existe como parceiro; “o Outro não existe”
gozoquase ausente do vocabulárioalém do prazer; ligado a das Dingplural: fálico, do Outro, mais-de-gozarinscrito no nó; gozo do sinthoma
o paifunção simbólica que ordenapai da horda; exceção lógicaum mito; o pai morto de Totem e tabuum nome entre outros; père-version; substituível pela suplência
sintomamensagem cifrada a decifrarmetáfora; retorno do recalcadofunção no discursoquarto elo que ata o nó; sinthoma; com que se aprende a fazer
sujeitoefeito da fala; $dividido; evanescente entre dois significantesefeito de discursoparlêtre: um corpo afetado por lalíngua
inconscienteestruturado como uma linguagemhiância; pulsação temporalsaber que não se sabeune-bévue: um tropeço, um engano de uma vez
realo que resta fora do simbólicoo impossível; o encontro faltoso (tyché)o que não cessa de não se escrevera ex-sistência; o que não tem sentido nenhum
fim de análisefala plena; assunção da históriatravessia da fantasiaqueda do sujeito suposto saber; destituição subjetivaidentificar-se com o sintoma; savoir-faire
escritasecundária à falaa letra começa a se separar do significantea letra como litoral (Lituraterra)operação que repara o nó; a escrita de Joyce
topologiaausentesuperfícies: toro, Möbius, cross-cap, Kleinas superfícies como demonstração (L'étourdit)nós: borromeano, trevo, trança, reta infinita
interpretaçãorestituir a fala plena; pontuar a histórianão dar sentido; visar o desejooperar pelo equívoco; cortartocar o real pelo equívoco de lalíngua
desejoo que se faz reconhecer na fala; desejo do desejo do Outroarticulado no grafo; sustentado pela fantasia $◊a; “não ceder de seu desejo”efeito de discurso; o desejo do analista é uma função, não uma vontadecede o primeiro plano ao gozo; o que resta dele passa pelo sinthoma
transferênciaintersubjetividade; uma resistência a manejar pela falaamor de transferência; o agalma suposto ao analistasujeito suposto saber — e sua queda no fim (Proposição de 1967)o amor como signo de que se está mudando de discurso
sabero que o sujeito não sabe que sabe; articulado na cadeiasaber suposto ao Outro; o sujeito que a ciência suturaS₂: o lugar do trabalho no discurso; um saber que se gozasavoir-faire: saber fazer com o sintoma, não saber sobre ele
verdade“Eu, a verdade, falo”; a verdade da história do sujeitouma causa; o que a ciência foraclui para poder operarsó se diz pela metade — o mi-dire; e ocupa um lugar, embaixo à esquerda“digo sempre a verdade: não toda”
corpoimagem: o corpo despedaçado que a forma antecipa e unificasuporte dos objetos que dele se destacam — seio, fezes, olhar, vozo que o significante marca e recorta; uma superfície com bordaso que se goza; o parlêtre é um corpo afetado por lalíngua
linguagemuma estrutura: o inconsciente é estruturado como uma linguagema letra começa a se destacar delanão há metalinguagem; a linguagem se reparte em discursoselucubração de saber sobre lalíngua — e lalíngua vem antes
significanteo que representa o sujeito para outro significanteS₁ e S₂; o traço unário como significante mínimoS₁ é o significante-mestre, e comanda um discurso“Y a d’l’Un”: o Um sozinho, antes de qualquer par
faloo que falta à mãe; ser o falo, tê-lo, a mascaradasignificante da falta: Φ, escrito também como √−1a função Φx, e os quantificadores que a limitamo gozo fálico, um dos gozos do nó — e aquele que não basta
A LISTA MESTRA

Duzentos itens: tudo o que precisa ser elucidado

O inventário completo, em dezesseis famílias. Cada item traz o que ele é, onde costuma ser mal entendido, e em que lição ir procurar — e cada localização é um link. Filtre por qualquer palavra.

O inventário do que um material didático sobre Lacan precisa cobrir. Está organizado por natureza do item, e não por seminário, porque é assim que se constrói um currículo — mas cada item devolve ao corpus pelo caminho mais curto.

As localizações obedecem à mesma regra da linha do tempo: uma data só entra se for data de lição no índice deste site. Onde o item se elucida num texto escrito, e não numa lição, a referência traz a sigla do volume (E Escritos · OE Outros escritos · L volume à parte). Onde a noção atravessa um ano inteiro sem lugar único, a localização é o seminário todo.

1. As três ordens e o nó

1Imaginário — a imagem, a forma, a captura especular (S1, S2)A ordem da imagem, da forma e da semelhança — e a da captura: o eu se constitui numa imagem que vem de fora e que ele toma por si. Imaginário não quer dizer “irreal”; quer dizer da ordem da imagem.S1 · 7 abr. 1954 S2 todo o ano E O estádio do espelho
2Simbólico — a lei, a diferença, a cadeia (S2, S3)A ordem da lei, da diferença e da cadeia. Um significante não tem valor em si: tem valor por não ser os outros. É a ordem em que se conta, se nomeia e se troca.S2 · 22 jun. 1955 S3 · 6 jun. 1956 E Função e campo da fala e da linguagem
3Real — o impossível, o que retorna ao mesmo lugar (S7, S11)O que resiste à simbolização — não o que está “lá fora”. Definido três vezes ao longo da obra: o que resta fora do simbólico, depois o impossível, depois a ex-sistência.S7 · 27 jan. 1960 S11 · 19 fev. 1964 S22 todo o ano
4A distinção real / realidade — erro nº 1 dos iniciantesErro nº 1. A realidade é o que a fantasia enquadra e torna habitável; o real é o que fura esse enquadramento. A realidade é do lado do sentido; o real não tem sentido nenhum.S11 · 19 fev. 1964 S23 todo o ano
5O nó borromeano de três (S20, 15 maio 1973)Três elos tais que, cortado um qualquer, os outros dois ficam livres — nenhum está preso a nenhum, e ainda assim os três se seguram. Entra no Seminário 19, em 9 de fevereiro de 1972, e é retomado no fim de Encore.S20 · 15 maio 1973 S22 todo o ano
6As sete regiões do nó e seus nomes: sentido, gozo fálico, gozo do Outro, objeto aO nó de três recorta sete regiões, e cada uma tem nome: o sentido entre simbólico e imaginário, o gozo fálico entre simbólico e real, o gozo do Outro entre real e imaginário, e o objeto a no centro, onde os três se cruzam.S22 todo o ano L A Terceira
7Por que borromeano e não em corrente — a recusa da relação bináriaNuma corrente, cada elo prende o vizinho: é a relação binária. No nó borromeano não há relação de dois — só o três segura. É a escrita da tese de que não há relação sexual.S20 · 15 maio 1973 S22 todo o ano
8O quarto elo; a nominação; o sinthoma (S22, 13 maio 1975; S23, 18 nov. 1975)Quando o nó de três falha, um quarto elo o repara. Esse quarto tem três nomes conforme o ângulo: nominação, sintoma, sinthoma.S22 · 13 maio 1975 S23 · 18 nov. 1975

2. O significante e a letra

9Significante e significado; o algoritmo S/s (Instância da letra)S/s: o significante sobre o significado, e a barra entre eles. Saussure escrevia o contrário, e com uma elipse em torno do par; Lacan inverte e corta a elipse.S3 · 9 maio 1956 E A instância da letra
10A barra como resistência, não correspondênciaA barra não é um traço de correspondência: é o que resiste à significação. Ler S/s como “este significante quer dizer aquele significado” é desfazer toda a operação.S3 · 9 maio 1956 E A instância da letra
11O significante representa o sujeito para outro significanteA definição canônica, e a mais maltratada: o significante representa o sujeito para outro significante — e não para uma pessoa, nem para um sentido. O sujeito é o que aparece entre dois, e desaparece.S9 · 24 jan. 1962 S11 · 3 jun. 1964
12A cadeia; a diacronia; a retroaçãoA cadeia se escreve para a frente e significa para trás. Só no fim da frase é que as palavras anteriores ganham o sentido que terão tido.S3 · 6 jun. 1956 S5 · 29 jan. 1958
13O ponto de basta (S3, 6 jun. 1956)Point de capiton: o ponto em que o significante detém o deslizamento e fixa a significação — como o botão que prende o estofo. A metáfora é de estofador, e é literal.S3 · 6 jun. 1956 S5 todo o ano
14Metáfora — a fórmula, o cruzamento da barra, o significante que cai (S3, 9 maio 1956)Um significante vem no lugar de outro, e o substituído cai sob a barra. É o cruzamento da barra que produz significação nova — e é por isso que a metáfora é o mecanismo do sintoma.S3 · 9 maio 1956 S5 · 29 jan. 1958 E A instância da letra
15Metonímia — o deslizamento, a barra mantidaO deslizamento de um significante ao seguinte, com a barra mantida. Nenhuma significação nova: por isso a metonímia é o mecanismo do desejo, que não se satisfaz em objeto nenhum.S3 · 9 maio 1956 E A instância da letra
16Condensação e deslocamento em Freud, e sua traduçãoFreud descreve condensação e deslocamento como trabalho do sonho; Lacan os traduz em metáfora e metonímia — e a tradução não é ilustrativa, é uma tese sobre o inconsciente.S5 · 20 nov. 1957 E A instância da letra
17A letra distinguida do significante (Lituraterra, S18)A letra não é o significante: é o seu suporte material, o que nele não faz sentido. O litoral entre saber e gozo — e é por isso que a letra tem borda, e o significante não.S18 todo o ano OE Lituraterra
18Lalíngua (S20, 26 jun. 1973)Lalangue, numa só palavra: o que resta do banho de língua em que o corpo foi mergulhado, antes de qualquer gramática. A linguagem é a elucubração de saber sobre lalíngua.S20 · 26 jun. 1973 S21 todo o ano S24 todo o ano
19O equívoco e a homofonia como via da interpretaçãoA interpretação não dá sentido: corta pelo equívoco — homofonia, gramática, lógica. É a técnica que corresponde a lalíngua.S21 · 13 nov. 1973 S24 todo o ano
20O traço unário (S9)Einziger Zug: o traço que só marca que houve uma marca, sem nada qualificar. O bastão com um entalhe de que Lacan fala: um, e mais um, e mais um — e cada um idêntico aos outros por ser puro traço.S9 · 29 nov. 1961 S9 · 6 dez. 1961 S17 todo o ano
21A escrita, o litoral, o ravinementRavinement: a escrita como sulco, rasgo na superfície — e não como registro do que se disse. A planície siberiana vista do avião, e a caligrafia.S18 todo o ano OE Lituraterra
22O sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado; o "ne" expletivo (S6, dez. 1958)Quem fala não é quem é falado. O “ne” expletivo do francês — je crains qu’il ne vienne — é a pegada gramatical do sujeito da enunciação dentro do enunciado.S6 · 10 dez. 1958 S9 · 22 nov. 1961

3. O sujeito

23O sujeito não é a pessoa nem o euNem a pessoa, nem o indivíduo, nem o eu. O sujeito da psicanálise é um efeito do significante — aparece e desaparece entre dois, e por isso se escreve barrado.S11 · 3 jun. 1964 S14 · 25 jan. 1967
24O eu (moi) como instância imaginária (S1, S2)Moi: a instância imaginária, sede do desconhecimento. Não é o aliado do tratamento — é o que resiste. Toda a crítica à ego psychology está nisto.S1 · 31 mar. 1954 S2 todo o ano
25O estádio do espelho (1949; S1)A criança reconhece-se no espelho antes de ter coordenação: a imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem. A identificação é jubilatória e alienante — as duas coisas, sempre.S1 · 7 abr. 1954 E O estádio do espelho
26Eu ideal e ideal do eu; i(a), m, I(A) (Observação sobre Lagache)Três termos que a exposição corrente confunde: i(a), a imagem do outro; m, o eu; I(A), o traço tomado do Outro a partir do qual o sujeito se vê. Ideal do eu é simbólico; eu ideal é imaginário.S1 · 31 mar. 1954 S8 · 7 jun. 1961 E Observação sobre o relatório de Daniel Lagache
27O esquema óptico do buquê invertido, com e sem espelho planoO buquê invertido: um espelho côncavo produz a imagem real de um vaso em torno das flores. Acrescente-se um espelho plano, e a posição do observador passa a depender do Outro. O modelo e o espelho plano estão no Seminário 1 (abril de 1954); o texto sobre Lagache os retoma.S1 · 7 abr. 1954 E Observação sobre o relatório de Daniel Lagache
28O sujeito barrado $; a divisão$: o sujeito é dividido porque fala. Não há um sujeito primeiro que depois se divide — a divisão é constitutiva.S11 · 17 jun. 1964 S14 · 25 jan. 1967
29A afânise e o desaparecimento (S6, S11)Aphanisis: Ernest Jones chamava assim o desaparecimento do desejo; Lacan desloca o termo para o desaparecimento do sujeito sob o significante que o representa.S6 · 17 dez. 1958 S11 · 3 jun. 1964
30O tempo lógico: instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir (1945)O sofisma dos três prisioneiros: o instante de ver, o tempo para compreender, o momento de concluir. A conclusão é antecipada e por isso arriscada — e é assim que o sujeito se afirma.E O tempo lógico S25 todo o ano
31"Wo Es war, soll Ich werden" e a torção de LacanFreud escreve “onde isso era, eu devo advir”; a tradução corrente psicologiza (“o eu deve tomar o lugar do isso”). Lacan lê ao contrário: é dever ético de advir ali onde isso falava.E Subversão do sujeito S11 todo o ano
32A sutura: o zero contado como um (S12, Frege)Frege faz o zero ser contado como um, e é assim que a série dos números começa. Miller chama a isso sutura, numa exposição no seminário em 24 de fevereiro de 1965. Lacan já usava a palavra, mas para a costura de bordas na topologia: o conceito, nesse sentido lógico, é de Miller.S12 · 24 fev. 1965 S12 · 2 jun. 1965

4. O Outro

33O Outro não são as outras pessoasA não são as outras pessoas: é o lugar da linguagem, o tesouro dos significantes, aquilo a que a fala se endereça mesmo quando não há ninguém.S2 todo o ano S5 · 11 dez. 1957
34A como tesouro dos significantes e lugar da falaO Outro como lugar de onde se fala e onde a fala é recebida. É por estar lá que uma mensagem pode ser verdadeira ou falsa — e que se pode mentir.S2 todo o ano S5 · 11 dez. 1957 S9 · 22 nov. 1961
35O Outro barrado Ⱥ; S(Ⱥ)Ⱥ: o Outro é barrado porque também lhe falta um significante. S(Ⱥ) é o significante dessa falta no Outro — e é o ponto mais alto do grafo do desejo.S12 · 16 jun. 1965 E Subversão do sujeito
36"Não há Outro do Outro" (S16)Não há um segundo Outro que garanta o primeiro. Nenhuma metagarantia: a verdade não tem fiador.S16 todo o ano S16 · 11 jun. 1969
37"Não há metalinguagem"Não há língua de fora a partir da qual se fale sobre a língua. É a mesma tese do item anterior, em registro lógico.S14 · 23 nov. 1966 S16 todo o ano
38O Che vuoi? e o enigma do desejo do Outro (S6)Che vuoi? — “que queres?”, tomado a Cazotte. O sujeito não pergunta o que o Outro diz, mas o que ele quer ao dizer. Do enigma dessa pergunta nasce a fantasia, como resposta.S6 · 19 nov. 1958 E Subversão do sujeito
39A mensagem recebida em forma invertidaA fórmula do grafo: o emissor recebe do receptor a própria mensagem em forma invertida. Dizer “tu és minha mulher” é ficar comprometido por aquilo que se disse.S2 todo o ano S3 · 30 nov. 1955
40A extimidade (S7)O mais íntimo é o mais estranho: o que há de mais próprio no sujeito tem estatuto de exterior. A palavra é composta — ex + intimidade, e Lacan a forja a propósito da Coisa.S7 · 10 fev. 1960

5. Desejo, demanda, gozo

41Necessidade / demanda / desejo — a subtração (S5)A necessidade passa pelo pedido e, ao passar, perde-se: o que sobra da subtração é o desejo. Nenhum objeto o satisfaz, porque ele não é falta de objeto — é o resto de uma operação.S5 · 7 maio 1958 E A direção do tratamento
42Toda demanda é demanda de amorToda demanda, qualquer que seja o seu objeto, pede também a presença de quem responde. Por isso satisfazer o pedido não apaga a demanda.S5 · 7 maio 1958 S5 · 14 maio 1958
43O desejo como desejo do Outro, nos dois sentidosNos dois sentidos ao mesmo tempo: deseja-se o que o Outro deseja, e deseja-se ser desejado por ele. A ambiguidade não é defeito da fórmula.S6 · 19 nov. 1958 S11 · 17 jun. 1964
44O desejo como metonímiaO desejo desliza de significante em significante e não para em nenhum: a metonímia é a sua estrutura, e não apenas uma imagem dela.S3 · 9 maio 1956 S6 · 10 jun. 1959
45O desejo insatisfeito (histeria) e o desejo impossível (obsessão) (S5, S6)Duas soluções para o mesmo impasse: a histérica sustenta um desejo insatisfeito — o sonho do salmão defumado —, o obsessivo um desejo impossível. Não são graus de gravidade: são posições.S5 · 30 abr. 1958 S5 · 21 maio 1958
46Das Ding (S7); a distinção das Ding / die SacheDas Ding: o vazio em torno do qual gira toda a representação. Freud escreve Sachvorstellung, e não Dingvorstellung — e é sobre essa letra que Lacan apoia a distinção entre a Coisa e a coisa.S7 · 9 dez. 1959 S7 · 16 dez. 1959
47O vazio e o vaso; a caixa de fósforos (S7)O vaso do oleiro é feito em torno de um vazio, e o vazio é anterior ao barro. A caixa de fósforos de Prévert, enfileirada às centenas, mostra o mesmo pelo avesso.S7 · 20 jan. 1960 S7 · 27 jan. 1960
48A sublimação: elevar o objeto à dignidade da CoisaA definição que todo mundo cita: elevar o objeto à dignidade da Coisa. Falta sempre a metade seguinte — a sublimação não é uma saída elevada nem uma renúncia bem-sucedida.S7 · 9 mar. 1960 S16 · 23 abr. 1969
49Gozo e princípio do prazer; o alémO prazer é homeostático: baixa a tensão. O gozo vai além, e por isso dói. Não é “prazer intenso” — é o que o princípio do prazer existe para conter.S10 · 13 mar. 1963 S7 todo o ano
50Gozo fálico JΦ; gozo do Outro J(Ⱥ); gozo suplementar (S20)JΦ, o gozo fálico, que passa pelo órgão e pelo significante; J(Ⱥ), o gozo do Outro, que não há; e o suplementar — que é suplementar, e não complementar: não completa coisa nenhuma.S20 · 20 fev. 1973 S22 todo o ano
51Mais-de-gozar e a analogia com a mais-valia (S16, 13 nov. 1968)Plus-de-jouir, construído por homologia com a mais-valia de Marx — e Lacan insiste em que é homologia, e não metáfora nem analogia.S16 · 20 nov. 1968 S16 · 4 dez. 1968
52"Não ceder de seu desejo" — e o que isso não quer dizer (S7)Não quer dizer “realize seus desejos”. Quer dizer não recuar diante do que o próprio desejo tem de insuportável — e é uma máxima de tragédia, não de autoajuda.S7 · 6 jul. 1960 S7 · 15 jun. 1960

6. O objeto a

53As três mutações de a: outro imaginário → objeto causa → mais-de-gozarO mesmo sinal, três coisas: nos anos 50 o outro imaginário do esquema L; nos 60 o objeto causa do desejo, resto da separação; nos 70 o mais-de-gozar. Aplicar o terceiro sentido a um texto do primeiro período é o erro mais comum de todos.S10 · 3 jul. 1963 S16 · 20 nov. 1968 S2 todo o ano
54a como causa e não como objeto desejadoa não é o que se deseja: é o que causa o desejo, e por isso está atrás, e não à frente. Confundir causa com objeto desfaz a fantasia inteira.S10 · 19 jun. 1963 S11 · 20 maio 1964
55As três faltas de objeto: frustração, privação, castração — e o cruzamento dos registros (S4)Frustração, privação, castração — e o quadro que as cruza com os três registros, com três agentes e três tipos de objeto. É a tabela mais útil do Seminário 4, e a mais copiada errada.S4 · 30 jan. 1957 S4 todo o ano
56Os objetos: seio, fezes, olhar, voz; os derivados: nada, fonema, faloSeio, fezes, olhar, voz — os quatro que se destacam do corpo. Os dois últimos são acréscimo de Lacan a Freud, e é neles que está a novidade.S10 · 19 jun. 1963 S11 · 11 mar. 1964
57O olhar como objeto; a esquize do olho e do olhar (S11)O olho vê; o olhar vem do lado do objeto e olha o sujeito. A esquize entre os dois é o que a perspectiva clássica recobre e a anamorfose revela.S11 · 11 mar. 1964 S13 · 25 maio 1966
58Os dois triângulos; a mancha; a telaO triângulo da perspectiva, com o ponto geometral, e o triângulo invertido, com o ponto luminoso; a mancha; e a tela, onde os dois se sobrepõem.S11 · 4 mar. 1964 S11 · 11 mar. 1964
59A anamorfose; Holbein; Zêuxis e Parrásio; a lata de sardinhas (S7, S11)A caveira deformada no primeiro plano dos Embaixadores; Zêuxis, que engana os pássaros, e Parrásio, que engana Zêuxis; e a lata de sardinhas que brilha no mar — “ela não te vê, mas olha para ti”.S7 · 10 fev. 1960 S11 · 26 fev. 1964 S11 · 4 mar. 1964
60Agalma (S8, 1 fev. 1961)O objeto precioso escondido dentro do Sileno feio. Alcibíades supõe-no em Sócrates, e é por isso que o ama — e Sócrates devolve-lhe: “é a Agatão que te diriges”.S8 · 8 fev. 1961 S8 · 1 fev. 1961
61A lamela e o mito da libido (S11, 20 maio 1964)A hommelette: o órgão irreal da libido, o que voa quando se rompem as membranas do ovo. É um mito, e Lacan diz que é — o que não o torna dispensável.S11 · 20 maio 1964 E Posição do inconsciente
62O objeto como queda; a angústia e o objeto (S10)O a é o que cai, o que se cede. A angústia surge quando essa queda não se dá — quando a falta falta.S10 · 30 jan. 1963 S10 · 3 jul. 1963
63A extração do a do cross-cap (S9, S13)O duplo corte no cross-cap — o oito interior — destaca um disco e deixa o resto orientável. É a demonstração topológica da extração do objeto.S9 · 13 jun. 1962 S13 · 15 dez. 1965

7. O falo e a sexuação

64O falo não é o pênisErro elementar. O falo é um significante, não um órgão. Uma mulher pode tê-lo, um homem pode não tê-lo — e é disso que a clínica trata.S4 · 30 jan. 1957 S5 · 7 maio 1958 E A significação do falo
65Falo imaginário φ; falo simbólico Φ; (−φ)Três escritas que não se substituem: φ, o falo imaginário, que se tem ou não se tem; Φ, o simbólico, significante da falta; (−φ), o negativo que a castração inscreve na imagem do corpo.S4 · 30 jan. 1957 S10 · 5 dez. 1962
66Ser o falo / ter o falo; a mascarada (S5)A criança é ou não é o falo da mãe; o adulto tem-no ou não o tem. E a mascarada: exibe-se ter para ocultar não ser.S5 · 12 mar. 1958 S5 · 7 maio 1958
67A significação do faloO texto de Munique. O falo é o significante destinado a designar os efeitos de significado — e só desempenha esse papel velado. Não é uma tese sobre o corpo masculino.E A significação do falo S18 · 9 jun. 1971
68O falo como √−1 (Subversão do sujeito)√−1: um número que não existe no campo dos reais e sem o qual as contas não fecham. A escrita é literal, e é assim que deve ser explicada.E Subversão do sujeito S9 · 17 jan. 1962
69As fórmulas da sexuação: ∃x Φ̄x, ∀x Φx, ∃̄x Φ̄x, ∀̄x Φx (S19, S20)Quatro fórmulas, e as duas primeiras são as que todo mundo troca: existe ao menos um que não, e todos; do outro lado, não existe nenhum que não, e não-todo.S18 · 19 maio 1971 S19 · 15 dez. 1971 S20 · 13 mar. 1973
70A exceção que funda o todo; o pai da hordaO todo só se fecha porque há uma exceção que o funda: é o pai da horda de Totem e tabu, lido como operador lógico, e não como facto antropológico.S17 · 18 mar. 1970 S19 · 10 maio 1972
71O não-todo e por que ele exige o domínio infinito (S20, 13 mar. 1973)O não-todo não é “parcial” nem “menos”: é uma quantificação que não fecha em conjunto. Por isso exige um domínio infinito — e é aí que Cantor entra.S19 · 8 dez. 1971 S19 · 10 maio 1972 S20 · 13 mar. 1973
72La̶ — "A mulher não existe": a barra sobre o artigoA barra cai sobre o artigo, e não sobre as mulheres: não há A mulher, com maiúscula, porque não há universal que as reúna — as mulheres se contam uma a uma.S20 · 13 mar. 1973 S22 · 18 fev. 1975
73O andar de baixo: $ → a; La̶ → Φ e La̶ → S(Ⱥ)No quadro da sexuação, o andar de baixo: do lado macho, $ vai a a; do lado mulher, duas setas partem — uma para Φ, outra para S(Ⱥ). É o esquema do desencontro.S20 · 20 mar. 1973 S20 · 13 mar. 1973
74"Não há relação sexual" (S16, 12 mar. 1969 → S19, S20)Primeira ocorrência no corpus: 12 de março de 1969, no meio de uma lição sobre sublimação. Só anos depois vira escrita lógica, nas fórmulas da sexuação. Não quer dizer que não haja relações sexuais: quer dizer que não há fórmula que as escreva.S16 · 12 mar. 1969 S18 · 19 maio 1971 S20 · 20 mar. 1973
75A lógica modal: necessário, possível, contingente, impossível (S20)Necessário, possível, contingente, impossível — redefinidos pela escrita: o que não cessa de se escrever, o que cessa, o que cessa de não se escrever, o que não cessa de não se escrever.S20 · 8 maio 1973 S21 · 8 jan. 1974
76A controvérsia lógica sobre a escrita ∀̄x — a registrar, não a esconderA escrita ∀̄x é objeto de crítica lógica séria: negar um quantificador universal não é operação regular na lógica de predicados. É honesto registrar a disputa em vez de escondê-la.S19 · 14 jun. 1972 S20 · 20 mar. 1973

8. O pai e as estruturas

77Os três pais: real, simbólico, imaginárioReal, simbólico, imaginário: o que se ocupa, o que nomeia e o que rivaliza. Não são três pessoas, e nenhum deles é o pai da família.S4 · 19 jun. 1957 S22 · 15 abr. 1975
78O Nome-do-Pai como função significante (S5)O Nome-do-Pai é uma função significante, não um homem. Pode ser sustentada por qualquer coisa que nomeie o desejo da mãe — e é por isso que a foraclusão não é “ter tido um pai ausente”.S5 · 29 jan. 1958 S4 · 5 jun. 1957
79A metáfora paterna e sua escrita (S5, jan. 1958)A fórmula com quatro termos, em que o Nome-do-Pai substitui o Desejo da Mãe e o resultado é a significação fálica. Três lições seguidas, em janeiro de 1958.S5 · 29 jan. 1958 E De uma questão preliminar
80Os três tempos do Édipo — lógicos, não cronológicosTrês tempos lógicos, e não cronológicos: a criança como falo da mãe; a intervenção do pai como privação; e a permutação que dá o ter. Lê-los como etapas de desenvolvimento é o erro clássico.S5 · 29 jan. 1958 S5 todo o ano
81Recalque (Verdrängung) → neurose; retorno no simbólicoVerdrängung. O que é recalcado retorna no simbólico — no sintoma, no lapso, no sonho. É o mecanismo da neurose.S1 · 10 fev. 1954 S3 · 15 fev. 1956
82Desmentido (Verleugnung) → perversão; a clivagem; o feticheVerleugnung. Sabe-se e não se quer saber ao mesmo tempo: a clivagem. O fetiche é o monumento dessa recusa. Mecanismo da perversão.S6 · 24 jun. 1959 S4 todo o ano
83Foraclusão (Verwerfung) → psicose; retorno no real (S3, 15 fev. 1956)Verwerfung. O que não foi admitido no simbólico retorna no real — na alucinação, no fenômeno elementar. Mecanismo da psicose. É nesta data que a Verwerfung é distinguida do recalque; a tradução “forclusion” só é adotada em 4 de julho de 1956.S3 · 15 fev. 1956 S3 · 11 jan. 1956
84Os fenômenos elementares; a certeza; o neologismoO fenômeno elementar não é um fragmento de delírio: é a estrutura inteira em miniatura. Traz certeza, e não dúvida — e muitas vezes um neologismo.S3 · 23 nov. 1955 S3 todo o ano
85O desencadeamento e o encontro com "Um-pai"O desencadeamento dá-se quando um Um-pai surge em oposição ao sujeito num lugar em que o Nome-do-Pai nunca esteve. Daí ser possível uma psicose não desencadeada durante décadas.S3 · 4 jul. 1956 E De uma questão preliminar
86O delírio como reconstrução, não como destruiçãoO delírio é trabalho: uma tentativa de cura, uma reconstrução — e não uma ruína. Schreber constrói um mundo; não o perde.S3 todo o ano OE Apresentação das Memórias de um doente dos nervos
87Os esquemas R e I (D'une question préliminaire)O esquema R, com os vértices M, I, P e o campo da realidade; e o esquema I, com os buracos P₀ e Φ₀ e as curvas assintóticas. A nota de 1966 declara que o campo R é um corte de cross-cap.E De uma questão preliminar S13 · 15 dez. 1965
88A suplência e o sinthoma (S23); a père-version (S22)Quando o Nome-do-Pai não amarra, outra coisa pode fazer o trabalho: é a suplência, e o sinthoma é o seu nome no último ensino. Père-version: a versão do pai que faz de uma mulher a causa do seu desejo.S22 · 8 abr. 1975 S23 · 11 maio 1976
89Advertência ética: estrutura não se diagnostica por frase isoladaAdvertência ética. Estrutura não se diagnostica por uma frase isolada, nem por um traço de caráter, nem por um teste. O CyberLacan localiza conceitos; não autoriza ninguém a classificar ninguém.S3 todo o ano

9. A pulsão e a repetição

90Pulsão não é instinto; não há objeto naturalTrieb não é instinto: não tem objeto natural nem ciclo biológico. O objeto da pulsão é indiferente — o que conta é o contorno.S11 · 20 maio 1964 E Do “Trieb” de Freud
91O circuito: borda, alvo (but) e finalidade (fin); a satisfação no retorno (S11)A pulsão parte de uma borda, contorna o objeto e volta. O alvo (but) é o percurso; a finalidade (fin) é a satisfação — obtida no retorno, e não na captura.S11 · 20 maio 1964 S11 · 3 jun. 1964
92A voz média: se faire voir, se faire entendreSe faire voir, se faire entendre: a pulsão só se completa na voz média, em que o sujeito se faz objeto. É por aí que o olhar e a voz entram.S11 · 20 maio 1964
93As quatro pulsões e as quatro bordasOral, anal, escópica, invocante — e as bordas correspondentes: lábios, ânus, fenda palpebral, orifício do ouvido. A pulsão é sempre parcial.S11 · 20 maio 1964 S10 · 19 jun. 1963
94Automaton e tyché (S11, fev. 1964)Automaton: a insistência da cadeia, o que retorna sempre ao mesmo lugar. Tyche: o encontro faltoso com o real, que nunca se dá. Os dois nomes vêm de Aristóteles.S11 · 19 fev. 1964 S11 · 12 fev. 1964
95A compulsão à repetição e a insistência da cadeiaA Wiederholungszwang de Freud relida como insistência do significante: não se repete um acontecimento, repete-se uma posição na cadeia.S2 · 30 mar. 1955 S11 · 19 fev. 1964
96A carta roubada: os três lugares; as redes α β γ δ; a memória que emerge da simbolizaçãoOs três lugares e os três olhares: quem não vê; quem vê que o primeiro não vê; e quem vê que os dois primeiros deixam à vista o que há a esconder. O apêndice sobre as redes α β γ δ mostra uma memória que emerge da pura simbolização.S2 · 26 abr. 1955 S2 · 30 mar. 1955 E O seminário sobre “A carta roubada”
97O fort-da como par mínimo (S1, S11)O carretel: fort e da, ausência e presença. O par mínimo — dois significantes — com que uma criança inscreve a partida da mãe.S11 · 19 fev. 1964 S1 todo o ano

10. Angústia, ato, transferência

98A angústia não é sem objeto (S10)A formulação é negativa por necessidade lógica: dizer “a angústia tem um objeto” já a transformaria em medo. Ela não é sem objeto — e o objeto é o a.S10 · 30 jan. 1963 S10 todo o ano
99O quadro de dupla entrada: inibição/impedimento/embaraço; emoção/sintoma/passagem ao ato; turbulência/acting out/angústiaNove casas em três colunas e três linhas, montadas a partir do título de Freud: inibição, impedimento, embaraço; emoção, sintoma, passagem ao ato; turbulência, acting out, angústia.S10 · 5 dez. 1962 S10 · 26 jun. 1963
100Acting out × passagem ao ato — a distinção por posição (S10, 23 jan. 1963)Distinção por posição, e não por gravidade: o acting out é uma mostração endereçada ao Outro, que pede interpretação; na passagem ao ato o sujeito identifica-se ao objeto e cai da cena.S10 · 23 jan. 1963 S14 · 8 mar. 1967
101A angústia como o afeto que não enganaTodos os afetos enganam, porque deslizam de uma representação a outra. A angústia não: ela é a tradução subjetiva do objeto a, e por isso aponta certo.S10 todo o ano S10 · 6 mar. 1963
102Transferência: colocação em ato da realidade do inconsciente (S11)A definição do Seminário 11: colocação em ato da realidade do inconsciente — que é sexual. Não é “projeção do passado sobre o analista”, e essa diferença muda toda a condução.S11 · 29 abr. 1964 S8 todo o ano
103Erastês/erômenos; a metáfora do amor; Alcibíades e SócratesErastês, o que ama e não sabe o que lhe falta; erômenos, o amado, que não sabe o que tem. A metáfora do amor é a inversão dos dois — e é isso que Alcibíades pede a Sócrates, que recusa.S8 · 7 dez. 1960 S8 · 8 fev. 1961
104O amor: dar o que não se tem a quem não éDar o que não se tem: o amor é dar a própria falta. E “a quem não é” — porque se endereça ao ser do outro, e não aos seus atributos.S8 · 23 nov. 1960 S5 · 29 jan. 1958
105O sujeito suposto saber e sua queda (S15)Não é um saber que o analista tenha: é um saber que lhe é suposto, e é essa suposição que faz a transferência funcionar. No fim, ele cai — e a queda é o que se verifica no passe.S11 · 24 jun. 1964 S15 · 17 jan. 1968
106A fórmula da transferência da Proposição de 1967A fórmula escrita na Proposição de 1967, que articula o significante da transferência ao saber suposto. É o texto a pôr ao lado do Seminário 15.OE Proposição de 9 de outubro de 1967 S15 · 21 fev. 1968
107O ato distinguido da ação; a destituição subjetiva; o passeO ato não é uma ação: é o que muda o sujeito que o pratica. A destituição subjetiva é o seu efeito no fim de análise, e o passe é o dispositivo para verificar se houve.S15 · 21 fev. 1968 S15 · 10 jan. 1968
108O desejo do analistaNão é o desejo de que o paciente melhore, nem o de curar. É a função que sustenta a operação sem colocar ali o próprio querer — e, no fim do Seminário 11, Lacan o diz um desejo de obter a diferença absoluta.S11 · 24 jun. 1964 OE Nota italiana

11. Os discursos

109Os quatro lugares: agente, outro, verdade, produçãoQuatro lugares fixos: agente (em cima à esquerda), outro (em cima à direita), verdade (embaixo à esquerda), produção (embaixo à direita). O que importa é a função do lugar, não o termo que ali passa.S17 · 11 mar. 1970 S17 · 17 dez. 1969
110Os quatro termos: S₁, S₂, a, $Quatro termos que giram pelos quatro lugares: S₁, o significante-mestre; S₂, o saber; a, o mais-de-gozar; $, o sujeito dividido.S17 · 17 dez. 1969 S17 · 11 mar. 1970
111As duas barras: o impossível (acima) e a impotência (abaixo)Duas barras que não são iguais: a de cima, entre agente e outro, marca o impossível; a de baixo, entre verdade e produção, marca a impotência. Trocá-las é ler os quatro discursos ao contrário.S17 · 11 mar. 1970 S17 · 10 jun. 1970
112Discurso do mestre; impossível: governarS₁ no lugar do agente. Impossível: governar. É do discurso do mestre que o analítico é o avesso — daí o título do seminário.S17 · 18 fev. 1970 S17 · 11 fev. 1970
113Discurso universitário; impossível: educarS₂ no lugar do agente: o saber comanda, e produz um sujeito dividido. Impossível: educar.S17 · 11 mar. 1970 S17 · 17 jun. 1970
114Discurso da histérica; ele produz saber$ no lugar do agente: a histérica interroga o mestre e o faz produzir saber. É o único discurso que produz S₂ — e por isso o discurso da ciência lhe deve algo.S17 · 17 dez. 1969 S16 · 18 jun. 1969
115Discurso do analista; impossível: psicanalisara no lugar do agente: o analista faz-se causa, e produz S₁. Impossível: psicanalisar.S17 · 11 mar. 1970 S17 · 10 jun. 1970
116O quarto de volta e o sentido da rotaçãoOs quatro discursos não são quatro invenções: são as quatro posições que se obtêm girando os mesmos termos um quarto de volta. A rotação é a tese.S17 · 11 mar. 1970 S17 · 26 nov. 1969
117O discurso capitalista e o circuito fechado sem perda (S17; Milão 1972)Um quinto, escrito fora do seminário: um circuito que se fecha sobre si mesmo e não produz perda. Aparece no Seminário 17 e é escrito na conferência de Milão, em 1972 — que não está nos Autres écrits.S17 · 9 abr. 1970 S17 · 11 mar. 1970
118A releitura de Totem e tabu como mito e a crítica do Édipo (S17)Totem e tabu lido como mito, e não como história: o pai morto não explica a lei, é um efeito dela. Daí a crítica ao Édipo como “sonho de Freud”.S17 · 18 mar. 1970 S17 · 11 mar. 1970

12. Topologia

119Por que topologia e não geometria: a estrutura sem métricaTopologia é o estudo do que resta invariante sob deformação contínua: vizinhança, borda, furo. Não há medida, não há distância — e é por isso que serve a uma estrutura que não é espacial.S9 · 30 maio 1962 S21 · 15 jan. 1974
120Banda de Möbius: um lado, uma borda, não orientabilidade (S12, S13)Um lado, uma borda, não orientável. Corta-se ao meio e não se obtêm duas fitas: obtém-se uma só, o dobro do comprimento. O corte é o operador, não a figura.S9 · 13 jun. 1962 S12 · 16 jun. 1965 S13 · 15 dez. 1965
121Toro: demanda e desejo; as duas voltas; os números de enrolamento (S9)Duas voltas irredutíveis: a demanda dá voltas em torno do tubo, e a soma dessas voltas contorna, sem que o sujeito o saiba, o furo central — o lugar do desejo. Ao contar as suas voltas, o sujeito conta uma a menos.S9 · 30 maio 1962 S9 · 11 abr. 1962
122Cross-cap / plano projetivo; a autointerseção como necessidade de ℝ³; a extração do disco (S9, S13)O plano projetivo. A autointerseção não pertence à superfície: é o preço de desenhá-la em três dimensões. Extrair um disco deixa uma banda de Möbius — e é essa extração que escreve o objeto.S9 · 13 jun. 1962 S13 · 15 dez. 1965
123Garrafa de Klein: sem borda, sem interior, não separa o espaço (S12, dez. 1964–jan. 1965)Sem borda, sem interior, não separa o espaço em dentro e fora. O círculo de retrocesso é por onde a superfície se atravessa a si mesma.S12 · 16 dez. 1964 S12 · 20 jan. 1965
124O corte como ato; o oito interiorO corte não representa o ato: é o ato. E o oito interior é o corte que, aplicado ao cross-cap, destaca o objeto.S9 · 30 maio 1962 S9 · 27 jun. 1962
125O que um corte produz: número de peças, orientabilidade, bordas, característica de EulerDe um corte responde-se por quatro contas: quantas peças resultam, se são orientáveis, quantas bordas ficam, e qual a característica de Euler. É o que torna a figura verificável, e não decorativa.S13 · 30 mar. 1966 S9 · 13 jun. 1962
126Nó borromeano (S20, 15 maio 1973); o nó de quatro (S22, S23); a trança (S21, S24); a reta infinita e o nó de trevo (S22)O de três entra em 1972, no Seminário 19, e volta em maio de 1973; o de quatro, quando o de três falha; a trança escreve o nó no tempo; e a reta infinita vale por um círculo, o que muda o que se pode atar.S20 · 15 maio 1973 S22 · 13 maio 1975 S21 · 18 dez. 1973 S24 · 18 jan. 1977
127A advertência: o uso lacaniano é heurístico e disputado; marcar sempre a interpretaçãoAdvertência. O uso lacaniano da topologia é heurístico e disputado por matemáticos. Isso não o invalida — obriga a marcar sempre onde termina o teorema e começa a interpretação.S24 · 10 maio 1977 S22 · 8 abr. 1975

13. Lógica, número, ciência

128Frege e a gênese do número; a sutura (S12)Zero, número, sucessor: o zero é o número que se atribui ao conceito de “não-idêntico-a-si”, e é contando-o que a série começa.S12 · 27 jan. 1965 S19 · 19 jan. 1972
129Peirce e o quadrado lógico; os quantificadores (S15, S19)O quadrado lógico e os quantificadores discutidos a partir de Peirce — inclusive o caso em que não há nenhum sujeito a que o predicado se aplique.S15 · 7 fev. 1968 S19 · 14 jun. 1972
130Gödel e a incompletude — e o limite da analogia (S16, S19)Um sistema suficientemente rico não pode ser ao mesmo tempo completo e consistente. Lacan usa-o, e o limite da analogia tem de ser dito: incompletude é um teorema sobre sistemas formais, não sobre o Outro.S16 · 11 dez. 1968 S19 · 12 jan. 1972
131O número de ouro e Fibonacci como escrita do resto (S14, S16)A série de Fibonacci e a proporção áurea usadas para escrever o resto que não se deixa dividir — o a como o que sobra de toda partilha.S14 · 19 abr. 1967 S16 · 29 jan. 1969
132"Y a d'l'Un" (S19)Há do Um: nem unidade, nem indivíduo — o Um do traço, anterior a qualquer par.S19 · 17 maio 1972 S19 · 19 abr. 1972
133A teoria dos conjuntos; o Um-a-maisO conjunto, o elemento, o vazio — e o Um-a-mais que impede que o todo se feche. Cantor entra aqui, com os alephs e o inacessível.S19 · 10 maio 1972 S21 · 8 jan. 1974
134O sujeito da ciência é o sujeito da psicanálise (A ciência e a verdade)O sujeito sobre o qual a psicanálise opera é o mesmo que a ciência moderna produziu e de que não quer saber. A tese está no último texto dos Écrits.E A ciência e a verdade S13 · 8 dez. 1965
135A foraclusão do sujeito pela ciênciaA ciência opera foracluindo o sujeito: não é que ela o ignore por descuido — é condição do seu funcionamento. Daí a psicanálise não ser uma ciência e não ser por isso menos rigorosa.S13 · 8 dez. 1965 S25 · 15 nov. 1977

14. Interlocutores que precisam ser apresentados

136Freud — obviamente, e texto a textoFreud é lido texto a texto, e quase sempre contra a leitura corrente dele. O retorno a Freud é um retorno à letra do texto freudiano.S1 todo o ano S11 todo o ano
137Saussure — e a inversão que Lacan lhe impõeSaussure é usado e invertido: o esquema do signo é virado, a elipse é cortada, e a barra passa a ser resistência. Citar Saussure para explicar Lacan sem dizer isso é reproduzir o contrário do que ele fez.S3 · 6 jun. 1956 E A instância da letra
138Jakobson — metáfora/metonímia como eixosOs dois eixos — seleção e combinação — recebidos de Jakobson e transformados em metáfora e metonímia. Jakobson esteve no seminário.S5 · 6 nov. 1957 S14 todo o ano
139Lévi-Strauss — a eficácia simbólica; a estrutura (S2)A eficácia simbólica e a noção de estrutura vêm daqui. Em 1956, Lacan intervém depois de uma exposição de Lévi-Strauss na Sociedade Francesa de Filosofia — e a resposta dele está publicada.S2 todo o ano L O mito individual do neurótico
140Hegel via Kojève — desejo e reconhecimento (S1, S2)Hegel chega pelo curso de Kojève: o desejo de reconhecimento, a luta, a dialética do senhor e do escravo. Nos anos 50 é decisivo; no fim, Lacan afasta-se dele explicitamente.S2 · 12 jan. 1955 S16 · 25 jun. 1969
141Heidegger — a Coisa, a fala, o vaso (S1, S7, S9)A Coisa, a fala, o vaso — e a tradução que Lacan fez do Logos de Heráclito. Presente nos anos 50 e 60, e depois quase ausente.S7 · 27 jan. 1960 S9 todo o ano
142Kant (S7, S9) e Sade (S7)Kant pela ética e pelo objeto; Sade como a verdade de Kant. O texto “Kant com Sade” é de 1962, mas exige o Seminário 7 inteiro.S7 · 15 jun. 1960 S9 · 28 fev. 1962 E Kant com Sade
143Platão — o Banquete (S8)O Banquete é lido por inteiro, discurso a discurso, na primeira metade do Seminário 8. É a leitura de um texto filosófico mais longa de toda a obra.S8 · 23 nov. 1960 S8 · 8 fev. 1961
144Aristóteles — o quadrado lógico, a ética (S7, S19, S20)O quadrado lógico, a Ética a Nicômaco, automaton e tyche, e a questão do universal — Aristóteles é o interlocutor lógico constante.S7 todo o ano S11 · 19 fev. 1964 S20 · 8 maio 1973
145Pascal — a aposta (S16)A aposta de Pascal é retomada duas vezes, e serve para escrever o que se ganha e o que se perde quando o que está em jogo é o gozo.S13 · 9 fev. 1966 S16 · 12 fev. 1969
146Marx — a mais-valia (S16, S17)A mais-valia dá o modelo formal do mais-de-gozar — por homologia. E o discurso do mestre, com o seu avesso, deve a Marx a estrutura do que é produzido e de quem fica com o produto.S16 · 4 dez. 1968 S17 · 11 fev. 1970
147Sófocles — Antígona (S7); Shakespeare — Hamlet (S6)Antígona ocupa quatro lições do Seminário 7; Hamlet, sete do Seminário 6. São as duas leituras literárias longas do período clássico.S7 · 15 jun. 1960 S6 · 27 maio 1959
148Joyce (S18, S20, S23)Joyce atravessa o último ensino: aparece como exemplo do gozo da letra, e no Seminário 23 torna-se o caso de uma suplência pela escrita.S18 todo o ano S23 · 11 maio 1976
149Pichon e Damourette — a gramática (S3, S6)A gramática de Damourette e Pichon é usada a sério: o “ne” discordancial, as duas frases sobre a negação, e o lugar do sujeito da enunciação na sintaxe francesa.S3 · 13 jun. 1956 S6 · 17 dez. 1958
150Jones, Klein, Balint, Winnicott, Anna Freud, Hartmann — os interlocutores polêmicosJones pelo simbolismo, Klein pelo objeto, Balint e Winnicott pela técnica, Anna Freud e Hartmann pelo eu. São interlocutores polêmicos: Lacan lê-os de perto e discorda ponto por ponto.S1 · 17 fev. 1954 S4 · 28 nov. 1956 S15 · 6 dez. 1967

15. Os casos e as demonstrações

151Dora (S1, 1954; S17, 18 fev. 1970)Lida três vezes, e cada vez de outro modo: em 1951 pelas inversões dialéticas; no Seminário 1 na sequência da técnica; e no Seminário 17 como a histérica que faz o mestre produzir saber. As três leituras não coincidem.S1 · 12 maio 1954 S17 · 18 fev. 1970 E Intervenção sobre a transferência
152O pequeno Hans (S4, abr.–jun. 1957)A fobia lida como mito: uma construção que supre o que a função paterna não amarrou. O cavalo não é um símbolo do pai — é uma solução.S4 · 27 mar. 1957 S4 · 3 jul. 1957
153O Homem dos Lobos (S1, 19 maio 1954)Lido no Seminário 1 a propósito da Verwerfung: a alucinação do dedo cortado, que não foi recalcada e por isso retorna no real.S1 todo o ano S3 · 15 fev. 1956
154Schreber (S3, todo o ano)Schreber ocupa o Seminário 3 inteiro. O delírio como reconstrução; a Grundsprache; as “frases interrompidas”; e o “seria belo ser uma mulher submetida ao coito”.S3 todo o ano S3 · 21 mar. 1956
155Aimée (a tese de 1932)O caso da tese de 1932 — trezentas páginas, o único caso longo de toda a obra. Não está nos Écrits, e é o que falta a quase toda leitura da psicose.L Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade
156O sonho da injeção de Irma (S2)O sonho de Freud, lido como demonstração de que o sonho é estruturado como linguagem — e de que no seu fundo há um horror inominável, a garganta de Irma.S2 · 16 mar. 1955 S2 · 26 jan. 1955
157O sonho da bela açougueira (Direção do tratamento)A paciente que quer caviar e não come: o desejo insatisfeito sustentado como tal. É o exemplo canônico do desejo da histérica, e está no texto de 1958.S5 · 7 maio 1958 E A direção do tratamento
158O sonho de Ella Sharpe (S6, jan.–fev. 1959)O sonho analisado por Ella Sharpe, e a crítica de Lacan à leitura dela. O ponto é a função do significante no sonho, e não o conteúdo.S6 · 11 fev. 1959 S6 todo o ano
159O esquecimento de Signorelli (S5, 20 nov. 1957)O nome esquecido, e a rede de associações que o substitui. Serve para mostrar o mecanismo da metáfora em ato — e reaparece anos depois, no Seminário 12.S5 · 20 nov. 1957 S12 · 6 jan. 1965
160Hamlet (S6, mar.–abr. 1959)Sete lições sobre Hamlet, em que o desejo se lê no tempo: o luto, o falo, Ofélia como objeto, e a hora do ato que nunca chega.S6 · 27 maio 1959 S8 · 24 maio 1961
161Antígona (S7, maio–jun. 1960)Quatro lições. A Áte, o ektos atas, a beleza como último véu; e a catarse relida por Jacob Bernays. É a demonstração da ética do desejo.S7 · 15 jun. 1960 S7 · 29 jun. 1960
162Las Meninas (S13, maio 1966)Três lições sobre o quadro de Velázquez: a janela, o espelho, e a pergunta de onde o quadro nos vê. Michel Foucault estava na sala.S13 · 25 maio 1966 S13 · 18 maio 1966
163Os Embaixadores de Holbein (S7, S11)A caveira em anamorfose no primeiro plano: o olhar que só se vê saindo de frente. Usado no Seminário 7 pela sublimação, e no 11 pelo objeto escópico.S7 · 10 fev. 1960 S11 · 26 fev. 1964
164Joyce (S23)Joyce não é tomado como paciente: é tomado como obra. A pergunta “Joyce era louco?” é feita em voz alta a Jacques Aubert e deixada sem resposta.S23 · 10 fev. 1976 S23 · 11 maio 1976

16. O último ensino (1973–1979) — a família que faltava

Estes 36 itens são os do último ensino. Eles fecham a lista e são, hoje, a parte mais citada e a pior compreendida da obra.

165Les non-dupes errent / les Noms-du-Père — o equívoco homofônico como tese (S21, 13 nov. 1973)Les non-dupes errent soa como les Noms-du-Père. O equívoco é a tese: nos dois termos é o mesmo saber, e é preciso ser dupe — colar à estrutura.S21 · 13 nov. 1973 S21 · 11 dez. 1973
166Por que a recusa da ficção paterna produz extravio e não lucidezQuem recusa a ficção paterna não fica mais lúcido: fica errante. Não é um elogio da crença — é a constatação de que sem amarração não há orientação.S21 · 13 nov. 1973 S21 · 11 dez. 1973
167O matema como programa de transmissão sem o mestre (S21, abertura)O matema é o que se transmite sem passar pela pessoa do mestre: uma escrita que se pode repetir sem compreender, e compreender depois.S21 · 13 nov. 1973 S20 · 15 maio 1973
168As três dit-mensions de cada registro: consistência, ex-sistência, furo (S22)Cada registro tem três dit-mensões: consistência, ex-sistência e furo. É a grade com que todo o Seminário 22 trabalha.S22 · 17 dez. 1974 S22 · 11 fev. 1975
169Consistência — o que segura; dominância imagináriaO que segura, o que faz corda. Dominância do imaginário — e por isso o imaginário deixa de ser o registro menor.S22 · 17 dez. 1974 S22 · 11 fev. 1975
170Ex-sistência — o que insiste de fora; dominância realO que insiste de fora e não se deixa absorver. Dominância do real. A grafia com hífen é do próprio Lacan, e marca que se existe menos dentro do que fora.S22 · 17 dez. 1974 S22 · 11 fev. 1975
171Furo — o que a linguagem abre; dominância simbólicaO que a linguagem abre e não fecha. Dominância do simbólico — o furo é a marca de que há significante.S22 · 17 dez. 1974 S22 · 11 fev. 1975
172A reta infinita como equivalente do círculo no nó (S22, dez. 1974)Uma reta infinita vale topologicamente por um círculo: fecha-se no infinito. É o que permite atar com retas o que se ataria com argolas.S22 · 17 dez. 1974 S23 todo o ano
173O nó de trevo e sua diferença do borromeanoNo trevo, os três se fazem de um só fio: cortado, desfaz-se tudo. É a figura oposta à borromeana, e serve para mostrar o que a borromeana tem de próprio.S23 · 10 fev. 1976
174A trança (tresse): o nó escrito no tempo (S21; S24, 18 jan. 1977)Tresse: o nó escrito no tempo, como sucessão de manobras. Com três fios, seis cruzamentos alternados bastam para tecer o nó borromeano.S21 · 18 dez. 1973 S24 · 18 jan. 1977
175A nominação e seus três modos (S22, 13 maio 1975)Vinte e duas das vinte e cinco ocorrências do ano numa só lição, a última: nomear é o que faz o quarto elo.S22 · 13 maio 1975
176— nominação imaginária → inibiçãoNominação imaginária — e o que dela resulta é a inibição.S22 · 13 maio 1975
177— nominação simbólica → sintomaNominação simbólica — e o que dela resulta é o sintoma.S22 · 13 maio 1975
178— nominação real → angústiaNominação real — e o que dela resulta é a angústia.S22 · 13 maio 1975
179O sintoma como quarto elo (S22, 21 jan. 1975)O sintoma promovido a quarto elo: não é mais o que se decifra para desaparecer, é o que ata. A mudança de estatuto acontece aqui.S22 · 21 jan. 1975 S22 · 13 maio 1975
180O sinthoma (S23, 18 nov. 1975) — e sua distinção do sintomaGrafia antiga de symptôme, recuperada para nomear o que não se decifra. O sintoma se interpreta; o sinthoma, não — com ele se aprende a fazer.S23 · 18 nov. 1975 S23 · 17 fev. 1976
181O lapso do nó e sua reparação (S23, 17 fev. 1976)A expressão aparece uma só vez em todo o corpus. Um erro no entrelaçamento desfaz o nó; o sinthoma é o que vem repará-lo.S23 · 17 fev. 1976
182A suplência: o que faz o trabalho do Nome-do-Pai sem passar por eleO que faz o trabalho do Nome-do-Pai sem passar por ele. Não é substituto nem prótese: é outra solução para o mesmo problema de amarração.S23 · 11 maio 1976 S22 · 15 abr. 1975
183O ego de Joyce como suplência pela escrita (S23, 11 maio 1976)Faltando-lhe a amarração paterna, Joyce construiu com a escrita um ego que segurou o nó. É o modelo do que uma suplência faz — e catorze das dezessete ocorrências de “ego” no ano estão nesta lição.S23 · 11 maio 1976
184Joyce como leitura de uma obra, não como caso clínicoJoyce não é um caso clínico: é a leitura de uma obra. A diferença é de método, e ignorá-la transforma o seminário num diagnóstico póstumo.S23 · 10 fev. 1976 S23 · 16 mar. 1976
185Ulisses e Finnegans Wake no argumentoUlisses e sobretudo o Finnegans Wake, lido como sonho e como escrita que goza da letra. Clive Hart e o círculo e a cruz entram aqui.S23 · 16 mar. 1976 S23 · 11 maio 1976
186Père-version: o pai que faz de uma mulher a causa de seu desejo (S22, S23)Père-version: versão do pai, e não perversão. O pai que serve é o que faz de uma mulher a causa do seu desejo — e só nessa medida.S22 · 21 jan. 1975 S23 · 18 nov. 1975
187Parlêtre — o falasser, e por que ele substitui "sujeito" (S22, 11 mar. 1975)Parlêtre, o falasser: um corpo afetado por lalíngua. Vai substituindo “sujeito” nos últimos anos, e a substituição é uma tese sobre o corpo.S22 · 11 mar. 1975 S22 · 17 dez. 1974
188L'une-bévue: Unbewusst traduzido por "uma-equivocação" (S24)Une-bévue traduz Unbewusst ao pé da letra: um-engano. Desloca o inconsciente do registro do saber recalcado para o do tropeço.S24 · 14 dez. 1976 S24 · 17 maio 1977
189O inconsciente como tropeço e não como saber profundoConsequência do anterior: o inconsciente não é um saber profundo que se alcança, é um engano de uma vez que se repete.S24 · 14 dez. 1976 S24 · 16 nov. 1976
190A releitura da identificação pelo nó (S24, 16 nov. 1976)A identificação, matéria do Seminário 9, é retomada quinze anos depois com o nó no lugar do traço unário.S24 · 16 nov. 1976 S9 · 29 nov. 1961
191O fim de análise no último ensino: identificar-se com o sintoma / saber fazer com eleNão mais atravessar a fantasia: identificar-se ao sintoma, e saber fazer com ele. A mudança de definição é o que separa o último ensino dos anos 60.S23 · 13 jan. 1976 S25 · 10 jan. 1978
192A diferença entre dissolver o sintoma e saber fazer com o sinthomaDissolver o sintoma supõe que ele seja todo decifrável. Saber fazer com o sinthoma supõe que não seja — e é a segunda proposição que o último ensino sustenta.S23 · 13 jan. 1976 S23 · 17 fev. 1976
193O savoir-faire e a responsabilidade (S23, 13 jan. 1976)“Só se é responsável na medida do seu savoir-faire. O que é o savoir-faire? É a arte, o artifício.” A ética do último ensino cabe nestas duas frases.S23 · 13 jan. 1976
194"A psicanálise deve ser levada a sério, mas não é uma ciência" (S25) — e como conciliar com "A ciência e a verdade"Dita na abertura do Seminário 25 — e é preciso pô-la ao lado de “A ciência e a verdade”, de 1965, que parecia dizer o contrário. Não dizem: um fala do sujeito que a ciência produz, o outro do estatuto da prática.S25 · 15 nov. 1977 S13 · 8 dez. 1965
195O real sem sentido, no seu estatuto final (S23, 13 abr. 1976)O real no seu estatuto final: não o impossível lógico dos anos 60, mas o que não tem sentido nenhum — um “bocado”, diz ele, sem o menor sentido.S23 · 13 abr. 1976 S22 · 11 mar. 1975
196O trabalho matemático com Soury e Thomé: a psicanálise como pesquisa coletiva (S22–S25)Michel Soury e Michel Thomé trabalham os nós com Lacan, e corrigem-no. A psicanálise aparece aqui como pesquisa coletiva, e não como doutrina de um só.S22 · 8 abr. 1975 S25 · 17 jan. 1978
197Os erros de nó de Lacan, reconhecidos por ele — e o que isso ensina sobre o estatuto da figuraLacan erra nós, é corrigido, e diz em voz alta que errou. Isso ensina o estatuto da figura: ela é verificável, e por isso pode estar errada — o que não acontece com uma metáfora.S24 · 10 maio 1977 S25 · 21 mar. 1978
198O momento de concluir e sua relação com o tempo lógico de 1945O título do último seminário vem do sofisma de 1945: o momento de concluir é o terceiro tempo, aquele em que se decide antes de ter certeza.S25 · 10 jan. 1978 E O tempo lógico
199A dissolução da École (1980) e a Lettre de dissolutionEm janeiro de 1980 Lacan dissolve a École que fundara em 1964. “Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”OE Carta de dissolução S25 todo o ano
200A escrita como operação, e não como registro (S21, S23, S24)A escrita deixa de ser registro do que se disse e passa a ser operação: o que faz furo, o que ata, o que repara. É o que Joyce faz, e é o que o nó escreve.S21 · 18 dez. 1973 S23 · 11 maio 1976 S24 · 8 mar. 1977

17. Nota sobre a proporção

A lista mestra tem 200 itens. Vale observar como eles se distribuem, porque a distribuição é ela mesma uma informação sobre a obra:

  • 1953–1963 (S1–S10) concentra a maior parte dos itens de conceito: significante, sujeito, Outro, desejo, objeto, falo, estruturas. É a década em que o vocabulário se forma.
  • 1964–1972 (S11–S19) concentra os itens de formalização: topologia das superfícies, lógica, quantificadores, discursos. É a década em que o vocabulário é submetido a escrita.
  • 1973–1979 (S20–S25) concentra os itens de nó e de fim de análise. É a década em que a escrita se torna manipulação, e em que a clínica é reformulada a partir dela.

Um material didático que trate as três décadas com o mesmo peso reproduz um Lacan que não existiu. Um que trate só a primeira produz o Lacan dos manuais. Um que trate só a terceira produz o Lacan da moda — e ininteligível, porque o último ensino é integralmente uma reescrita do anterior.